ALBERTO BITTENCOURT - Palestrante, motivador, consultor, escritor, biógrafo pessoal

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terça-feira, 29 de outubro de 2013

A FEB E O CAMPO DE INSTRUÇÃO DO ENGENHO ALDEIA



A FEB E O CAMPO DE INSTRUÇÃO DO ENGENHO ALDEIA



  Alberto Bittencourt
(Palestra realizada no II SENAB – Seminário Nacional Sobre a Participação do Brasil na FEB –  patrocinado pelo CEPHiMEX – Centro de Estudos e Pesquisas de História Militar do Exército).


A - PREÂMBULO
De 14 a 18 de outubro de 2013, no Auditório do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Recife (CPOR/R), a Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército (DPHCEx) promoveu, pela primeira vez na capital pernambucana, seu ciclo de palestras e visitas sobre o Brasil na 2ª Guerra Mundial. O primeiro SENAB-2ªGM ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, com foco para a entrada do Brasil no conflito contra os países do Eixo. Este ano o seminário enfocou as ações de vigilância e defesa do território brasileiro, com ênfase na Zona de Guerra do Saliente Nordestino (RN, PB, PE, AL, FN). Recife foi escolhida como sede do evento, por ter figurado como um grande ponto estratégico das Forças Aliadas para a proteção e defesa das Américas.

Folder do II SENAB 2a. GM

B - DESENVOLVIMENTO
Excelentíssimos senhores 
General Marcio Roland Heise - Diretor da DPHCEX - Diretoria de Patrimônio Histórico e Cultural do Exército
General Marcio T. Bettega Bergo - Chefe do CEPHIMEX - Centro de Estudos e Pesquisas da História Militar do Exército. 

Senhores oficiais e senhores convidados.



1 – INTRODUÇÃO
A presente palestra vem complementar a palestra anterior, sobre o mesmo tema, proferida brilhantemente pelo Coronel Cav. Pedro Arnobio Medeiros Jr.


Eu sou membro do Rotary, uma instituição centenária, que congrega mais de 1,2 milhões de voluntários espalhados pelo mundo inteiro, com o objetivo de fazer o bem, buscar a paz e a compreensão entre povos e nações. Faço parte também de uma instituição denominada Pátria – Instituto Brasileiro de Cidadania Ativa - cujo fundador e presidente até recentemente, tendo se afastado por motivo de saúde, é o advogado pernambucano Petrônio Raymundo Gonçalves Muniz. Juntamente com ele e sob sua liderança e orientação, estamos escrevendo um livro intitulado "De Bello Annis – Os Anos da Guerra, de 1942 a 1945", sobre a participação do Brasil na 2a. GM. Um capítulo deste livro refere-se precisamente ao Campo de Instrução do Engenho Aldeia, posteriormente denominado CIMNC – Campo de Instrução Marechal Newton Cavalcanti. Esta palestra representa uma prévia auspiciosa do nosso livro De Bello Annis. 


Serviu de fonte de consulta, do qual transcrevemos alguns trechos, o livro já mencionado pelo tenente Gildo T. Nunes Machado, aqui presente, em palestra no dia de ontem, quando enfocou a importante participação dos oficiais R2 nas ações de vigilância e defesa do litoral. Tem como título: “O Nordeste na II Guerra Mundial”, de autoria do General Paulo Queiroz Duarte, editora Record, 1971


O livro do General Paulo Q. Duarte

Trata-se de um documento valiosíssimo, fonte de consulta obrigatória, como se primária fosse, tal a riqueza de seus detalhes. Dois capítulos deste livro são dedicados à Sétima Região Militar sob o comando do então General de Divisão Newton Cavalcanti: os capítulos 13 e 14, sendo que este último trata da construção do Centro de Instrução do Engenho Aldeia.


Em 1943, surgiu uma charge na imprensa, alusiva ao interregno de dois anos transcorridos entre a declaração de guerra, feita pelo governo brasileiro aos países do Eixo, em 1942, e o embarque efetivo da tropa para o Teatro de Operações na Itália, em 1944. Essa charge dizia o seguinte: “É mais fácil uma cobra fumar do que a FEB embarcar”. Mas, logo depois, a FEB embarcou e mostrou ao mundo que “A Cobra está fumando”, tornada a logomarca oficial da Força Expedicionária Brasileira.
Essa frase dos anos de guerra, demonstrava o sentimento de desconfiança popular quanto às declarações públicas do governo Vargas, no então Estado Novo. Os entraves sucessivos, deliberados ou não, demonstravam tal sentimento, afinal, os mentores civis e militares do Estado Novo não viam com bons olhos o alinhamento sistemático do Brasil com regimes democráticos.
Pessoalmente nunca acreditamos que os governantes da época tivessem conexões ideológicas com o nazi-fascismo. Sabiam eles muito bem que, numa nação como a nossa, teorias de uma raça branca superior, não teriam um futuro promissor. Mas, o controle social preconizado, ajustava-se como uma luva aos objetivos do Estado Novo, interessados que estavam, na manutenção de cargos e poderes. 



