HIGIENE MENTAL
Alberto Bittencourt - Recife, agosto de 2012
Certa noite, em minha
costumeira dificuldade de dormir, após ter dado mil voltas, para um lado e para
o outro, tanto na cama como nos pensamentos, inquieto de corpo e alma, com a
garganta ressequida, resolvo levantar para beber um gole d’água. Ao chegar à cozinha,
lá estava ele, sentado à mesa, absorto na leitura de um livro. Sem mover a
cabeça, levanta o olhar por cima dos óculos:
_ Que se passa com você, meu amigo?
_ Não consigo dormir. Não sei mais o que fazer.
O homem balança a cabeça para um lado e para o outro. Meu pensamento voa para o
berço de minhas lembranças. Transporto-me de volta aos bancos escolares,
Colégio Militar do Rio de Janeiro, 1954, primeira série ginasial, onze anos de
idade. Estou diante do Professor Pastorino. Ele usa sempre uma bata branca, de óculos,
nem gordo nem magro, andar e fala mansa. Era um dos poucos professores civis
daquele educandário.
Carlos
Juliano Torres Pastorino foi meu professor de latim, por três anos
consecutivos, da primeira à terceira série. Foi um dos que mais marcou minha
personalidade em formação. Desde logo tornou-se um substituto da imagem de meu
pai, precocemente falecido.
Nasceu no Rio de Janeiro em 1910 e faleceu em Brasília, em 1980. Ordenou-se
padre em Roma no ano de 1937, mas abandonou a batina diante da recusa do Papa
Pio XII em receber o Mahatma Gandhi em seu traje habitual, raciocinando que o
célebre pacifista indiano vestia-se como Jesus Cristo. Poliglota, lecionou latim, grego,
espanhol e esperanto. Passou a estudar e praticar a religião espírita após
receber de um colega professor do Colégio Pedro II, um exemplar de “O Livro dos
Espíritos".
Foi um dos idealizadores e fundadores, em 1958, do Lar Fabiano de Cristo,
entidade beneficente da CAPEMI – Caixa de Pecúlio dos Militares, que atende a
mais de 8 mil crianças e suas famílias absolutamente carentes em diversos estados do Brasil.
No Recife, o Lar Fabiano de Cristo mantém, além da escola Rodolfo Aureliano, na
Várzea, o Lar de Cáritas, situada no Jardim Piedade, municipio de Jaboatão dos
Guararapes, creche que abriga mais de 300 crianças, à qual
meu clube, o Rotary Club do Recife-Boa Viagem, assistiu com seis projetos de
Subsídios Equivalentes da Fundação Rotária (*).
Naquela noite indormida, o Professor volta-se para mim e diz, quase num
sussurro:
_ Meu amigo, você sabe para o que serve a noite?
_ Para dormir, respondi.
_ Sim, mas existem dois modos de dormir. Dormir, para se recuperar das fadigas
do dia, para repor as energias gastas, e dormir para enriquecer o espírito. A
maior parte das pessoas conhece apenas as noites vazias do bem merecido
repouso. São raros aqueles que usam a noite como fonte de inspiração. Ah, meu
caro, se você soubesse os tesouros que a noite encerra...
Meu espírito se encanta: _Como assim?
Ele fecha o livro e me olha firmemente:
_ Sabe qual é a parte do corpo mais suja ao fim do dia? Não são as mãos, não
são os pés. Não, não! É dentro das nossas cabeças que nós estamos mais sujos.
Sabe por quê? Porque nós passamos todos os dias em permanente julgamento de nós
mesmos. A todo instante nos anulamos, nos apequenamos, nos violentamos. Vivemos
sob constante pressão, em permanente estado de culpa. Isso é o que nos suja,
pois sabe quem é o autor de tudo isso? Nossa própria mente.
_Como então, prossegue o Professor, podemos dormir com serenidade, tendo tanta
sujeira na mente? Meu caro aluno, para passar uma noite calma e bem dormida, é
preciso antes fazer uma limpeza da mente, lavar a sujeira acumulada.
