ALBERTO BITTENCOURT - Palestrante, motivador, consultor, escritor, biógrafo pessoal

ALBERTO BITTENCOURT - Palestrante, motivador, consultor, escritor, biógrafo pessoal
ALBERTO BITTENCOURT - Palestrante, conferencista, motivador, consultor, escritor, biógrafo pessoal

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

INCOMPATIBILIDADE FATAL

INCOMPATIBILIDADE FATAL         
                                                                                   Alberto Bittencourt  - julho, 2005


        




Não há lugar para a prática de política partidária no movimento rotário. Qualquer cidadão, sendo político, deve se desligar do Rotary, ou sendo rotariano, deve se desligar da política.

        O Rotary, desde a sua concepção, é um movimento apolítico. Não tem, nem pode ter, afiliação partidária, tampouco adota credo religioso, nem faz distinção de raças, classes sociais, ou alimenta sectarismos, sejam eles de que natureza forem.

        Após havermos visitado os 91 Rotary Clubs do Distrito 4500 no segundo semestre de 2004, ano essencialmente político, com eleições para prefeitos e vereadores transcorridas no dia 3 de outubro passado, chegamos à conclusão, Helena e eu, que a filosofia do Rotary está mais certa do que nunca. Ser apolítico como instituição, é um princípio ético existente desde que o Rotary é Rotary e isso não pode mudar.

        Percorremos clubes inteiramente desagregados, divididos, perdidos, que praticamente desapareceram nos meses que antecederam às eleições e, mesmo depois delas levaram tempo para se recomporem, na tentativa de se recuperarem dos traumas sofridos.

        Vimos clubes que suspenderam todas as atividades meses antes do pleito e que, somente por um milagre conseguiram retomar as rotinas normais.

Vimos clubes, que, a pretexto das eleições, deixaram de funcionar, de cumprir compromissos e nunca mais se recuperaram, desagregando-se, desmobilizando-se, perdendo-se definitivamente para o trabalho voluntário do Rotary.

        Há clubes que antes das eleições eram médios, com 20 ou 30 sócios. Depois, o que restou foram escombros. Restos recompostos do que antes fora um pujante Rotary Club.

        Há o caso, verídico, daquele tesoureiro de clube, que se candidatou a vereador da pequena cidade, sem se desincompatibilizar. Perdeu a eleição e o clube perdeu o companheiro, as finanças e até talões de cheques. Até hoje chora o leite derramado.

        O presidente de outro clube em nosso Distrito foi candidato a prefeito. Então estava escrita a crônica da morte anunciada. Vinte e quatro sócios, situação financeira estável, em dia. Em março o clube deixou de se reunir. Havia outros companheiros candidatos a vereadores. Outubro: o companheiro presidente, candidato a prefeito, não se elegeu, gastou o que podia e o que não podia. Botou a culpa nos rotarianos, divididos, que não o apoiaram. Rotary? Perda de tempo, gasto inútil de dinheiro que não tenho mais. Não quero nem saber. E os companheiros espalhados, dispersos, desagregados, perderam a fé e a esperança. Nunca mais se reuniram.

        Quando a política partidária permeia o clube, quando rotarianos levam para reuniões rotárias suas preferências eleitorais, a divisão se instala. Desinstala-se a unidade, o companheirismo. A sobrevida passa a ser curta. Está decretada a morte para mais cedo ou mais tarde.

E por que isso ocorre? Simplesmente porque a filosofia do Rotary é incompatível com a política partidária, nos moldes como ela se desenrola em nosso país, muito principalmente no interior do nordeste. Estou mais do que convicto dessa incompatibilidade. Tenho a mais plena certeza de que ou é um, ou é outro. Os dois, rotariano e político não coexistem. A razão? É que o Rotary prega a união, enquanto a política divide.

        Mas, por que, essa instituição centenária que, ao completar 100 anos de existência dá ao mundo uma prova, de sua força e de sua importância, por que, essa instituição, dinâmica, ágil, evoluída, que não é estática, nem acomodada, torna-se, de repente, frágil ante as lides e disputas eleitorai?

        Creio que a resposta, simples, é porque a eterna obsessão do ser humano, a mais louca, mais forte, mais constante paixão que acomete o homem, não é o trabalho voluntário, muitas vezes anônimo, não é a fraternidade, o amor ao próximo. O que move os homens, mais até do que o sexo, é a disputa pelo poder. É da natureza humana. Todos querem sentir o gosto do poder, ter poder, cada vez mais, definitivamente, sentir-se poderoso, sentir-se autoridade.

        Aí está a grande diferença. Segundo afirmou o ex-presidente do Rotary, Jonatan Magiaby: 

          Em Rotary, ninguém tem poder, ninguém tem autoridade. O que nós temos em Rotary são diferentes níveis de responsabilidade.

É essa a principal diferença entre o ser rotariano, e o ser político.

Mas não é apenas isso. Há muitas outras diferenças.