Um homem, porém, pensava e agia de modo diferente. Alagoano de Palmeira dos Índios, militar por vocação, sertanejo por natureza, lídimo representante da velha guarda do Exército de Caxias, atrabilioso mesmo, não tinha medo de caretas nem de trabalho. 




Marechal Newton de Andrade Cavalcanti

Era o General de Divisão Newton de Andrade Cavalcanti que, em fevereiro de 1943, havia assumido o comando da 7a. RM, em substituição ao General Mascarenhas de Morais.
A ele se refere o Gen. Paulo Duarte: 

Profissional de grandes realizações, já endossadas pela prática, chefe de inconteste firmeza de convicções, patriota extremado, o General Newton Cavalcanti se entusiasmara com as informações que, do Exército norte-americano lhe trouxeram oficiais que lá estiveram em estágios, e se convenceu de que, naquela oportunidade, lhe caberia a tarefa de criar um daqueles campos de treinamento. 



À visão e esforços do Gen. Newton devemos o Campo de Instrução do Engenho Aldeia, hoje denominado Campo de Instrução Marechal Newton Cavalcanti – CIMNC - graças a artigo publicado na imprensa, por ocasião de seu falecimento, em 1966, pelo do Professor Gustavo Cintra Passhaus, da Faculdade de Direito do Recife e a operacionalização da matéria pelo advogado Cândido Buarque de Macedo.

O conceito do Campo de Instrução Militar foi inspirado pelo conceito do que são os fortes americanos, particularmente o Fort Benning, informa o nosso livro. Na concepção americana, constante do dicionário de língua inglesa Webster, um “fort” significa uma instalação fixa e permanente do Exército, distinto de um campo de treinamento provisório. Os fortes estão umbilicalmente ligados às tradições históricas americanas, sobretudo na época da grande expansão para o farwest. Não raramente, muitos deles representavam a última fronteira entre a lei e a ordem, daquilo que convencionamos chamar de civilização. Quem não se recorda dos filmes westerns de John Wayne, com a tropa de cavalaria desfilando diante de um desses fortes, antes da expedição definitiva para a carga final contra os índios. 
Até a época atual, os fortes permanecem nas Forças Armadas estadunidenses com o seu conceito original. Apenas se expandiram para enormes áreas militares de treinamento, aperfeiçoamento de armas, providos de todas as facilidades para a vida de uma comunidade moderna. Menos sofisticados, é claro, os fortes americanos já davam o recado naqueles tempos da II Guerra Mundial.

Essa era, em 1943, precisamente a ideia do General Newton: dentro de nossas possibilidades materiais, construir um local adequado para instrução e treinamento da “tropa nordestina”, capacitando-a a combater quem quer que fosse e no local a ela designado.



Lembramos que a ideia original da FEB era o Brasil enviar para além mar, um Corpo de Exército completo, com três Divisões de Infantaria, blindados e serviços, embora a realidade, bem o sabemos, tenha sido outra. 



Essa 3a. Divisão de Infantaria Expedicionária, que seria preparada e treinada no campo de instrução do antigo Engenho Aldeia, não chegou a sair do papel. Provavelmente essa 3a. Divisão Nordestina, seria comandada pelo seu criador, o General Newton Cavalcanti. 



Nada mais justo.


2. EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS

Com fulcro nas pesquisas do General Paulo Duarte, transcreveremos a seguir alguns trechos do relatório correspondente ao Ano de Instrução de 1943, (em verdade uma Exposição de Motivos) apresentado pessoalmente pelo General Newton Cavalcanti ao então Ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra (pag. 407):

À 7a. RM cabia um papel relevante na defesa do território nordestino, no conflito de ideias e de nações, que se refere em todos os continentes, em todos os mares e em todos os céus do mundo. 