_Mas, Professor, como se faz essa limpeza?
_Ora, é simples. Assim como fazemos a higiene corporal, tomamos banho, limpamos
e lavamos o corpo, devemos praticar a Higiene Mental, cuidar da mente, lavar a
sujeira acumulada em nossos pensamentos.
_De que modo? Perguntei.
_Basta que, antes de dormir, você faça um balanço de seu dia, desde o instante
em que acordou, pela manhã. Procure reviver os momentos mais agradáveis. Pense
no que lhe fez mais feliz. Desse modo, você aliviará seu espírito da carga dos
autojulgamentos e você, então, terá a alegria de saber o que você é e o que
poderá ser realmente, em lugar de ficar se reprovando pelo que você não foi.
Com o espírito mais leve, você dormirá a noite toda, como uma criança. Ah, a
noite, se você soubesse como a vida interior é mais bela, mais fácil de ser
vivida, justamente porque nela não há o medo nem a angustia da vida exterior.
Para usufruir, basta praticar a Higiene Mental.
Era o professor Torres Pastorino, de volta das salas de aula.
No tempo de estudante, ele me indicou dois livros, considerados precursores da
Higiene Mental. Ainda hoje os tenho, como preciosidades em minha biblioteca:
1. “Um Espírito que se Encontrou a si Mesmo” de Clifford W. Bars (1876-1943),
escrito em 1908, ainda adotado em cursos de psicologia. Nele, o autor conta, em
autobiografia, os sintomas que sentia até chegar à loucura, que o levou a ser
internado por três anos em hospício, numa época em que os tratamentos eram
irracionais e desumanos. Num surto, o autor atirou-se pela janela do terceiro
andar. Machucou-se bastante, mas a recuperação física foi acompanhada pela recuperação
mental. Curado, relatou no livro a experiência, dando origem à ciência da
Higiene Mental. Clifford foi o fundador e presidente da Sociedade Americana de Higiene
Mental.
2. “Roteiro da Saúde Mental” do prof. Emilio Mira y Lopes (1896-1964) editora
José Olympio, escrito em 1956. Psicólogo e psiquiatra, escritor e
conferencista, o autor lecionou em várias universidades pelo mundo e terminou
no Brasil, onde faleceu.
Dono de voz clara, pausada e límpida, o Professor Pastorino, além de escritor e professor, era também
radialista, jornalista, teatrólogo, escritor, historiador, filólogo, filósofo,
poeta e compositor. Ele adotava o nome artístico de Carlos Juliano em seu
programa na rádio Copacabana, no Rio de Janeiro, intitulado “Higiene Mental”, que eu
ouvia diariamente.
Assim conduzia os pensamentos dos ouvintes:
_Pense num lugar tranquilo, à beira de um lago de águas claras e transparentes...
ou,
_Pense numa época em que realmente você era feliz... ou ainda:
_Mentalize uma onda de luz e amor, que vai crescendo e lhe envolvendo,
transborda para seus parentes, amigos, e até para os dirigentes das nações, trazendo
a paz e a harmonia...
Ainda hoje, nas reuniões semanais do Rotary Club do Recife-Boa Viagem, eu
encontro com o professor Torres Pastorino. Por ocasião da Oração Rotária, é
feita a leitura de uma mensagem, tirada ao acaso, de seu pequeno livro “Minutos
de Sabedoria”. São mensagens de fé, esperança e amor, que nos enlevam o
espírito, servem para nossa reflexão e crescimento que, durante anos foram apresentadas, nas diversas horas do dia, através do microfone da Rádio Copacabana. O livrinho pode ser
encontrado junto aos caixas da maioria das livrarias do país, editado pela
editora Vozes em 1960. Já vendeu mais de dez milhões de exemplares e continua
vendendo.
Agradecido ao Professor, voltei para a cama e dormi feliz, até o dia amanhecer.
(*) Veja no link UMA HISTÓRIA DE AMOR, abaixo, o trabalho do Rotary Club do Recife_Boa Viagem com o Lar de Cáritas: