ALBERTO BITTENCOURT - Palestrante, motivador, consultor, escritor, biógrafo pessoal

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sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O SENTIDO DA VIDA

O SENTIDO DA VIDA

Alberto Bittencourt - 07/10/2014



          



Jamais esquecerei uma cena que assisti no Lar de Cáritas há mais de dez anos. 
Eu trabalhava como voluntário, rotariano, na construção de novas instalações, quando uma mãe desesperada chegou com um bebê no colo. 
Todos ali já conheciam o drama que aquela mulher vivia há cerca de três meses. Foi num dia de chuva torrencial, em que a pequena favela situada na frente da creche ficou inundada pelas águas e pelos esgotos que corriam a céu aberto, in natura, nas chamadas valas negras. 



A CRECHE LAR DE CÁRITAS





A FAMÍLIA

















VALAS NEGRAS




A casa onde morava a familia










 
O barraco de vão único, chão de terra batida e paredes de plástico e restos de madeira, foi invadido pela água da chuva. O bebê, de apenas três meses, deitado no estrado que servia de cama, rolou e caiu naquela água infecta, putrefacta e mal cheirosa. Foi o suficiente para dar um gole. Escapou de morrer afogado, mas contraiu septicemia, uma infecção generalizada, que o deixou três meses internado numa UTI infantil.



O BEBÊ


Ele viera de ter alta, mas, malgrado todos os cuidados médicos e nutricionais, o estado geral não apresentava melhoras. O bebê continuava prostrado, sem vida, sem reação, sem emoção. A mãe ao que parecia, havia perdido as esperanças. Numa última tentativa, queria agora deixá-lo no Lar de Cáritas, onde poderia ser melhor cuidado. 
Foi entregue a uma enfermeira prática, de nome Nancy, humilde, magra, funcionária da creche, que cuidava das crianças como se filhos fossem.


A ENFERMEIRA NANCY











A mulher tomou o bebê nos braços, friccionou-o vivamente. Tenta fazê-lo rir, brinca com ele. Nada acontece. Com cuidado, apertou o corpinho quase inerte contra seu coração, enquanto lhe dizia palavras doces. Ela fica assim, longo tempo imobilizada, os olhos fechados. Uma força espantosa emana dela.

A seguir, lentamente, suas mãos começam a pegar o bebê. Sem preguiça, ela o massageia da cabeça aos pés, com uma mistura perfeitamente dosada de força e delicadeza. Ela senta a criança no seu colo, saltita com ela, como se fosse um cavalinho. Naquele momento, o ar grave do bebê, aos poucos, vai se anuviando.

Então, sob os nossos olhos, um milagre se produziu. O olhar da criança começou a clarear, a se encher de luz. O pequenino ser, que estava ausente, de repente se torna presente. E, docemente, um sorriso aparece, acompanhado de pequenos gritos de alegria, até se transformar numa cascata de risos. O bebê havia escolhido viver. Seu sorriso testemunhava que o amor é a única razão que dá verdadeiramente sentido a uma existência. 

CONCLUSÕES

Um bebê não pode crescer e se desenvolver sem laços afetivos, no sentido mais amplo do termo. Se ninguém o olha de modo especial, não o toca, nem se interessa por ele, ele morre. 

Os pobres não se questionam sobre o sentido da vida. Eles tentam, simplesmente sobreviver a cada dia, mas, o que os ajuda a viver, tanto quanto a alimentação, são os laços familiares, amigáveis, tribais, comunitários. 

O que dá sentido verdadeiramente à vida, sejam ricos ou sejam pobres, ontem, como hoje, aqui ou alhures, é o amor. A vida, só é viável, porque alguém, nem que tenha sido pelo menos uma vez, nos olhou com amor.


DANIELLE


DANIELLE com o pai, na creche LAR DE CÁRITAS


 DANIELLE, COM  A MÃE
.


A despeito dos cuidados praticados, não se conseguiu resgatar aquelas crianças. Elas cresceram no mundo de violência, de miséria, na rua. Danielle, ao completar quatorze anos, morreu na Av. Conselheiro Aguiar, no bairro de Boa Viagem, no Recife, numa briga de gangues, atingida por uma pedrada, desferida por eles mesmos. 




O SENTIDO DA VIDA.

Comentários de José Bezerra de Moura , fundador do RC de Presidente Prudente Alvorada.

Prezado Companheiro de Rotary Alberto Bittencourt, inteligente Rotariano Servindo ao RI.

Li e absorvi com imenso prazer a história que trouxeste a lume, tua vida em comunidade e o teu verdadeiro projeto humanitário em prol do Brasil. Parabéns pelo formato desenvolvido ao longo do tempo e o desejo para que não se perca ou se extravie nessa prodigiosa e louvável caminhada rotária.

0 Brasil  e o seu Povo Livre do Socialista e do Comunismo maroto, acima de tudo, fazendo chegar a cada recanto por onde passas, a tua palavra abalizada, gentil, lúcida e democrática, mostrando, sem medo e fértil autoridade civil, o verdadeiro desencanto político, econômico, moral, ético e cívico que os detratores e esquerdistas de plantão, nocivamente  levaram o país para o lamaçal fedido e abjeto em que se encontra sem saída. Seja porta voz da recuperação e tiragem do país do fosso da improbidade e corrupção desenfreada no território nacional.


Pertinho de ti, Bittencourt, veja o que ocorreu no Executivo e Legislativo da cidade de Cabedelo, na Paraíba, trazida a lume pelo Fantástico da Globo, na noite de ontem, 8 de abril de 2018. A imagem pública e privada do Brasil , interna e internacionalmente, vem sendo afetada e destruída  a cada momento pelos maus brasileiros e governantes eleitos pelo povo servil.

Que Deus vigore e amplie tua sabedoria humana para bem e melhor servir este país maltrato por servis e aproveitadores do erário público,  popularmente travestidos  de nacionalistas, democratas e patriotismo.

José Bezerra de Moura - Fundador do Rotary Clube Presidente Prudente Alvorada

Bela história, Governador Bittencourt.

Abraço.


Valdemar L. Armesto


















quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

CAMPANHISTAS DA POLIO

CAMPANHISTAS DA PÓLIO

Alberto Bittencourt - 02 de agosto de 2018


Com a quantidade de valas negras, esgotos a céu aberto que serpenteiam entre casas e barracos das favelas brasileiras, estamos absolutamente vulneráveis a surtos de pólio que podem se transformar em epidemia em pouco tempo.
Em épocas de chuvas, esses esgotos se misturam com as águas das chuvas e invadem os barracos , provocando difteria, verminoses, e infecções diversas.
Outro problema é que os médicos nos postos de saúde confundem a pólio com outras doenças como encefalite e síndrome de Guillain Barré. Esta última é também uma paralisia flácida aguda só que acomete os membros superiores e inferiores. Não é assimétrica.
O estudo da poliomielite foi retirado da grade curricular das faculdades de medicina do Brasil. Os médicos residentes não sabem identificar a doença.
A cobertura vacinal recomendada pela OMS é de 95%. Mas as campanhas no Brasil nos últimos anos só alcançam 65% e menos de 50% em 312 municípios como foi denunciado pela Sra Carla Domingues, do Ministério da Saúde.
A vacinação contra a pólio ficou negligenciada nos postos de vacinação.
Hoje a criança até cinco anos só está imunizada após tomar cinco doses, sendo três injetáveis e duas de reforço orais.
Posso afirmar sem medo de errar que nossas crianças NÃO estão devidamente imunizadas contra o pólio vírus selvagem
Com a palavra as autoridades da OPAS e do Ministério da Saúde.
Não adianta mais chamar os secretários municipais nem estaduais de saúde. O caso requer a intervenção do Ministério da Saúde.
O Essas informações eu colhi no Instituto Oswaldo Cruz em Manguinhos, Rj
Temos que juntar nossos esforços para previnir que esse terrível mal volte a assolar as crianças brasileiras.
Para tanto, precisamos saber como andam as vacinações em nossas cidades.
Só tem um jeito: temos que comparecer aos postos de vacinação para ver como os técnicos das secretarias de saúde estão procedendo.
Em 2016, levei minha neta de 4 anos para ser vacinada num posto de vacinação aqui do Recife e fiquei estarrecido com a falta de interesse e de conhecimento dos vacinadores. Perguntei o que estavam aplicando, qual era a vacina e não obtive resposta.
Parecia que eles aplicavam as injeções sem saber o que estavam fazendo. Para eles era tudo a mesma coisa: vacinar contra dengue, paralisia infantil, sarampo, tuberculose... Nem mesmo olhavam as cadernetas de vacinação das crianças para saber o tipo de vacina que deveriam aplicar. Uma lástima. Total negligência em relação aos cuidados que deveriam tomar. Uma multidão de mães e de crianças se amontoavam numa pequena sala onde funcionários desatentos só queriam se desvencilhar da tarefa. Nem filas organizavam.
O Falar das campanhas, incentivar os Rotary Clubes, dizer que falta só isso, 0,1%, é uma coisa. Outra coisa é ir lá, entrar no posto, sentir o clima e sentir o cheiro do povo, verificar no detalhe como estão procedendo. Conferir se estão dando a vacina corretamente.
Atuar como voluntários que somos para fiscalizar é nosso dever e nosso direito.
Espero que não surja nenhum surto em nosso país.
Obrigado, e abraços.

sábado, 20 de abril de 2019

PALESTRA SOBRE EMPRESA CIDADÃ




PALESTRA SOBRE EMPRESA CIDADÃ
Alberto Bittencourt, 
Rotary Club do Recife, 17 de julho de 2014

Encarte do boletim n. 04 de 17 de julho de 2014, do Rotary Club Recife-PE



FORMAS DE ABORDAGEM

A forma de abordagem aos provedores de fundos, usando o paradigma do investimento ao invés da doação é antiga. Aprendi-a em 1998, quando participei como convidado do Rotary Club de Edmonton, no estado de Alberta, Ca, de um congresso mundial de voluntários, o IAVE - INTERNATIONAL ASSOCIATION FOR VOLUNTEER EFFORT, que reuniu 2500 delegados do mundo inteiro. Na ocasião participei de grupos de trabalho sobre o assunto. Guardo comigo o material desse congresso.

Em 1999 participei no Recife de um seminário patrocinado pela Bolsa de Valores do Estado de SP, sob o título "Terceiro Setor dá Lucro", demonstrando que o grupo de empresas da bolsa que investem e têm um balanço social, alcança melhores resultados. 

Em 2000 o então presidente da Phillips do Brasil, sr. Marcus Magalhães, interessado em conseguir fundos para a recuperação do Ginásio Pernambucano que, em sua época de estudante era escola pública modelo, proferiu palestra para empresários do Recife, dando o mesmo enfoque de que o investimento social das empresas melhora o resultado financeiro. 
Em seguida, na Conferência Distrital do D. 4500, no ano 2001, sendo governador José Ubiracy Silva, Marcus Magalhães defendeu a ideia de ampliar o investimento social das empresas. Propôs a criação de uma rede de escolas públicas de excelência, de tempo integral. Seu trabalho foi endossado pelo senador Cristovam Buarque e frutificou nas EREM - Escola de Referência do Ensino Médio, hoje uma realidade no estado de PE. 

No IRB de Gramado, RS, em 2009, o governador Mário Cesar Camargo, em memorável palestra sobre Planejamento Estratégico do Rotary, sob o título: O Futuro do nosso Rotary. Abordou o mesmo tema, de que as empresas que se destacam na bolsa de valores de SP são aquelas que têm uma preocupação social e ambiental e ensinou aos rotarianos presentes como abordá-las, destacando os pontos fortes e fracos do Rotary. Transcrevi o texto integral dessa palestra em meu blog. Clique no link abaixo e leia: 



Em todos esses eventos foi ensinada a maneira de abordar os provedores de fundos como parceiros, ao invés de doadores.

Clique no link abaixo e leia também o artigo: 
"Responsabilidade Social Corporativa" 












VEJA ABAIXO O PPT DA PALESTRA
EMPRESA CIDADÃ



sexta-feira, 23 de novembro de 2018

ETICA E VOLUNTARIADO


ÉTICA E VOLUNTARIADO
Alberto  Bittencourt





Meu amigo Sergio integra uma dessas associações humanitárias que, todas as noites, distribui uma tigela de sopa quente e nutritiva a moradores de rua. Concentra suas atividades na rua do Imperador, uma artéria de grande movimento no centro do Recife, bem perto da majestosa e imperial sede do Tribunal de Justiça de Pernambuco. Ali, cerca de 40 pessoas, entre idosos e crianças, há décadas vive nas calçadas. Moram debaixo das marquises, dormem na frieza do cimento forrado com um pedaços de papelão. Tiram o sustento como flanelinhas, convivem com a sujeira, com a falta de higiene, ficam ao relento, sem a menor proteção. Mas não querem sair dessa situação. 

Há alguns anos, a ABCC- Associação Beneficente Criança Cidadã, fundada pelo desembargador Nildo Nery dos Santos no início do ano 2000, numa iniciativa louvável, conseguiu removê-los. Numa área cedida pela prefeitura, fez construir cerca de 20 casas que foram doadas para aquelas famílias, na esperança de lhes dar condições dignas de existência. Junto com as casas, as famílias receberam material de higiene, alimentação, instrução, cuidados médicos e tiveram os filhos matriculados na escola. A Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque, que encanta o mundo, é cria da ABCC.

O sonho de ver a rua do Imperador sem miséria, contudo, durou pouco. Novas famílias logo se instalaram nas mesmas calçadas.

Dia desses, encontrei com Sergio. Como sempre, ele apregoou os benefícios do que considera ser sua missão de alimentar os pobres. 

_ Você não faz ideia de como nos faz verdadeiramente bem, trabalhar desinteressadamente em favor dos mais necessitados. Doar uma parcela de nosso tempo, dinheiro e energia para aquelas pessoas, remoça, dá mais disposição, mais alegria na vida. 

Sergio é adepto de filosofias orientais. Ele acredita que os atos de caridade geram créditos que um dia nos libertarão da roda de nascimentos e mortes, quando então teremos alcançado o plano espiritual mais elevado. 

_ Mas é claro, meu amigo, respondi ao Sergio. É impossível doar sem receber algo em troca, mesmo quando se trata dos pobres. Afinal, não está na Oração de São Francisco que é dando que se recebe? 

A frase causou impacto em Sergio. 

_ Você está enganado, disse ele. Meu objetivo é aliviar o sofrimento dessas pessoas. A caridade é um fim em si. A recompensa, nesta ou em outra vida, é consequência. 

_ Pois vou lhe mostrar que não é possível dar sem receber nada em troca, disse eu. Costumo doar roupas velhas, objetos usados que não me servem mais, para o bazar da irmã Anatília. Ela dirige uma instituição denominada CRVV- Centro de Revitalização e Valorização da Vida, no bairro do Pina, que cuida de 150 crianças, em horário complementar ao da escola. O bazar revende de tudo, a um preço quase simbólico. Cada cabide de roupa, por exemplo, custa R$ 3,00 em média. O dinheiro apurado paga a funcionária encarregada e ainda ajuda no custeio da instituição. 

_ Em casa, vez por outra, eu e Helena fazemos uma limpeza em nossos armários, em benefício do CRVV. Nenhuma daquelas crianças sabe que somos nós os benfeitores. Nada recebemos em troca das doações.

Sergio retrucou:

_ Bem, qualquer ação tem que ser totalmente anônima, para não correr o risco de gerar agradecimentos, de se tornar um favor. Ao me contar isso, você se tornou credor de minha admiração. Receba os meus parabéns e minhas congratulações, em troca de sua doação desinteressada. 

A pequena história mostra como são tênues os limites éticos do voluntariado.

Eu e Helena integramos o Rotary International, a maior rede de voluntários do mundo. Pertencemos ao Rotary Club do Recife-Boa Viagem. Tivemos oportunidade de conhecer o IAVE – International Association for Volunteer Effort ao participarmos como convidados de uma conferência mundial realizada no ano de 1998 na cidade de Edmonton, Canada, a convite do Rotary Club de Edmonton, parceiro internacional do nosso clube em diversos projetos humanitários. 

O IAVE foi fundado no ano de 1970, por um grupo de idealistas que encontrou no serviço voluntário um meio de conectar nações e culturas. A organização cresceu e hoje possui representações em mais de 70 países, a maior parte em desenvolvimento. O objetivo único do IAVE é promover, fortalecer e celebrar o crescimento do voluntariado no mundo inteiro. As conferências mundiais ocorrem de dois em dois anos.

A partir daí, eu e Helena temos acompanhado diversos movimentos internacionais de voluntários que congregam pessoas interessadas nos trabalhos comunitários. 

O Canadá é seguramente o país mais desenvolvido no mundo nesse campo. Lá, 80% de sua população desempenha algum tipo de trabalho voluntário. 

Outro exemplo são os Departamentos de Bombeiros americanos. Há cidades dos Estados Unidos em que 100% do efetivo é voluntário, outras, em que 100% é profissional e há as que adotam um sistema misto.

Os firefighters voluntários nada recebem de remuneração. Têm alto senso de responsabilidade, encaram o trabalho com a mesma dedicação dos servidores profissionais. Desempenham sua missão com o maior afinco, tanto no que diz respeito ao cumprimento do horário, quanto no zelo pelos materiais, pois operam sofisticadas e complexas viaturas e equipamentos com a maior seriedade.

Em todos os museus e centros históricos americanos que visitamos, havia sempre a presença marcante de voluntários, geralmente pessoas idosas, aposentadas, que trabalhavam como guias ou na administração.

Aprendemos que a palavra voluntário tem uma conotação, um peso, uma responsabilidade enorme.

Aprendemos que a oportunidade de se dizer não, é apenas quando se é convidado. Uma vez aceito o convite para qualquer missão, para qualquer função, para membro de qualquer organização, então tudo passa a ser obrigação. A partir desse momento, o encargo, a missão, o trabalho deixa de ser voluntário e passa a ser um compromisso assumido. O voluntário cumpre horários com seriedade, como qualquer funcionário que tenha de bater o ponto. 

No Brasil, a cultura do voluntariado ainda é incipiente. Muitas vezes o voluntário brasileiro dá a impressão de estar prestando um favor. Não quer ter obrigação de horário, compromisso de tempo, acha que pode trabalhar quando quiser e bem entender. É comum a figura do voluntário que entope a função. Sabem o que é na linguagem popular, entupir uma função? Pois o entupidor de função é a pessoa que aceita a missão, aceita o encargo, porém a partir daí não faz mais nada. Não faz e nem deixa fazer. Tampouco se pode recorrer a outra pessoa para ajudar, pois ele está lá entupindo a função, com os braços cruzados, fazendo resistência passiva, sem cumprir sua obrigação de voluntário. O que ele almeja é o reconhecimento, o status, os elogios e as homenagens. Para ele, o egocentrismo e a vaidade estão acima de tudo. 

A ONU decretou o ano de 2001 como o Ano Internacional do Voluntário e adotou a Declaração Universal do Voluntariado, uma espécie de Código de Ética que estabelece uma série de deveres e de procedimentos do voluntário para com: a sociedade, o meio ambiente, o público alvo, os outros voluntários, a própria entidade e em catástrofes naturais. 

A Declaração Universal do Voluntariado visa estabelecer uma cultura do voluntariado, baseada na formação técnica indispensável e, principalmente, na ética, para dar continuidade e sustentabilidade às ações voluntárias. 

O voluntariado preenche a lacuna deixada pelo Estado nas questões sociais. Integra as chamadas organizações do terceiro setor. 

Podemos dizer que, se não fossem os voluntários, o mundo seria um verdadeiro caos.


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sábado, 13 de janeiro de 2018

A ÉTICA CONVIVENCIAL


A ÉTICA CONVIVENCIAL

 Discurso pronunciado na abertura do fórum “A ÉTICA CONVIVENCIAL”, realizado no Tribunal Regional Federal de PE, sob a presidência da Exma sra. Desembargadora Margarida Cantarelli, em homenagem aos 100 anos do Rotary International,  nos dias 10 e 11 de março de 2005, pelo governador do Distrito 4500 do R.I. – Alberto Bittencourt.

Os palestrantes - Gustavo Krause, Alberto Bittencourt e Arli Melo Pedrosa, 
presidente do NACC - Núcleo de Apoio à Criança com Câncer.


            Como governador do Distrito 4500 do Rotary International, que congrega mais de 2.500 rotarianos e suas famílias em 92 Rotary Clubs dos estados de PE, PB e RN, rejubilo-me com este egrégio Tribunal Regional Federal, pela feliz iniciativa de promover este fórum de “Ética Convivencial”, como forma de reconhecimento e homenagem pelo transcurso do aniversário de 100 anos do Rotary International.
            Simplesmente o fato de ter chegado aos 100 anos de idade já é uma prova de sua importância para o mundo. Mas, quais foram as razões que  possibilitaram ao Rotary, celebrar agora “100 anos de sucessos” e lançar-se fortalecido no mundo, para realizar mais 100 anos de serviços? No meu entender, são quatro as principais razões da longevidade do Rotary.


Primeira razão da longevidade do Rotary:  voluntariado
            O Rotary é constituído por mais de 1,2 milhões de rotarianos distribuídos em 32.000 Rotary Clubs em 529 distritos, 166 países e uma região geográfica, a da Antártica, todos voluntários, líderes em seus segmentos profissionais, de conduta ética ilibada, reunidos com o objetivo maior de ajudar ao próximo. Esta é a primeira razão da longevidade do Rotary. A de que todos os rotarianos, sejam eles de que país forem, independente do credo religioso que professem, da ideologia política que abracem, da raça, da posição social, todos são dedicados e consagrados ao ideal de servir, ao trabalho em prol dos necessitados, a melhoria de condições de vida dos menos afortunados, não importa o país, não importa a região, não importa a comunidade. Onde houver sofrimento, onde houver fome, onde houver miséria, onde houver guerras, conflitos, cataclismas, violência, lá estarão sempre os rotarianos, eixos propulsores da solidariedade, da compreensão entre os povos, do amor ao próximo, do “dar de si, antes de pensar em si”.
            Por ser uma usina produtora do bem no mundo é que esta entidade chegou aos 100 anos de idade e celebra hoje o seu centenário. Mas não é essa a única razão.


Segunda razão da longevidade do Rotary:  companheirismo
Como podem os homens de bem, em meio a tantos percalços, tantas dificuldades, tantas ameaças, deixarem o aconchego de seus lares, o afago e o carinho de suas famílias, o conforto de suas residências, e se lançarem nas mais diversas atividades, colocando energias, seu tempo, seu dinheiro, em sacrifício muitas vezes de seus próprios negócios profissionais, em algo que a única remuneração é a consciência tranqüila  a satisfação individual, o sentimento de ter cumprido seu dever? Isso só é possível porque o Rotary pratica a filosofia da união, da comunhão de todos os homens, da integração das famílias rotárias, da mútua ajuda e da mútua cooperação, do não ao separatismo, não à divisão, não ao isolacionismo, não ao egoísmo ou egocentrismo, não à competição, não à vaidade cega pura e simples. É  essa a segunda razão da longevidade do Rotary. Ninguém pode negar a força da união e do companheirismo, a força do pensamento coletivo. Juntos, unidos, podemos realizar milagres, fazer muito mais do que cada um poderia fazer isoladamente. Juntos, constituímos uma sinergia que é a energia resultante do coletivo, muito maior do que a soma das energias dos seus componentes. Juntos, podemos multiplicar os pães, podemos mover montanhas, parodiando o musical o Homem de La Mancha, que conta a história de um cavaleiro andante que encontrou nas ruas uma prostituta, uma mulher, sem eira nem beira, sem passado, sem futuro, um reles instrumento nas mãos de todos os homens que passaram por sua vida. O cavaleiro viu nessa mulher as virtudes de uma deusa. Encontrou nela qualidades divinas, que passou a enaltecer, a exaltar, tornou-a sua verdadeira musa inspiradora. Deu-lhe o nome de Dulcinéa, a mulher dos seus sonhos. A dama, a princípio reagiu, afastou-se, não aceitou a nova condição, na visão daquele cavaleiro. Ele não desistiu. O tempo foi passando e ela foi incorporando aquele sentimento sublime. Aos poucos foi se erguendo da condição rasteira até aceitar a divina posição, assumir o papel de diva e assim chegou ao seu leito de morte. O homem de La Mancha então cantou a canção que nos inspira:

Juntos, podemos sonhar o sonho impossível,
Afastar a tristeza infinita,
Vencer o inimigo invencível
Chegar aonde nem os mais 
corajosos ousaram chegar.
           
            É o poder da união que faz o Rotary chegar aos 100 anos de sucesso e buscar mais cem anos de serviços.
            Para materializar a união, fomos buscar em La Fontaine, o símbolo para o nosso ano Rotário no distrito 4500: O FEIXE DE VARAS. Separadas, as varas são facilmente vencíveis, quebráveis, mas unidas, num feixe de varas, são impossíveis de derrotar, de serem quebradas. É o poder da união, a segunda razão da vitória, que fez o Rotary capitanear a maior campanha de saúde pública que já ocorreu em toda a história da humanidade: a da erradicação da poliomielite da face da terra.
            Sozinhos nunca chegaríamos a mobilizar tão grandes esforços, de gente, de recursos, para levar a vacinação, as duas gotinhas da vacina Sabin, a 2 bilhões de crianças, nos mais difíceis, inóspitos, recônditos recantos da terra. Em países da África e da Azia, do Oriente, há décadas conflagrados  por guerras fraticidas que já ceifaram milhões de vidas, que devoraram recursos humanos, e naturais insubstituíveis. Voluntários rotarianos lideraram milhões de outros voluntários, em mais de 20 milhões de horas de trabalho em campanhas e dias nacionais de imunização. Tréguas em conflitos, armistícios em guerras foram decretados, em territórios infestado de minas terrestres, contaminados por doenças como AIDS, tuberculose, malária, onde a ignorância, a miséria, a violência leva a inimagináveis preconceitos, como o de que a vacina produzia nas crianças a esterilização e transmitia a AIDS. Que o diga o EGD EUDES DE SOUZA LEÃO PINTO, nossa maior expressão na Campanha da Pólio Plus.
            Conseguimos superar isso tudo. Estamos em vias de bradar aos 4 ventos:  o mundo está livre da pólio!! Nunca mais uma criança vai morrer ou ficar aleijada, vítima da paralisia infantil. Por isso este meu grito, ao celebrar os 100 anos do Rotary, é celebrar a vida, é celebrar a saúde, é celebrar a paz. 
   Mas não é apenas isso. Os programas de alfabetização do Rotary, chamados Lighthouse levaram com sucesso, em muitas regiões do mundo a luz do saber, da leitura com interpretação do texto, dos conhecimentos básicos de aritmética  a milhões de crianças no mundo, em países como a Tailândia, em que os programas oficiais faziam com que as crianças saíssem das escolas como analfabetas funcionais, sem compreender o que liam, sem saber as mais elementares operações, muito parecido com o que ocorre entre nós, nas escolas públicas. Pois na Tailândia, país que primeiro adotou esse programa do Rotary, todas as crianças hoje, aprendem a ler e interpretar textos em poucos meses. Que o diga o EGD EDISON LIMA, que tanto lutou para implantar o programa em nossas escolas, e o seu êxito comprovado, em três escolas da rede municipal do Recife. O programa só não se estendeu a todas as escolas por razões políticas.
            No Brasil o programa Lighthouse está sendo implantado com êxito em Minas Gerais e algumas cidades isoladas, não tendo uma dimensão nacional apenas por injunções políticas.
Graças a Deus  uma mulher, uma líder, uma grande brasileira, agindo sob a inspiração de um grande herói nacional, está mudando a face da educação fundamental neste país. Refiro-me a Viviane Senna, a presidente do Instituto Ayrton Senna, que tanto honra e dignifica a memória de seu irmão, ao cumprir sua vontade, expressa antes de morrer precocemente nas pistas de Fórmula 1. São mais de 800.000 crianças nos projetos “Se Liga”e “Acelera”, plenamente alfabetizadas, em apenas 4 meses, nas mesmas escolas, nas mesmas instalações, com os mesmos meios, os mesmos professores, os mesmos alunos, funcionando onde o ensino regular não funciona. Por que? Motivação, capacitação, supervisão permanente, avaliação constante são a receita. Seriedade, patriotismo, amor, constituem os ingredientes.
            Rendo aqui, nas pessoas de Viviane Senna e também Zilda Arns com a Pastoral da Criança, minha homenagem à mulher brasileira.  Zilda Arns, mudando os índices de mortalidade infantil, alcançando mais de 1 milhão de crianças no Brasil, com a multi- mistura, o soro caseiro, os jogos educativos, e sobretudo os agentes familiares, mulheres voluntárias, que levam a orientação, a noção de higiene, a saúde para dentro dos lares os mais carentes e necessitados.