        Um rotariano não pode ter inimigos, nem adversários. O rotariano é amigo e companheiro de todos, indistintamente. Já ao contrário, todo político, seja ele de bom ou mau caráter, tem inimigos. Mesmo o mais honesto, o mais correto, o mais devotado à causa pública, o mais voltado para o social, para o povo, nem por isso vai deixar de ter seus inimigos. São as pessoas interessadas em derrubá-lo, em usurpar uma fatia de seu poder, em não deixar que cresça, para que não se transforme em ameaça. São inimigos que muita vezes agem, na surdina, sem se mostrarem, sem aparecerem, sem se declararem como tal.

        Além disso, o rotariano, prega a prestação de serviço voluntário, o trabalho desinteressado em favor do próximo, a ajuda a quem precisa, o fazer o bem sem olhar a quem, o Olhe mais além de si mesmo. Já o político, tudo o que faz visa o interesse próprio, visa arranjar votos nas eleições seguintes, aliciar sempre novos eleitores.

        O rotariano prega e pratica sempre a verdade, como um código de ética, em tudo o que pensa, diz e faz. Já no político não se pode confiar. Tem a palavra fácil para prometer o que não cumpre, a parte mais difícil. Todo político, em princípio, não reza pelo primeiro quesito da prova quádrupla, posto que, sempre distorce a verdade dos fatos, colocados ao sabor de seus interesses eleitoreiros. 

    Já dizia Roberto Campos: Em política o que importa não é o fato, mas a versão.

O rotariano valoriza o trabalho em equipe e para tanto, organiza-se em comissões, em grupos de trabalho, para melhor alcançar os objetivos e metas. Já o político faz complôs. Articula-se em grupos e grupelhos que variam conforme os interesses do momento. São as famosas alianças. Os que ontem eram inimigos, adversários ferrenhos, hoje são confrades, amigos, íntimos e sinceros, verdadeiros “irmãos”.

Assim, o político conspira, age nos bastidores, na surdina, nas sombras, procura sempre solapar as bases adversárias, mesmo que, para tanto, precise empregar recursos fabricados, fictícios, falsos. E ainda se aproveita da mídia, para propalar inverdades.

        Mas a principal diferença é quanto à honestidade. O ex-presidente do Rotary Internacional, mestre Luís Vicente Giay, talhou uma frase lapidar e definitiva. 

        Disse que a diferença entre o rotariano e o político é que o político privatiza recursos que são públicos, enquanto o rotariano torna públicos recursos que são privados.

        Os políticos, com raras e honrosas exceções são desonestos. Legislam em causa própria. Recebem vantagens, propinas, privilégios, para votarem em projetos de interesses setoriais.

        E ainda há os famosos “fundos de campanha”, chamados FC, um verdadeiro promotor de enriquecimentos. Esses não se limitam ao período eleitoral, subsistem durante toda a duração dos mandatos, sejam de que nível forem. Funcionam na base dos achaques a fornecedores, empreiteiros, prestadores de serviços.

        Pelo dito, estou mais do que convicto que não pode haver político nas fileiras do Rotary. O político não abraça o ideal, nem a filosofia do Rotary de Dar de si antes de pensar em si.

        Então, se alguém, em algum clube de Rotary tiver a pretensão de concorrer a qualquer cargo político, que se desvincule no ano da eleição. Se for eleito, não deve voltar ao clube. Se perder, talvez, avaliadas as circunstâncias.

Chego a vaticinar: que se desliguem os políticos, ou algo de muito ruim pode acontecer com os clubes. Os clubes de Rotary devem afastar, eliminar tudo o que divide, tudo o que separa.

Trazer candidatos para exporem suas plataformas nas plenárias do clube, como sói acontecer, também pode ser um equívoco, pode dividir, separar.

        Não quer dizer que, fora do período eleitoral, o político, eleito, consagrado por seus ideais, não possa vir ao clube como convidado, apresentar seu trabalho em prol da causa pública.

        O Rotary, sendo apolítico, tem credenciais para se aproximar de qualquer governo, seja de que partido for, para pedir e oferecer parceria, visando unicamente, o bem público, ajudar a quem precisa, crianças, jovens em situação de risco, idosos, enfermos, deficientes, comunidades carentes.

        O rotariano alavanca políticas públicas construtivas e age como um fiscal. Onde houver sinal de malversação de recursos públicos ele usa as ferramentas de que dispõe: denúncias as Ministério Público, aos Tribunais de Conta, à imprensa.

        O rotariano é um cavaleiro andante na luta contra a concentração de renda neste país, em que a miséria é uma chaga crescente, exposta. Ele investe contra os maus políticos e maus administradores públicos, qual Dom Quixote, na luta do bem contra o mal. Que cada rotariano seja um Dom Quixote, com toda a sua pureza de intenções e de propósitos, no combate à desonestidade, bradando como no musical “O Homem de La Mancha”:

 

Sonhar o sonho impossível

Vencer o inimigo invencível

Chegar aonde nem os mais fortes ousaram chegar

 

7 comentários:

Lívia Monteiro disse...

Parabéns por compartilhar as experiências políticas negativas em nossos clubes.
É isso: "Pobres, num só colchão podem caber uns três, mas o maior império é pouco para dois reis".
Cumprimentos de paz e muita alegria.
Lívia Monteiro

Roberto Flavio disse...

O texto mostra uma realidade dos clubes do Distrito 4500 e que nada tem de diferente de clubes de outros distritos. Eis uma realidade que seria uma grande tema dos próximos Institutos Rotários . É evidente que falta uma orientação institucional e que os clubes estão largados aos talentos e fragilidades de seus associados.

Amigo Alberto, esse é o caminho e agradeço seu belo texto que provocou uma pessoal reflexão. Rotary não é festa e nem vaidades. Rotary é Serviço e para isso devemos estudar e nos colocar disponíveis dentro de nossas limitações.

Euro Ferreira Guedes disse...

Muito bom companheiro Alberto,
Deveria ser lido em todos os clubes do país.
Um abraço
Euro Ferreira Guedes

Nevio Urio disse...

Caro EGD Alberto
Li atentamente seu artigo – realmente complexa a situação que descreves sobre sua experiência
no seu ano como governador do D4500em época de eleições.
De certa maneira também enfrentei o problema 1994-95 – servi como adm do nosso distrito ano de eleições gerais – de vereador a presidente da republica. Nosso distrito contava com 1433 associados – em dezembro com 1860.
Note que crescemos no momento da campanha eleitoral em cerca de 30% - maravilhoso poderíamos dizer.
Mas no inicio do de 95 perdemos 15%e foi por vários motivos mas o principal foi a transferência de funcionários públicos.
E como nós temos 4 distritos no estado – houve uma troca desvantajosa pois exportamos rotarianos e importamos
Não rotarianos. Mesmo assim crescemos 15% fechamos o ano com 1665 associados.
Nosso distrito não tem tido problemas mais sérios depois disso por questões políticas.
Cito nossa cidade- que Rotary encara a situação política – separa de certa forma a partidária. Eis que depois da chagada do Rotary em 1966 – dos prefeitos ( de várias tendências partidárias) apenas 2 não pertenceram ou pertencem ainda ao Rotary – o atual deputado Federal Nelson Meurer que foi do Lions Club e o ex-prefeito Vilmar Cordasso (Paul Harris) que só não ingressou no nosso RC em Março, porque decidiu candidatar-se novamente a prefeito – e deixou claro que vencendo ou perdendo a eleição ingressará no clube, no inicio de 2013.
É costume o Rotary chamar os candidatos a prefeito para expor suas respectivas plataformas. Se faz em Igualdade de tratamento e condições para todos os candidatos. Temos a sorte de ter sempre o prefeito como parceiro nos projetos para beneficiar nossa comunidade – No meu RC, temos em média 4 candidatos a vereador e quase sempre para prefeito, vice deputado. Quando fui presidente 1989-90, os dois candidatos a prefeito e os dois a vice eram do meu RC; além de 5 candidatos a vereador
-desejei boa luta a todos, não perdemos nenhum associado. Dos 4 candidatos a prefeitura – três permanecem ativos e um faleceu.
Os candidatos a vereador – somente dois lograram êxito naquela ocasião. Não perdemos nenhum por motivo partidário.
- Alguns rotarianos que se destacaram, desta pequena cidade 78.000 hab e situada a 500 km de Curitiba, ocuparam os seguintes postos – 3 ministros de estado, 4 secretários do PR senador, 3 deputados federais, deputados estaduais – alguns diretores de estatais – como BRDE, Eletrosul etc.
-Na presente campanha eleitoral – temos candidatos dentro da grande maioria dos 11 RC locais. Espera-se que nossa tradição seja mantida. Tomara.
Governador Alberto, quis compartilhar essa nossa experiência, mais para cooperar com teus estudos e como você escreve no artigo de 2004 as situações
podem ser diferentes, dependendo do local, cidade ou região.
Nos veremos em Vitória.
Abraço, Nevio

JAYME LIELSON disse...

Caríssimo Bittencourt
Impressiona-me sobremaneira a forma perene como a lucidez de seus escritos permanecem atuais.
Parabéns.
Que Deus preserve seu tino e bom senso.
Saúde e Paz, é a minha prece para sua família e esse seu mister, SERVIR.
Com admiração. Jayme Lielson

PORTILHO disse...

Pela qualidade e oportunidade do tema, repasso a matéria do Comp.EGD.Alberto Bitencourt.
Um grande abraço.
Felicidades, hoje e sempre.

Djalma P. Bentes.

PAULO RESENDE disse...

Amigos,
É com pesar que vejo que alguns rotarianos não compreendem que devem separar Rotary de suas trajetórias político-partidárias.
Em minha cidade, há uma candidata a vereadora que se apresenta como "candidata rotariana".
Candidata de quem? A quem ela representa?
Não a mim. Nunca.
Conheço candidatos rotarianos que, por força da ética, não tocam no assunto "eleições" quando tomam parte nas ações do Rotary. Não se apresentam como candidatos rotarianos. Nem sequer levam um santinho de campanha para as reuniões.
São poucos.
Que tristeza, ver uma instituição tão nobre quanto o Rotary, ser usada como "atestado de probidade" por candidatos aproveitadores.
As urnas dirão se esses oportunistas estão certos.
Paulo Resende
RC de Niterói Icaraí
Presidente 2012-13