ALBERTO BITTENCOURT - Palestrante, motivador, consultor, escritor, biógrafo pessoal

ALBERTO BITTENCOURT - Palestrante, motivador, consultor, escritor, biógrafo pessoal
ALBERTO BITTENCOURT - Palestrante, conferencista, motivador, consultor, escritor, biógrafo pessoal

sábado, 28 de abril de 2012

O MOVIMENTO PRO CRIANÇA

O Movimento Pró Criança

AlbertoBittencourt – mar 2012

  

           Dia 12 de março, compareci à AGO do MovimentoPró Criança (MPC). O evento foi dirigido pelo Presidente, engenheiro Sebastião Barreto Campelo, a quem eu muito admiro e tenho a honra de poder chamar de meu amigo. Estavam presentes o Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, diretores e colaboradores do MPC, Paulo Barbosa, Silvia, Ivonete Marinho, Félix Cantalício, Luís Marinho, entre outros.

           Eu continuei como suplente do Conselho Fiscal, cargo que tenho a honra de exercer há alguns anos. Foi aí que tomei conhecimento de um dado admirável.  A arrecadação das campanhas CLAREAR (da Celpe) e REGAR (da Compesa), alcança hoje cerca de 485 mil doadores e a quantia mensal de mais de R$ 500 mil, contribuição esta obtida por equipes de jovens que, de porta em porta, conseguem a adesão dos moradores. Através de um pequeno formulário de adesão, as pessoas abordadas em suas casas, concordam com o acréscimo de apenas R$ 0,98 na conta de luz ou na conta de água, em favordo MPC. Há até quem doe um pouco mais, R$1,00 ou até mesmo R$1,50.

           Um outro dado interessante é que as pessoas que contribuem para esses programas, são pobres ou das classes C e D, que acreditamno MPC, no seu trabalho de retirar as crianças das ruas. De bom grado, elas assumem o compromisso dessa doação, sem nada pedir ou receber em troca, simplesmente pelo espírito de solidariedade, o que  também é uma constatação da credibilidade queo movimento adquiriu.

           Os mais ricos, que moram nos condomínios e prédios, são inacessíveis aos “campanhistas”, como diria o Dr. Petrônio Muniz. Eles não conseguem ultrapassar as barreiras das guaritas.

            Os jovens que arregimentam essas doações, deslocam-se em uma Kombi, e são remunerados de acordo com sua produtividade.  Esta Campanha já vem sendo trabalhada há vários anos e o resultado é cumulativo, pois quem entra, permanece, gerando uma receita segura, estável, permanente.

           O Movimento Pró Criança compartilha a arrecadação com outras quatro entidades: a OAF (Organização do Auxílio Fraterno), a Pastoral da Criança, o Movimento Criança Cidadã e a Fundação Terra deArcoverde.

           O feito despertou o interesse internacional e o UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, enviará seu Presidente internacional ao Brasil para ver de perto o extraordinário acontecimento, um exemplo para o mundo.

           Tal receita tornou-se o que há de mais importante para essas entidades, pois além de estável, é permanente. Os demais recursos são temporários, como os provenientes de convênios firmados com Prefeituras, Estados, Federação ou mesmo são frutos de projetos de parceria com empresas do porte da Petrobrás. Estes recursos são limitados pois esses órgãos precisam atender a uma fila de demandas de muitas outras entidades.

           Vale repetir o ditado africano:

          “Gente simples, fazendo coisaspequenas, em lugares pouco importantes, consegue mudanças maravilhosas.”

             Assim é o Movimento Pró Criança.

           Assim também é o ROTARY que, de gotinha em gotinha, está a um passo de eliminar a paralisia infantil da face da Terra.

           Está de parabéns o Presidente do MPC (Movimento Pró Criança), engenheiro Sebastião Barreto Campelo e a Arquediocese deOlinda e Recife, na pessoa de Dom Fernando Saburido.

           O Movimento Pró-Criança precisa de braços, de novos talentos,de gente interessada em bem continuar esse bom combate de tirar os menores das ruas. Este é um trabalho árduo, um trabalho que envolve alunos, voluntários e funcionários, além da parte técnica, organizacional, administrativa e financeira. Precisa de pessoas sérias e solidárias, que abracem esta nobre causa, que ajudem a gerir um orçamento superior a R$ 4 milhões anuais, uma enorme responsabilidade e que depende basicamente de projetos e contatos. É um trabalho de formiguinha, “petit à petit”, de persistência, que, se Deus quiser, ainda se estenderá por muitos e muitos anos.

 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

PAZ ATRAVES DO SERVIR


Paz Através do Servir


Considerações a respeito do lema

Alberto Bittencourt – abr 2012



Paz Através do Servir é o lema do presidente eleito do Rotary International para o ano 2012-2013, o japonês Sakuji Tanaka.