Terceira razão da longevidade do Rotary: 
flexibilidade
A terceira razão da longevidade do Rotary é que se trata de um clube dinâmico e flexível, que nunca fica estacionado no mesmo lugar, que se movimenta, que muda, que se adapta aos novos tempos, às novas idéias, às mudanças que permeiam a sociedade e se torna parte dessas mudanças. Por isso ele é chamado de “Movimento”.  Movimento Rotário.
Disse Paul Harris, nosso fundador: Este é um mundo que muda, e nós temos que aprender a mudar com ele. A história do Rotary será escrita muitas vezes.
É esta a terceira razão pela qual Rotary chegou aos 100 anos. A capacidade de se adaptar ao longo dos tempos. Por isso, o símbolo do movimento rotário é a famosa roda dentada, que sugere movimentos. Os 24 dentes correspondem às 24 horas do dia. Para que possa ser movimentada, ela possui um pequeno rasgo no centro, denominado “chaveta”. Imaginamos que nessa chaveta se encaixa o ressalto de um eixo propulsor para movimentá-la que é o verdadeiro rotariano.
É o rotariano, o eixo propulsor que move a roda dentada, sempre que leva ajuda à uma criança, educação, ensino profissionalizante aos jovens, sempre que tira um menino(a) das ruas, quando leva apoio e carinho aos idosos, alegria e tratamentos aos deficientes, fé e esperança às comunidades. Graças a esse movimento, a essa capacidade de adaptação, é que a mulher entrou em Rotary. Mas ainda  são muito poucas, apenas 12% no Brasil. Não podemos deixá-los de lado. Não podemos prescindir de sua ajuda. O mundo precisa de vocês, cada vez mais.
O editorial do Jornal do Comércio de hoje, traz uma notícia aterradora. Um dado uma pesquisa da UNESCO que constatou que de 1982 a 2002, subiu de 30 para 54 por 100 mil habitantes o número de assassinatos anuais de jovens entre 15 e 24 anos no Brasil, na sua maioria por armas de fogo. Significa que se antes, tínhamos 50 mil vítimas por ano, hoje temos 100 mil. Um verdadeiro genocídio. A população masculina neste país está sendo dizimada, a tal ponto, que, segundo o IBGE, mudou o perfil populacional do País, reduzindo o número de homens em relação ao de mulheres. É uma situação, diz o texto, similar à de um País em guerra, quando a grande mortalidade de homens jovens altera o equilíbrio numérico entre os sexos. E em conseqüência, os costumes são alterados. São as guerras entre grupos de traficantes, são os embates com a polícia, numa sociedade em que as opções de vida honesta são poucas. Onde permeia o desemprego onde a juventude se afunda na miséria, na falta de oportunidades.
Nos últimos 10 anos, 500.000 pessoas foram assassinadas neste país. Quase 10 vezes mais do que em 10 anos de guerra do Vietnan, quando  morreram 58.000 soldados americanos. Mata-se mais neste país que nos EUA, que é considerado um povo armado. Mata-se mais neste país que na China, com 1,3 bilhões de habitantes. Mata-se mais neste país que na Índia, que tem 1 bilhão de habitantes.
Não podemos nos conformar. Não temos o direito de ficar omissos ou indiferentes. 
Os homens do bem são tímidos, os homens do mal são ousados. Quatro homens do mal trocam 2 olhares e formam uma quadrilha. Os homens do bem ficam conjeturando, enrolados em burocracia, fazendo discursos, citando estatísticas, mas esquecendo tudo quando termina o evento. Nós temos que levar adiante tudo o que aqui se apregoa.
 Que saiamos deste fórum com um projeto de Paz, com linhas de ação traçadas e bem definidas, e que não deixemos se apagar a idéia. Temos que manter viva na lembrança tudo o que aqui se discutir. 



Quarta razão da longevidade do Rotary:  
ética
Mas, senhores e senhoras, este fórum não se refere apenas aos excluídos, às populações miseráveis, aos marginais. Este fórum é dirigido principalmente ao homem que freqüentou escola, que teve instrução, que aprendeu a distinguir entre o bem e o mal.
É dirigido ao homem de nível universitário, ao profissional de carreira, ao executivo, empresário, juízes, políticos, banqueiros gestores do bem público e a todos aqueles que usam colarinho branco, ostentam anel de grau no dedo, e que vemos todos os dias envolvidos em escândalos de corrupção na televisão. Por isso este fórum sobre a Ética é tão importante.
E esta é finalmente a quarta razão da longevidade do Rotary:
     A Ética, um princípio que não pode ter fim. 
Desde que o Rotary é Rotary, sempre se pautou na conduta dos rotarianos pelos mais elevados princípios da ética. E por isso ele chegou aos 100 anos.

Felicidades, e que Deus nos abençoe.

Assista até o fim o vídeo da trilha sonora do musical "O Homem de La Mancha", nas vozes de Paulo Autran, Maria Betânia e Elvis Presley. Clique nas 4 setas do canto inferior direito para ver em tela cheia.