EU NÃO SEI...
Alberto Bittencourt - mar2013
Eu não sei de onde venho, nem para onde vou. Eu não sei se nasci ou se cheguei. Eu não sei se estou aqui, ou se vou por aí. Eu não sei se sou um corpo que carrega um espírito ou um espírito que habita num corpo. Eu não sei se carrego um nome, ou se é o nome que me carrega. Eu não sei se sou importante, ou apenas mais um.
Eu não sei se o barulho nos meus pés vem dos sapatos, ou das correntes. Eu não sei se a brisa no meu rosto vem do mar ou de meus tormentos. Eu não sei se devo correr ou quedar imóvel. Eu não sei se devo me expor ou me esconder. Eu não sei se devo me manifestar ou me calar. Eu não sei se devo confrontar ou acatar. Eu não sei se devo lutar ou deixar ficar. Eu não sei se meu riso é um grito, nem se minha prece é um choro.
Eu não sei se a luz que me alumbra é a mesma que me incandesce. Eu não sei se o ar que me protege é o mesmo que me consome. Eu não sei se me alimento, ou me devoro. Eu não sei se os muros que me cercam são refúgios ou prisões.
Eu não sei cadê as árvores da minha infância, se vejo apenas florestas de espigões. Eu não sei como os campos em que eu corria se transformaram em asfalto para corpos metalizados.
Eu não sei se meus atos são expressão de vida, nem se meus gestos são expressão de amor. Eu não sei se sou querido ou apenas tolerado. Eu não sei se me amam ou se me enganam. Eu não sei se os que me observam e me escutam estão cegos ou estão surdos. Eu não sei se estou enfermo de verdade, ou apenas fatigado. Eu não sei se preciso de gente à minha volta para poder ficar só. Eu não sei como transformar o tempo que me dissolve em sentimento de eternidade.
O que eu sei é que eu quero apenas uma coisa. O que eu sei, e disso tenho a mais plena convicção, é que eu quero apenas escrever.
Quero escrever sobre as traquinagens da minha infância, escrever sobre encontros e desencontros, sobre os descaminhos de meu mundo.
Quero escrever sobre os que comigo dividiram sendas e territórios. Quero encher páginas e mais páginas de lembranças vivas, escrever ao sabor das emoções, sem gramática nem sintaxe, sem regras, nem concordâncias.
Quero escrever de uma só penada sobre os momentos mais delicados, sem pudor e sem rancor. Quero escrever para não ser um homem perdido na multidão, devorado pela angústia de ter que sobreviver. Quero escrever sobre as relações perdidas, sobre as memórias esquecidas, sobre as sociedades desfeitas, sobre os pactos quebrados. Quero escrever sobre os amores vividos, as paixões fugazes, os sentimentos eternos. Quero escrever sobre o ambiente, o universo, o dom da criação. Quero escrever sobre ciência e tecnologia, artes e manufaturas.
Quero escrever além de mim, para depois,
me fundir na maçaranduba do tempo.
Quero escrever para me libertar de mim.