A tradução brasileira do original inglês Peace Through Service, optou pela palavra servir em vez de serviço. Qual seria a forma mais correta? Qual seria a melhor tradução? Ou seria indiferente?

Pessoalmente, creio existir uma sutil diferença entre os dois vocábulos, o servir e o serviço. Quero informar, entretanto que,não sendo especialista em filologia, minha opinião é leiga, destituída de embasamento teórico. Sei apenas que oemprego do infinitivo de um verbo como substantivoé bastante comum em nosso vernáculo:o sentir, o andar, o falar.

A substantivação do verbo servir representa ação, movimento, pois este verbo está sempre relacionado com fazer, ter, estar ou sentir.O servir, como substantivo, está mais ligado ao sujeito da ação, enquanto o serviço, também substantivo, está mais ligado ao objeto.

Costumamos dizer que alguém presta um serviço, porém não podemos dizer que alguém presta um servir.

Quando eu digo: eu vou servir, a conotação é diferente de quando eu digo: eu vou prestar um serviço.

O servir dá uma idéia de continuidade da ação que, vem do passado, se realiza no presente e se projeta para o futuro, o tempo todo, não importa onde, através de palavras, pensamentos e atos, gestos e atitudes.

Por outro lado, se eu digo,eu presto serviço, significa que naquele momento eu faço algo limitado no tempo. Prestar serviço é uma ação que tem começo e fim, o que não acontece com o servir, que tem uma abrangência muito maior.

Quando eu digo que presto um certo serviço, significa dizer que ele é determinado, limitado, isolado e compartimentado e que, uma vez terminado, estou pronto para fazer outra coisa ou prestar outro serviço.

Enquanto o servir tem uma conotação dinâmica, o serviço tem uma conotação estática.

Por todas estas exposições de motivos, a tradução brasileira “Paz através do Servirquer dizer que a paz não é posta como um objetivo final, como uma meta a ser buscada, a ser alcançada, nem tampouco um ideal ou uma utopia. A paz é algo que se constrói no dia a dia, num trabalho permanente e contínuo, é uma atitude individual, um modo de vida, uma filosofia, um comportamento, um relacionamento, uma convivência.

Como Gandhi nos ensinou: - Não existe um caminho para a paz. A paz é o próprio caminho.












MANUTENSAO E CONSTRUÇAO DA PAZ

MANUTENSÃO DA PAZ 

 X

CONSTRUÇÃO DA PAZ


Alberto Bittencourt - abr 2012


Existe uma diferença entre os conceitos de Manutenção da Paz e o de Construção da Paz.

As forças internacionais da paz, das Nações Unidas, como a Minustrah do Haiti, têm a função de manter a paz e são exercidas através do Conselho de Segurança da ONU. Sempre que há um conflito e uma ameaça à paz internacional, como ocorreu na guerra da Bósnia e da Líbia, elas exercem o seu poderio bélico para manter a paz. O Brasil tem por tradição integrar essas forças internacionais de paz desde a guerra do YonKypur, entre Israel e os países árabes, quando foi instituída a Força da Paz de Suez. São Domingos, na América Central, e o Timor Leste, na Ásia, foram outras nações que receberam soldados brasileiros integrantes das Forças de Paz da ONU. Graças à atuação dessas forças estão sendo devolvidas à Paz regiões cheias de conflitos, de tensões, sejam de origem étnicas, políticas ou religiosas. A eficiência dessas intervenções tem evitado que os conflitos se prolonguem no tempo e se expandam causando aumento do sofrimento de populações civis, gerando levas de refugiados e de pessoas desabrigadas, acomodadas em acampamentos.

Por outro lado, a Construção da Paz envolve um conceito inteiramente diferente. É prevenção de conflitos a longo prazo, um assunto muito mais complexo. Às vezes, é fácil tomar atitudes bélicas para manter a paz. Para construir a paz, nem sempre é uma decisão simples.

Os orçamentos dos países destinam bilhões de dólares para garantir o aparato militar, sob o pretexto de Manutenção da Paz. Há toda uma estrutura industrial bélica sob o pretexto de exercer o poder dissuasório. Afirmam os belicistas que a manutenção do aparato bélico, da capacidade de destruição, tem a finalidade de desencorajar as pretensões belicosas de vizinhos, assim como a conhecida expressão “Se queres a Paz, prepara-te para a guerra”. Com esta idéia, surgem algumas “operações de manutenção da paz” que geram investimentos de muitos bilhões de dólares

Em contra partida, só se conseguem migalhas para operações de Construção da Paz. Construir a paz é empreender uma ação preventiva. Acontece porém que essas ações preventivas não trazem consigo nem a glória, nem o reconhecimento para quem as executa.

Condecoram-se os generais que vencem as batalhas, mas os realmente importantes são os que evitam a eclosão das guerras. Só estamos acostumados com os resultados concretos, que aparecem nos jornais e na tv, então, se nada acontece, e é exatamente isso que desejamos, aí ninguém reconhece que o fato se deve ao trabalho contínuo, permanente, feito nos bastidores, em pequenas doses e muito abrangentes.

Há um ditado sul africano, Zulu, que diz: “Gente simples, fazendo coisas pequenas, em lugares pouco importantes, consegue mudanças maravilhosas”. Esses são os verdadeiros construtores da paz.

A paz é um estado da sociedade para qual todo cidadão contribui, a cada instante, na família, na escola, no trabalho, nos parlamentos, nos bares, As possibilidades de paz precisam ser construídas diariamente. A cultura da paz se constrói dia a dia, com justiça, dignidade, igualdade e solidariedade. 

Construir a paz não significa reparar os danos, mas sim evitar que eles se produzam. Isso só é possível com a participação da sociedade civil nessa tarefa e que cada indivíduo se ocupe dela pessoalmente.

O Servir está mais ligado à Construção da Paz, enquanto que O Serviço pode ser mais íntimo da Manutenção da Paz. “A Paz através do Servir” significa construir a paz. É a prevenção, o trabalho contínuo, diuturno, de mudança das condições de vida das pessoas, de aliviar o sofrimento dos oprimidos, dos excluídos, de diminuir as diferenças sociais através da educação, da valorização do homem, do ensino de comportamentos úteis, da prática indiscriminada do bem.

A manutenção da paz pode ser considerada um serviço, para acabar com os conflitos e com a violência, uma vez instalados, ainda que pelo emprego da força e do poderio bélico. Para a Manutenção da Paz no Oriente Médio, foram investidos US$150 bilhões, enquanto que, para Construir a Paz no mesmo Oriente Médio, nem um centésimo disso foi aplicado. Isto porque ela não é um ato de serviço, mas sim uma ação de servir, preventiva, que não traz lucros nem gera dividendos imediatos, posto que ela é uma ação para o futuro, quase invisível e seus efeitos só são percebidos a longo prazo.

Esses conceitos são meus pensamentos a respeito do tema sobre os dois substantivos usados nas duas traduções, lembrando sempre que o servir constitui a essência da filosofia e do ideal do Rotary. 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

ESPAÇO DA CRIANÇA RECEBE RECURSOS DO GOVERNO DO JAPÃO

 

Na terça-feira, dia 27 de março de 2012, em cerimônia realizada no Consulado do Japão, o Cônsul, sr. Tadayoshi  Mochizuki, passou às mãos da presidente da creche Espaço da Criança – ARH, sra. Núbia Mesquita,  cheque com a quantia de R$151.000,00 para a conclusão das obras de construção da sede.
Estiveram presentes, Patrícia Brenneken, Elodie Clerici e Marlies Krüger da diretoria do MIR - Mulheres Internacionais do Recife, grupo filantrópico que apoia iniciativas sociais; Sondja Beirão, arquiteta do projeto e os rotarianos Alberto e Helena Bittencourt, voluntários à frente da obra da nova sede. A coordenadora do Espaço da Criança, Edna Monteiro, também esteve presente, e com ela quatro crianças da instituição, que levaram presentes em agradecimento ao cônsul.
"É um grande prazer apoiar o Espaço da Criança", declarou o cônsul, acrescentando que, apesar das dificuldades que o Japão enfrenta desde que foi atingido pelo terremoto e pelo tsunami ano passado, o governo e o povo japonês não abriram mão de tais gestos humanitários, que estreitam "os tradicionais laços de amizade entre Japão e Brasil", detalhou. "É importante apoiar crianças que se encontram em situações precárias, e isso nos quatro cantos do mundo", completou.
A creche Espaço da Criança funciona há mais de vinte anos em imóvel alugado, no bairro da Boa Vista, onde atende cerca de cem crianças de seis a dezoito anos, das famílias carentes da comunidade dos Coelhos. Com a ajuda de benfeitores nacionais e internacionais, iniciou a construção de nova sede em terreno próprio, adquirido há oito anos.
A obra deverá estar concluída dentro de três meses. O projeto, em dois pavimentos, contempla salas de aulas, cozinha, refeitório, despensa, secretaria, almoxarifado, instalações sanitárias, área para recreação e jogos, tudo legalizado e aprovado pelos órgãos competentes.    
Para Núbia Mesquita, a atitude solidária nipônica é uma mostra da nobreza da sua gente. "Vemos nessa vontade de ajudar um sinal de um povo resiliente, cooperativo e que sabe o que é estar sofrendo necessidades", respondeu a presidente, que espera poder, com os recursos doados, ajudar mais crianças no futuro. Esperança essa que se concretizará sem atraso, na previsão de Patrícia Brenneken. "Temos acompanhado a seriedade do Espaço da Criança e sabemos que o dinheiro será muito bem empregado", disse a presidente do MIR, agradecendo também ao governo e povo do Japão.
O governo japonês se envolveu com o Espaço da Criança a partir de junho de 2010, logo após a instituição ter sido vítima de um roubo e atos de vandalismo. O episódio fora veiculado na imprensa e chamou a atenção do assessor para projetos sociais, Takesi Konno, que apresentou à instituição a possibilidade de parceria com o governo do Japão. A ajuda estrangeira chegou em hora perfeita, na avaliação da presidente Núbia. "Vocês foram uma resposta de Deus para nós", afirmou.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

UMA HISTÓRIA DE AMOR

UMA HISTÓRIA DE AMOR
Alberto Bittencourt - 2012

Minha relação com o Rotary Club do Recife – Boa Viagem teve início no mês de junho de 1987, pelas mãos dos companheiros Caio Nogueira e Corsino Dantas, sendo este último o meu padrinho. Essa data representou um marco importante em minha vida, pois a partir daí fui vivendo e aprendendo um novo conceito comportamental e relacional, baseado na amizade, na solidariedade e na ética.
Comecei participando das diversas comissões do clube, até chegar ao ano de 1996-97, em que fui presidente. Jamais esquecerei aqueles três dias de treinamento, em maio de 1996, quando o governador eleito, Arnaldo Neto Gaspar, realizou o PETS – Seminário de Treinamento de Presidentes Eleitos – no hotel Ocean Palace, um resort cinco estrelas de sua propriedade, localizado na Via Costeira de Natal. Reuniu a quase totalidade dos 90 presidentes eleitos e esposas para capacitá-los por meio de palestras, grupos de discussão e, ao mesmo tempo, promover a integração entre eles.
Foi ali que ouvi, pela primeira vez, a expressão: Subsídios Equivalentes da Fundação Rotária. O governador eleito explicou:
 _Você identifica uma entidade, faz um projeto, coloca mil dólares, arranja um clube parceiro do exterior que coloque outros mil dólares e a Fundação Rotária então dobra, colocando mais dois mil dólares.  Em resumo, você coloca mil dólares e recebe quatro mil, finalizou Arnaldo Gaspar.
Os detalhes foram apresentados pelo saudoso ex-governador Emerson Loureiro Jatobá, então presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária.
No fim do encontro, o governador eleito assim exortava a todos os presidentes:
_Quero! E repetia:
_Quero que cada clube do meu distrito faça pelo menos um projeto de Subsídios Equivalentes!
Saí bastante motivado. Recebi a presidência do RC Boa Viagem das mãos do presidente Jones Figueiredo Alves.
Ao assumir, lancei o mote O FEIXE DE VARAS, inspirado na célebre fábula de La Fontaine, “O ancião e seus três filhos”, simbolizando a força da união:

Não pretendemos ser o melhor,
Tampouco queremos ser o maior.
Mas o Boa Viagem, creiam todos,
É forte e unido como um...
FEIXE DE VARAS.

Todos os boletins do clube passaram a ostentar o mote, sempre lido nas reuniões plenárias. O protocolo então dava uma parada antes do final. Era a vez da plateia em peso completar, uníssona, num brado alto e vibrante: FEIXE DE VARAS!
Em sua gestão Jones havia criado os dois clubes de jovens, o Rotaract e o Interact Clubs, o primeiro sob a coordenação da companheira Vânia Amorim e o segundo da companheira Maria Ednice. Bastante atuantes, os jovens identificaram, no ano de 1995, uma creche no Jardim Piedade, município de Jaboatão dos Guararapes, chamada Lar de Cáritas, em condições de muita pobreza e necessidade. Sob a direção de uma abnegada senhora, Vera Lúcia Martins, a creche abrigava cerca de duzentas crianças, metade das quais lá passava o dia enquanto as mães iam trabalhar e a outra metade dormia no local. Havia mães que só apareciam de tempos em tempos. A creche funcionava num barraco caindo aos pedaços, em local de difícil acesso, ao lado de uma lagoa infecta. As crianças viviam espalhadas pelo chão, chafurdando na lama, sem refeitório nem instalações adequadas. 
 
1995 - As crianças viviam amontoadas num barraco.
.
Na presidência, ponderei inicialmente se concentraria os esforços no Lar de Cáritas ou se continuaria no trabalho tradicional do clube, em prol do Patronato N. Sra. da Conceição. Estando este último já estruturado, optei pelo primeiro.
A minha providência inicial foi chamar Emerson Jatobá para uma palestra sobre o tema de Subsídios Equivalentes. Ele deu várias alternativas para arranjar o indispensável patrocínio internacional. Disse que um ex-governador do D.4570, Rio de Janeiro, Yutaka Okumura, enviara pelos Correios 50 cartas-propostas a clubes do exterior, tendo recebido apenas duas respostas. Não titubeei. Escolhi, aleatoriamente, no Official Directory, 160 Rotary Clubes dos Estados Unidos e do Canadá, com mais de 120 membros. Enviei cartas de uma folha apenas, sem entrar em detalhes, propondo parceria para um projeto em favor de crianças carentes. Era o mês de agosto de 1996. Ainda não existia a internet e eu sabia que o tempo conspirava contra, pois os clubes ricos recebiam muitos pedidos de ajuda, principalmente da Índia e do México. Quando chegasse o mês de outubro, certamente eles já teriam comprometido os recursos.  Recebi cinco respostas, duas informando que os fundos estavam esgotados e três solicitando mais informações.
Sendo empresário, construtor e incorporador imobiliário, com uma empresa em pleno funcionamento, tendo como preocupação principal a administração dos meus empreendimentos, não sobrava tempo para tocar esses projetos. Recorri, então, à ajuda de minha filha Annie, proprietária das escolas de idiomas YÁZIGI, que me indicou a professora Susan Clarke, de nacionalidade inglesa, para me assessorar. Susan logo se identificou com os ideais e objetivos do Rotary e abraçou a causa com entusiasmo. A chegada de Susan facilitou enormemente a comunicação com os clubes parceiros. Desenvolvemos três projetos de Subsídios Equivalentes, em prol do Lar de Cáritas:
·       Uma cozinha industrial, com o RC de Edmonton, Canadá
·       Uma lavandaria industrial, com o RC de Eureka, EUA
·       Um veículo VW, tipo Kombi, com o RC Calgary, Canadá.   
                     1997_A primeira Kombi

Esses três projetos perfaziam o valor total de sessenta mil dólares, cabendo ao nosso clube, portanto, a contrapartida da quarta parte, ou seja, quinze mil dólares.
A meta agora seria arranjar essa importância, que teria que ser enviada à Fundação Rotária quando da aprovação dos projetos.
O presidente Jones, que me antecedeu, organizara, no fim de seu mandato, um leilão de objetos de arte no Mar Hotel. Ousadamente ele adquirira um veículo VW Gol para rifar. Chegou a afirmar que pagaria do próprio bolso caso não conseguisse vender os bilhetes. Mas o sucesso foi total. Ele ainda me repassou um saldo de mais de cinco mil dólares, num tempo em que o real engatinhava e a paridade era 1x1.
Precisando completar os recursos, instituí um Consórcio Paul Harris, baseado na experiência exitosa do RC Casa Amarela. Pedro Sampaio, ex-presidente daquele clube, levou-me o modelo dos estatutos e do edital. Após um ano de trabalho, em junho de 1997, ao transmitir a presidência do Boa Viagem para meu sucessor, companheiro Joel Muricy, entreguei os quinze títulos Paul Harris de reconhecimento, recebendo em menos de dois meses os recursos de sessenta mil dólares para implantação dos projetos no Lar de Cáritas.


Jun/1997 - A entrega dos quinze títulos Paul Harris


O ano de minha presidência ainda me reservaria muitas alegrias, contando com a ajuda dos rotarianos e esposas. O saudoso companheiro Manoel Martins de Oliveira, presidente da Avenida de Serviços Internos, instituiu a “Medalha do Ouro da Frequência”. Naquele tempo, não existia a recuperação virtual, e o prazo era de 8 dias antes e 8 dias depois. No dia seguinte à plenária, Manoel já telefonava para todos os faltosos. Certa vez um deles atendeu da Bahia:
_ Estou aqui me recuperando de uma enfermidade.
Manoel foi incisivo:
        _ Já que está se recuperando, não se esqueça de recuperar também a falta à reunião plenária...
        Assim era o comp. Manoel. Como resultado, conseguimos frequência 100% em seis meses do ano de minha presidência e figurar no Quadro de Honra do Distrito, com mais de 90%, nos outros seis meses. No fim de meu mandato entregamos o diploma de “Honra ao Mérito Florisval Silvestre Neto” aos companheiros 100% de frequência no ano rotário, em número bastante expressivo.
        Florisval era um companheiro em todos os sentidos cem por cento. Sócio fundador e terceiro presidente do clube, havia falecido no ano anterior. Era casado com Gracinha Silvestre, que logo tornou-se companheira. Ele era entusiasta do programa da Pólio Plus. Nos Dias Nacionais de Vacinação, participava voluntariamente das reuniões preparatórias e de planejamento na Secretaria Estadual de Saúde e, durante as campanhas, distribuía os companheiros do Boa Viagem, filhos e parentes, pelos postos de vacinação da zona sul. Passava o dia percorrendo esses postos com o intuito de colaborar e dar o seu apoio. Gostava muito de minha filha, Cristiane, que, aos quatorze anos, passava o sábado inteiro vacinando no posto de saúde do Pina, tendo sido, inclusive, objeto de reportagem pelo Jornal do Comércio.







                                          Fev /1990 - Cristiane, dois rotarianos, argentino e uruguaio,
                                           da Campanha Pólio Plus para a América Latina, eu e Florisval,
                             em reunião de avaliação .


       





                 Fev /1990 - Cristiane, em plena campanha de
   vacinação na favela do Bode, no Pina



        Mas o Lar de Cáritas precisava de recursos para a construção das salas de aulas e outras dependências. Rotarianos e amigos saíram em campo. Conseguiram que a Celpe levasse energia elétrica e que a prefeitura aterrasse e abrisse as vias de acesso. Chás beneficentes, desfiles, rifas, campanhas foram realizadas. Muitas empresas doaram materiais de construção. Helena fez o projeto de arquitetura e eu fui o engenheiro responsável pela obra.



    
                                                          


                                        1996 – início das obras





                        2000 – Obras concluídas.
                                        Na primeira foto: Salas de aula.    
                                                       Na segunda: jardins, play ground e galpão.
       

Susan Clarke teve uma ideia genial para conseguir o engajamento de turistas estrangeiros na época do carnaval, nos anos de 1997 e 1998. Bolou um folder intitulado: Let’s take a look behind the mask, que significa “Vamos dar uma olhada por trás da máscara”. O texto, ilustrado por fotos, conclamava os turistas a conhecerem a realidade de nossas crianças, a triste realidade por trás da máscara da folia, da alegria, do carnaval. Os jovens do Rotaract e do Interact se encarregaram de distribuí-lo nos hotéis de Piedade e Boa Viagem. Fizemos algumas parcerias internacionais, cumprindo destacar:

  • Association Enfants du Brésil, (Associação Crianças do Brasil), sediada em Neuchâtel, Suíça, uma associação formada pelos pais adotivos de crianças brasileiras, desejosos de estender algum benefício às crianças que aqui ficaram e que não tiveram a mesma sorte das suas. É presidida pela sra. Monique Joly. Traz sempre ajuda e conforto à dezenas de famílias e entidades.
  • Stichting Straatkinderen Brazilië, (Fundação dos Menores de Rua do Brasil), sediada em Breda, Holanda, cujo representante, Paul Heinrich Steverink vinha anualmente ao Brasil, trazendo ajuda e projetos para nossas crianças.
  • Kiwanis Club de Zürich- Höngg, um clube de serviços semelhante ao Rotary, sendo Felix Kristinger nosso parceiro e amigo. Vem sempre ao Recife na época do carnaval e nunca esquece de nossas crianças. Trocou três vezes a Kombi por outras mais novas, doou recursos para a construção de um centro de informática e do ambulatório médico.
  • Associação dos funcionários da EDF – Eletricité de France,  representada por nosso amigo Michel Jaillet. Um grande benfeitor, um idealista que não mede esforços para melhorar as condições das creches.
A ajuda proporcionadas por essas instituições transformou o Lar de Cáritas numa creche de primeiro mundo, numa pérola dentro de um mar de miséria, de insalubridade:
  • O terreno vizinho, uma lagoa infecta, foi comprado e aterrado. Os barracos da vizinhança foram aos poucos sendo comprados e demolidos, dando lugar a novas e modernas construções.
  • Foram construídas oito salas de aula, berçário, secretaria, enfermaria, banheiros, ampla e moderna cozinha, uma lavanderia industrial, em prédio de dois pavimentos.
  • Com recursos recebidos da EDF, foi construído um castelo d’água, uma fossa séptica, um filtro anaeróbico e tubulado o efluente para um canal, a cerca de 600m de distância. Eles também doaram uma instalação completa de água quente por energia solar, para a cozinha, berçário e banheiros.
  • A Association Enfants du Brésil resolveu o problema da falta d’água, com a perfuração de um poço tubular com 150m de profundidade.
Em todos esses trabalhos, uma figura despontou como grande amigo, incansável, dono de imenso coração e profundo amor pelas crianças.  Era o representante da Association Enfants du Brésil, Marcos Antonio Mendes de Sena, recém chegado da Suiça. Ele, de pronto acreditou no projeto, o que facilitou muito as ligações com os suíços.
Nos anos seguintes, novas ações foram realizadas.  Como mais de 80% das crianças não podiam freqüentar escolas por não terem registro de nascimento. Em novembro de 1997, o Rotary Boa Viagem, com a ajuda de Fernando Cerqueira, levou o Cartório de Registro Civil para dentro da creche. Todas as crianças da comunidade, em número superior a 300, com menos de 12 anos de idade, receberam suas certidões.
Além disso, o Rotary Club do Recife-Boa Viagem e o Lar de Cáritas firmaram convênio com a CAPEMI através de seu braço assistencial, o Lar Fabiano de Cristo, para cobertura das despesas operacionais, como o pagamento de salários das educadoras e auxiliares, fornecimento de cinco refeições diárias para as crianças, doação de cesta básica para as famílias e funcionários, fornecimento de uniformes e pagamento de despesas diversas como luz, gás, etc.
Em 2002, com novos aportes de recursos pela Association Enfants du Brésil,  em comemoração aos seus 10 anos de existência, duas casas vizinhas e um templo evangélico foram adquiridos, demolidos, as áreas aterradas e nos locais construídos um galpão com um grande salão para reuniões, festas, espetáculos, uma quadra poli-esportiva além de um play ground com amplo jardim e dependências
       Novos projetos de Subsídios Equivalentes da Fundação Rotária foram concretizados, a saber:

  • Doação e instalação de um gabinete odontológico, em nova parceria com o RC de Eureka, Ca, USA
  • Colocação de gás combustível no veículo Kombi, em outra parceria com o RC de Edmonton, CA
  • Doação de equipamentos diversos, como bebedouros, freezer, fax, computador, telefone sem fio, e outros, também com o RC de Edmonton.
Para operar o gabinete odontológico e o ambulatório médico, foi firmado convênio com a Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal de Jaboatão dos Guararapes, que fornece os profissionais de saúde, os quais atendem não apenas às crianças, mas aos familiares e moradores das redondezas.
Como as crianças não podem mais pernoitar na creche, a lavanderia industrial ficou ociosa. Por conseguinte, seus equipamentos foram transferidos para o Abrigo Cristo Redentor, órgão assistencial para idosos, do Rotary Club do Recife, numa parceria de mútua cooperação entre os dois Rotary Clubs
As ONGs suíças costumavam enviar jovens voluntárias para trabalhar em caráter temporário com as crianças. Eram professoras, psicólogas, fisioterapeutas, profissionais ou estudantes, que ensinavam música, danças, trabalhos manuais, inglês, recreação. Elas ocupavam um apartamento próximo ou ficavam hospedadas em casas de companheiros, geralmente por períodos de seis meses a um ano. Lembro bem de Catharine Hengrave, Veronique Jörg e Sandra Tetarati, jovens vindas da Suiça. Elas ficaram impressionadas com o nível de miséria das famílias e decidiram fazer algo. De volta à Suíça, juntaram economias e enviaram a quantia de US$ 15.000 para melhorar as condições subumanas dos barracos em que viviam. Com ajuda da presidente Vera e da secretária D. Alci, coordenei a aplicação desses recursos. Selecionamos as famílias mais carentes e fizemos pequenos melhoramentos em seus barracos, tais como cimentação do piso, troca do telhado, substituição de plástico e restos de tábuas por compensados, além da construção de sanitários. Tudo devidamente documentado, fotografado e prestado contas.

                                             Mar/1998_ Voluntárias suíças prestam serviço no Lar de Cáritas.
                                             Sentadas: Veronique, Catherine e Sandra.
                                             Em pé: Marcos Sena e Joel Muricy

Outra ação realizada sob a bandeira do nosso querido Boa Viagem, já no ano de 1998, foi a parceria com o Rotary Club de Pont Audemer, França. Eu havia representado um casal de rotarianos desse clube em processo de adoção infantil. Infelizmente, mesmo com todas as habilitações e credenciais aprovadas, tanto na França quanto no Brasil, a burocracia aqui instalada, fruto de denúncias nunca comprovadas de comércio de órgãos, acarretara o bloqueio pela justiça brasileira das adoções internacionais. Após quase dois anos de luta, o casal terminou adotando duas gêmeas vietnamitas. Mesmo assim, para manifestar seu agradecimento, propôs confeccionar 15.000 cartões de Natal, com motivos de desenhos das crianças de nossas creches. Eles venderiam a metade na França e nos enviariam a outra metade para venda aqui, sendo a totalidade da renda destinada às nossas crianças. Selecionamos 10 desenhos, dos quais eles escolheram 4. Vendidos a um dólar o cartão, recebemos ao final, cerca de R$ 15.000, aplicados integralmente no Lar de Cáritas.


                   


Dezembro de 1998 – Cartões de Natal com desenhos das crianças,
confeccinados pelo RC de Pont Audemer, França.