As operações felizes, realizadas por nossos aliados no norte da África, com a cooperação leal e eficiente do Brasil, mudaram o panorama estratégico da guerra. O inimigo não viria mais até nós, senão em ações isoladas e de pouco vulto. 

Prosseguindo, afirmou o General, peremptoriamente:

Se pretendíamos participar mais efetivamente da luta a que fomos arrastados na defesa da honra nacional e dos mais nobres ideais de justiça e liberdade, tínhamos que adotar uma atitude ofensiva e enviar uma força expedicionária para enfrentar o inimigo, no teatro de operações que o supremo comando aliado designasse. Foi o que sábia e patrioticamente resolveram os altos poderes da República. Na distribuição da tarefa, coube a 7a. RM previsão de organizar a 3a. Divisão do Corpo Expedicionário. 

A missão de instruir essa tropa de forma objetiva e eficiente, porque a guerra deixou de ser uma hipótese, para se transformar em realidade, impôs ao Comando Regional enfrentar um velho problema de necessidade indiscutível, mas de solução sempre adiada: a organização de um campo de instrução. 

As dificuldades financeiras em aparelhar convenientemente as instalações para as unidades do Exército, em locais afastados do burburinho da vida civil, têm obrigado os quartéis a ficarem presos aos núcleos de maiores populações, ou, quando muito, nas suas cercanias. 
.......
Campos de instrução nas vizinhanças das capitais são proibitivos pelo custo das desapropriações e pelos riscos que acarretam para a população civil. E sem campos próprios não é possível dar eficiência à instrução.

“C’est en forgeant q’on deviant forgeron” (“É forjando que se torna forjador” – expressão de uso corrente na época, tempo de prestígio da cultura francesa, valorizadora da prática como complemento da teoria).

É atirando que se aprende a atirar. É fazendo que se aprende a fazer. E já é tempo de, na pedagogia militar, fugirmos ao epigrama de Bernard Shaw: “quem sabe faz, quem não sabe, ensina”.

E apresenta a sua proposta, até hoje e sempre, irretorquível:

O desejável seria a organização de um campo com uma aparelhagem à semelhança dos “Fortes” americanos onde, ao lado das indispensáveis instalações para a instrução, fossem atendidas as necessidades de bem estar dos seus habitantes obrigatórios e de suas famílias. Um campo dotado de água, luz, esgoto, estradas pavimentadas, cinema, teatro, bancos, correio, telégrafo, armazéns, clubes, escolas, praças de esportes, uma pequena e confortável vila, junto ao local de trabalho, reduzindo ao mínimo o tempo morto nos deslocamentos, que consomem inutilmente tanta energia dos oficiais e praças.
.......
Explicitou ainda o General Newton: 

Assim nasceu a ideia do Campo de Instrução do Engenho Aldeia, que Vossa Excelência, clarividentemente apoiou.

3. RAIZES HISTÓRICAS

Não esqueceu igualmente de mencionar, o autor, General Paulo Duarte que, após a definição da área, a cerca de 40 km a NO do Recife, ter sido ela a antiga Aldeia de Miritiba, onde residia o guerrilheiro Dom Antônio Felipe Camarão, capitão-mor e governador de todos os Índios do Brasil e Cavaleiro do Hábito de Cristo, herói da guerra de expulsão dos Holandeses do Brasil. 

Em 1660 o Engenho Miritiba passou a denominar-se Engenho Aldeia”.

Comprovando a naturalidade pernambucana de Camarão, o “Dicionário Biographico de Pernambucanos Célebres”, por Francisco Augusto Pereira da Costa, edição da Typographia Universal, Recife, 1882, registra o seguinte, à página 80:

O general Arciszewski, batido por Camarão no ataque de Goyanna exclama: “Há mais de quarenta anos que milito na Polônia, Allemanha e Flandres, occupando sem interrupção postos honrosos. Só o índio brasileiro Camarão veio abater-me o orgulho.”

O nobre general polonês a serviço da W.I.C. – Companhia das Índias Ocidentais - era um dos maiores conhecedores da “arte da guerra” em seu tempo. Venceu os defensores do Arraial do Bom Jesus após cinco anos de assédio. Atribuem ao seu regresso à Europa por divergências com Nassau, uma das causas da derrota do empreendimento batavo na Guerra Brasílica.


4. O HOMEM E A OBRA

Patriota destemido e impávido, nunca se preocupou em “adoçar” a sua imagem pública e, muito menos, fazer o papel do “bom moço”. 