       O diretor Hipólito Ferreira, disse certa vez, que o trabalho do rotariano é coroado pelo relacionamento e pelas amizades internacionais que conquista.  Em 1998 fui convidado pelo comp. Russ Mann, do Rotary Club de Edmonton, província de Alberta, Canadá, nosso parceiro nos diversos projetos, para participar do Congresso Internacional de Voluntários – International Congress for Volunteer Effort – a se realizar naquela cidade, com todas as despesas pagas. Lá fomos, eu, Helena e Susan. Ficamos oito dias hospedados na casa de Russ e Johane. O Canadá é um país com longa tradição de serviço voluntário. 80% de sua população presta algum tipo de trabalho, seja na escola, nas comunidades, em instituições públicas e beneficentes. O Congresso reuniu mais de 2500 delegados do mundo inteiro. Fizemos ainda uma apresentação na plenária do RC Edmonton para cerca de 260 associados, sobre os trabalhos do RC Boa Viagem e o Lar de Caritas.

Nunca esquecemos, nem deixamos de apoiar, durante todo esse tempo, nosso tradicional aliado, o Patronato N. Sra. da Conceição. Sediado no Pina, em plena favela do Bode, dirigido pelas irmãs de caridade da Ordem do “Instituto Social das Medianeiras da Paz”, o ISMEP, com sede na Bahia,  abriga cerca de 150 crianças em dois turnos, alternativamente com o ensino fundamental. A história do nosso querido Boa Viagem, desde a fundação em 1982, está ligada à do Patronato. Lá está afixada uma placa, datada de 1985, atestando que nosso clube realizou naquele ano a troca de todas as tubulações de esgotos sanitários e pluviais da instituição. José Corsino Dantas, quando foi presidente, em 1993-94, ali fez construir um pavilhão, denominado Florisval Silvestre Neto. Além disso, o clube sempre manteve no local uma escola de datilografia, com vinte máquinas de escrever, inclusive pagando manutenção e instrutores. Duas vezes por ano, ali se formavam turmas de datilógrafos que eram inseridos no mercado de trabalho, através de empresas de companheiros. Compareci a várias dessas formaturas, com entrega de diplomas, em momentos de intensa vibração e emoção. 

Com o advento da informática, mudou o interesse dos jovens. A escola de datilografia foi substituída por uma escola de informática, denominada José Christóvam Guerra em homenagem ao companheiro recentemente falecido. Os recursos foram financiados por um novo projeto de Subsídios Equivalentes da Fundação Rotária, em parceria com o RC de Edmonton, através de nosso amigo Russ Mann, que veio do Canadá para a inauguração. Foram doados dez computadores, cinco impressoras, TV, filmadora, todo o mobiliário e outros equipamentos, além de realizada a reforma das instalações físicas.

Jan/1988 - As irmãs de caridade Anatília e Zena, recebem de minhas mãos e de Evaldo Amorim o cheque para instalação da sala de informática JOSÉ CHRISTÓVAM GUERRA,
no Patronato N Sra. da Conceição.

Sempre mantivemos uma relação de estreita amizade com as irmãs de caridade diretoras do Patronato, especialmente Anatília e Zena. Quando elas se desligaram da ordem ISMEP e partiram para um trabalho independente, começando do zero, não vacilamos em apoiá-las. As duas operosas irmãs fundaram o CRVV – Centro de Recuperação e Valorização da Vida, ali mesmo, no Pina e levaram com elas o Projeto Criança Urgente. A Association Enfants Du Brésil, AEB, assumiu inicialmente todas as despesas de alugueis, instrutores, funcionários, alimentação. Começaram com 50 crianças. Posteriormente a AEB adquiriu e doou as duas casas onde hoje estudam cerca de 150 crianças. O CRVV participa ainda da educação de adolescentes e adultos, através de convênios com a Prefeitura da Cidade do Recife, como o PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e o EJA – Educação de Jovens e Adultos.

Posso dizer, sem medo de errar, que o Rotary Club do Recife – Boa Viagem foi o trampolim que me permitiu alçar vôos mais altos no Distrito 4500 e no Rotary International. Após ter exercido a presidência, a convite de Emerson Jatobá, fui de 1997 a 2000, presidente da Sub-comissão Distrital de Subsídios e de 2000 a 2003, presidente da Comissão Distrital da Fundação Rotária. Durante esses seis anos aprovamos e concretizamos no nosso Distrito, 105 projetos de Subsídios Equivalentes, no valor total de quase dois milhões de dólares. Fui líder do IGE – 2002, na Califórnia e Nevada, EUA e governador do Centenário, no ano 2004-05. Por tudo o que aprendi, tudo o que colhi, por tudo o que vivi, eu só tenho a dizer:

MUITO OBRIGADO, QUERIDO ROTARY CLUB DO RECIFE - BOA VIAGEM, O FEIXE DE VARAS.


Alberto de Freitas Brandão Bittencourt
Presidente do RC do Recife – Boa Viagem, 1996/97
Governador do Centenário, 2004-05