Para o General Newton, só a Missão importava. Os tempos eram de guerra. A 3a. Divisão da FEB – a Divisão Nordestina – tinha que sair à altura do esperado. O resto era resto. Não contava nem valia. A construção do CIM7 – Campo de Instrução Militar da 7a. RM - avultava-se imperiosa e urgente. A ela dedicou-se de corpo e alma. Literalmente. 

Em corolário, o perfil do General junto à uma população desenformada estava longe de ser lisonjeiro. Muito pelo contrário. As histórias de sua truculência e insensibilidade circulavam à boca pequena. O povo falava horrores do homem. 

As marchas à pé. A tropa com equipamento completo às costas, capacete de aço e o fuzil Mauser no ombro, partia de um casarão no fim da avenida Caxangá, onde se situava o antigo quartel da 7a. Companhia de Comunicações.

Seguia por sinuosa estrada carroçável de barro até o Engenho Aldeia. E ai daquele que caísse durante o percurso. Era transportado em viaturas, mas não escapava da punição. Sem exceções.

A marcha tinha cerca de 40 Km, com os alto-horários regulamentares. Partia-se ao raiar do sol – alvorada às 03h00 da madrugada - com chegada prevista para o mesmo dia. O tempo gasto era cronometrado. A infantaria era para andar à pé. Ponto final. Menos os oficiais que, pelo sistema francês, utilizavam cavalos. 

A igualdade vinha no acampamento. A tropa e a oficialidade dormia em barracas de lona para duas pessoas, sobre o chão duro de terra batida, em promiscuidade com ofídios, aracnídeos e outros insetos do antigo engenho, ainda dentro do que preconizava a Escola Francesa. Nada daquelas barraconas coletivas americanas que vemos nos filmes de guerra.

O dia era consumido na instrução e nos trabalhos de construção do campo. 

À noite, os sentinelas naqueles ermos, viviam atentas com as “incertas” do General. Havia o risco permanente do sono vencer o corpo esfalfado e o infeliz acordar abruptamente com a parabelum do General na testa e a voz roufenha: O senhor está morto! Recolha-se preso por dormir em serviço”. Outras vezes o General simplesmente surrupiava a arma do dorminhoco, para depois aplicar-lhe a merecida punição. 

Mas o General estava com a razão, hoje o reconhecemos. A marcha não era tão longa, sentinelas não podem dormir no posto e era inadiável a criação da “mentalidade de guerra” em uma tropa heterogênea e bisonha. Naquela época, 80% da população brasileira era analfabeta e a maioria dos pracinhas vinha do meio rural.

O General Newton sempre deu o exemplo. Parecia incansável a despeito da idade. Ademais, além da trabalheira do Comando da 7a. Região Militar em tempos de guerra, a mais importante Organização Militar do país na época, era o General um verdadeiro “mestre-de-obras” da construção do Campo de Instrução. 

Os trechos das páginas 412, 413 e 415 da citada obra, ora transcritos, o dirão melhor do que ninguém:

As contingências obrigaram-no a permanecer jornadas seguidas, ao pé da obra, inspecionando iniciativas em seus nascedouros, tais como: o açude, a horta, dos depósitos de materiais, os canteiros de trabalho, que foram outros tantos mananciais de contrariedades.
......
Tudo era submetido a uma acurada revista; fazia longas caminhadas, discutindo assuntos da mais diversa natureza, tal o sentimento de responsabilidade em dispor livremente de elevada quantia, o que desejava ver empregada honesta e inteligentemente, daí porque deixou, por vezes e a contragosto, que certos assuntos de comando fossem confiados ao tirocínio de seus mais diretos auxiliares do Estado Maior, entre os quais contava com leais e dedicados amigos.

(Este trecho da palestra, por nós grifado, repercutiu nos presentes. A psicóloga do CPOR/7 sra. Jusefina, disse que estas linhas deveriam servir de ensinamento para a juventude brasileira, à qual esta obra foi dedicada. É por isso, disse ela, que, nas pesquisas, o Exército Brasileiro aparece sempre como a instituição pública mais confiável do país).
.....
O internamento voluntário a que se obrigara, nas charnecas do Engenho Aldeia, no início de tudo, quando apenas havia o verbo, sem contar com mínimo conforto, impondo-lhe um esforço físico continuado e bem superior ao que lhe podia endossar a idade, que ia alta, (lembrar que estamos falando de um homem quase sexagenário, no Brasil do início da década dos anos 40, do passado século XX) foi-lhe minando a saúde, embora continuasse persistente no seu propósito, revelando uma exuberante e inquebrantável força íntima, que sustinha a invulgar noção do dever que o apontava como verdadeiro chefe, a despeito de alguns senões que faziam da sua personalidade militar discutível por alguns daqueles que com ela se viram obrigados a prestar contas...” 

Todos esses fatores, atuando simultaneamente, fizeram que o Engenho Aldeia passasse a ser uma alucinante (sic) meta. Na visão de seu futuro, via-o o seu criador em plena e efervescente atividade, os quarteis já construídos, arrumadinhos nos locais que ele pessoalmente escolhera, perfilados em impecável alinhamento, tal como em 1922, quando no comando da 2a. Companhia do Curso de Infantaria da Escola Militar do Realengo, exigia dos seus cadetes. 

Antevia com contagiante alegria elementos orgânicos da infantaria nordestina palmilhando, em todos os azimutes, os mínimos acidentes topográficos enfeixados nos limites do campo; pelotões, companhias e batalhões, trazendo as insígnias das mais distantes guarnições, ali estavam garbosos, em frente ao imponente Quartel-General, já construído, após um exercício “puxado”, coroado de pleno êxito. 
O Campo de Instrução Militar da Sétima Região Militar, reclamado desde o Ministro Pandiá Calógeras, nos idos de 1914, foi finalmente objeto de determinação do Ministro da Guerra, como CIM7, no ano de 1943.

Aos poucos ia o Engenho Aldeia preenchendo suas precípuas finalidades, até que, em outubro de 1944, teve sua verdadeira consagração, quando nele se levou a efeito o mais completo e proveitoso exercício de Combinação de Armas e Serviços até então realizado. Naquela data, a 7a. RM já se encontrava sob o comando do General Isauro Regueira. O idealizador do “Forte Engenho Aldeia” não teve a ventura de ver seu sonho realizado..... 
Naquele mês, o exercício-manobra, programado pelo EMR/7 foi levado a cabo pela tropa da 7a. DI, sob o comando do General Amaro Soares Bittencourt (avô deste palestrante), interessando um efetivo de oito mil homens de todas as Armas admitindo dupla ação e o tiro real de Artilharia.

Essa grande manobra militar, com todas as armas e tiros reais foi organizada para a despedida do General Newton, o efetivo cobrindo, de muito, o total das forças holandesas e luso-brasileiras reunidas, que se defrontaram na 2a Batalha dos montes Guararapes. 



A inauguração do Campo de Instrução Militar do Engenho Aldeia – CIMEA - ocorreu em 1945, após o término da II Guerra Mundial. Com o fim do conflito, os recursos financeiros minguaram e o sonho do General Newton foi descontinuado.



5. COMENTÁRIOS

O Campo de Instrução Militar do Engenho Aldeia nunca foi um capricho desvairado do seu criador. 



O denominado atualmente Campo de Instrução Marechal Newton Cavalcanti, mais conhecido pelas iniciais CIMNC é hoje uma grande fazenda, quase sem serventia, com reduzida guarnição militar e futuro incerto. Os condomínios rurbanos (utilizando a expressão cunhada por Gilberto Freire) e a especulação imobiliária se aproximam celeremente. Tamanha área (7.342 hectares) quase sem utilização é tentação irresistível.



Os argumentos de 1943, usados pelo general Newton para a construção do Campo de Instrução, no modelo dos “fortes” ainda hoje existentes nos Estados Unidos, permanecem válidos e de pé, incólumes e indestrutíveis.



O ambiente militar, o “clima” que os fortes americanos propiciam, e o “Forte Aldeia” garantiria, é indispensável à formação do militar. Os quarteis urbanos, sabidamente não o asseguram. 



O General disso tinha plena consciência em 1943. Se esse “clima militar” torna-se fundamental nos tempos de guerra, com maior razão deve ele ser mantido nos períodos de paz, quando a tendência geral é de “afrouxamento” daquelas funções.



Além do mais, esses campos, em sua moderna concepção, servem também para testes e mesmo para a criação de novas armas. 

“Enquanto o homem for o que é, as Forças Armadas permanentes em um país soberano permanecem indispensáveis” (Petrônio Muniz). 

6. A HERANÇA INESPERADA

Uma herança totalmente inesperada nasceu na área, fruto da desativação dos trabalhos e do seu pouco uso. 

Atualmente, quase 70 anos após sua fundação, o CIMNC é agora a maior área de reserva florestal da Mata Atlântica, ao norte do rio São Francisco. Agindo devagar e sempre, a Mãe Natureza foi recuperando as terras degradadas pela monocultura da cana de açúcar. 

O Comando Militar do Nordeste, o CEMENÊ, como é mais conhecido, publicou o artigo em 15/08/2007, da Comunicação Social, com o título “MEIO AMBIENTE: CIMNC, canavial que virou reserva florestal”, suas fotos e legendas comprovam o afirmado. Vale a pena ser lido.

7. SUGESTÕES DO DR. PETRÔNIO RAYMUNDO GONÇALVES MUNIZ




Esteve recentemente o dr. Petrônio Muniz nos antigos domínios do General Newton. Segundo ele, um ar de velhas quartas-feiras-de-cinzas perpassava o ambiente. A vida dava a impressão de haver parado. O relógio imobilizara-se. O prédio do Quartel General dos tempos da guerra, imponente, não lembrava nem um pouco os tremendos esforços da construção. 

Transcrevemos a seguir, mais um trecho da obra do General Paulo Queiroz Duarte acima referida, à página 417:

As pesquisas para elaboração deste nosso trabalho obrigaram-me, em 1967, a uma viagem a Recife, onde a fidalga atenção recebida do então Comandante da 7a. RM, General Rodrigo Otávio Jordão Ramos e de seus oficiais de estado-maior, proporcionou-nos uma visita ao CIMNC. Revivemos, com certa emoção, as distantes jornadas, quando ali imperava uma atmosfera de trabalho e de contagiante afã profissional, alicerçado pela presença do Chefe, que a todos animava com seu entusiasmo sem limites. 

Lá estava o majestoso e imponente Quartel-General, com suas colunas altaneiras, suas largas escadarias e sua acolhedora varanda que abarca todo o conjunto, agora enfeitada pelos coqueiros já “taludos” e frutificando, atestando o passar do tempo, uma espécie de chamamento aos novos contingentes para que se desloquem até ali, a fim de se adestrarem com proveito e economia nos principais preceitos de Combate e Serviço em Campanha.

Prossegue o dr. Petrônio Muniz: 

Pensamos. Que diferença dos tempos do General Newton. Como importante é a animação humana para a vida! 
Pensamos novamente. Com um pouco de iniciativa e baixos custos este panorama poderia ser mudado, sem prejuízos para a instrução militar, que, ao final, é o grande objetivo do campo. 

Ele oferece as seguintes sugestões:

a) Inauguração solene de um Cenotáfio – monumento à memória do Marechal e de todos aqueles que, anonimamente ajudaram a construir o Campo durante a Segunda Guerra Mundial, com uma celebração honrosa por representantes das guarnições militares da antiga 7a. RM. 

b) Realização de torneios de tiros de armas curtas e longas, inclusive o fiel fuzil MAUSER, com participação das Federações de Tiro civis. 

c) Com os jogos olímpicos de 2016 programados para o nosso Brasil, a Infantaria poderia ser treinada em provas de longa distância, maratonas e marchas. Quem sabe, poderíamos ter dentre eles um Verde Oliva potencial campeão, a exemplo de Emil Zatopek, imortal fundista, Coronel do Exército Tchecoslovaco, o maior corredor olímpico de todos os tempos. 

d) A parte esportiva poderia ser completada com uma prova equestre de resistência, - enduro – que, partindo do 10o. Esquadrão de Cavalaria Mecanizado, no Curado, terminasse no CIMNC, em Aldeia. A competição, aberta a qualquer cavaleiro experimentado, seria denominada “Dom Antônio Felipe Camarão”, com a disputa anual do “Troféu Marechal Newton Cavalcanti. Seria a maior prova de grande fundo hípica do país. 

e) Aproveito a oportunidade para sugerir uma iniciativa ecológica e patriótica: o plantio de mudas de “Pau-brasil” na alameda principal do campo. Além de ser a “Árvore Nacional” (Lei 6.607/78), seria uma justa homenagem do Exército Brasileiro ao pernambucano prof. Roldão de Siqueira Campos.

Estes seriam resgates históricos e de justiça, para quem a nação tanto deve. Todas essas ideias são exequíveis e de baixo custo. Facílimas.

C - CONCLUSÃO

E pensamos finalmente:
- Marechal Newton de Andrade Cavalcanti – Sem favor, nunca veremos outro igual! (Petrônio Muniz)

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