CEIA DE NATAL
Alberto Bittencourt - 23 dez 2012
Faltando apenas alguns dias para o Natal, o ônibus
se deslocava lentamente por uma congestionada avenida Caxangá, direção
subúrbio-cidade. O céu parecia tingido de azul turquesa, com salpicos de
algodão. Uma brisa constante, vinda do mar, mantinha a temperatura amena e
agradável. A esplendorosa manhã, teimando em continuar primaveril, contrastava
com a atmosfera pesada e quente, dentro do veículo lotado e barulhento.
Sentada na primeira fila, uma mulher de semblante
amargurado, parecia alheia ao ambiente. Clara pensava no Natal e na filha
Cristina, de seis anos, que ficara em casa, aos cuidados da avó. Estava ao
mesmo tempo triste e resignada, pois não tinha como atender ao pedido da
menina. Ela não lhe pedira bonecas, nem brinquedos, nem roupa nova, nem
sapatos. A criança perdera o encanto pelos presentes desde que soubera na
escola que Papai Noel não existe. Para surpresa da mãe, o pedido de Tina se
resumiu à Ceia de Natal. Dessas que já vira nas novelas. A mesa posta com
toalha de motivos natalinos, ornada de flores e velas, os pratos, copos e
talheres, cuidadosamente arrumados, sucos, refrigerantes variados, iguarias de
dar água na boca, tudo preparado com amor, para ser partilhado numa ocasião
muito especial.
A imagem da família reunida em torno da mesa, cada um na sua
melhor fatiota, se afigurava utópica para Clara, impossível sem dinheiro. Ela
tentara explicar à filha o significado da reunião, a celebração do nascimento
do irmão maior, Jesus Cristo. Disse, que apesar de serem apenas três pessoas na
casa, avó, filha e neta, - o pai desapareceu tão logo ela se confessou
grávida, - as três formavam, sim, uma família, unidas no amor e nas
adversidades.
A casa pobre, espremida numa ruela de Camaragibe,
tinha sala-cozinha e um só quarto, com uma cama e um estrado, onde dormiam as
três. A mãe, hoje aposentada, conseguira comprá-la após uma vida inteira de
trabalho como empregada doméstica. Clara, costumava arrumar serviço de
cuidadora de idosos. No momento, estava desempregada e sem dinheiro. A
aposentadoria da mãe mal cobria as necessidades.
No percurso do ônibus, Clara ia envolta em
pensamentos negativos. Ela marcara uma entrevista de emprego e pedia a Deus que
tudo desse certo. Queria atender o pedido deTina, nem que fosse para um arremedo de ceia,
para rezarem e comerem qualquer coisa. Mas, como fazer, sem dinheiro?
Clara nem notou que o ônibus estava cada vez mais
lotado. Os passageiros se acotovelavam no corredor entre as fileiras de
poltronas.
Clara já telefonara para alguns amigos com os quais
costumava de quando em vez fazer programa, em troca de pequena ajuda
financeira. Nenhum deles a atendera. Ela, apesar de jovem e bonita, não tinha
namorado. Altura média, corpo esguio, olhos verdes, vivos e inteligentes,
cabelos longos e louros, a pele macia, de cor clara como seu nome. Em respeito
à filha e à mãe, sempre ficara longe das drogas. Dizia que boyzinho não dá
futuro, bastava a experiência com o pai de Tina e por isso, procurava a
companhia de homens mais maduros, sem se preocupar com o estado civil. No
momento, todos estavam fora, ou tinham outros compromissos. Ela não era mulher
de fazer pegação nas esquinas, nem de frequentar boates e lupanares. Não se
considerava prostituta, mas agora estava em dificuldades. O que fazer? Fechou
os olhos. Pediu a Deus que a ajudasse. Não queria deixar passar em branco o
pedido da filha, da Ceia de Natal, mesmo que na tosca mesa de sua casinha.
Num instante Clara sentiu um toque no ombro
esquerdo. Alguém, do banco de trás a cutucou. Virou e deparou-se com um homem
bem vestido, cabelos negros, compridos, arrumados em rabo de cavalo, brincos
nas orelhas. Clara adivinhou logo as preferências sexuais do estranho, ele não
poderia estar, portanto, interessado na sua pessoa.
Sem nada dizer, o homem passou-lhe um cartão.
Estava escrito coiffeur. Clara não sabia o que era. Subitamente ele
começou a falar: Que cabelos lindos, bem se vê que nunca foram tingidos. Que
tonalidade, que maciez, que desenvoltura, sem nós, ou fios quebradiços, a cor
clara, natural, perfeita.
Lisos e dourados, os cabelos eram a alegria de
Clara, a sua maior esperança. Ela os cultivava como a um tesouro há 15 anos.
Quando podia, comprava shampoos de marca, para tê-los sempre soltos, leves e
brilhantes. Com eles, tivera momentos felizes, alegres, que fazem parte de sua
história e de suas lembranças. Os cabelos eram a razão de ser de seus sonhos.
Imaginava-se modelo fotográfico, capa de revista, a aparecer na TV, linda, entre
anúncios de produtos miraculosos.
Clara desconversou e voltou aos seus pensamentos de
amargura.
O homem insistiu. Tome o meu cartão, sou
cabeleireiro, o salão fica no Shopping. Quer vender o seu cabelo? Eu pago R$
500,00. Clara levou um susto, quase caiu do banco. De verdade? Sim, procure-me
amanhã às 15 horas nesse local. Clara não pensou duas vezes, aceitou sem
regatear.
No dia seguinte, à hora aprazada, lá estava ela, no
salão. Esquecera todos os planos de modelo fotográfico, só pensava na filha e
na Ceia de Natal. O coiffeur aplicou-lhe o tratamento adequado. Clara
sentia-se a tal no ambiente sofisticado, ao lado das grã-finas. Primeiro, um
banho com água morna, shampoo e massagem. A seguir, mãos hábeis e
experimentadas, fizeram uma trança, que foi cortada e acondicionada
cuidadosamente dentro de um saco plástico.
Clara recebeu o pagamento combinado e saiu feliz. O
milagre acontecera. A filha ia ter a Ceia de Natal e ainda dava para comprar
uns presentinhos. Pensou, num impulso: Ano que vem vou vender os cabelos da
Tina... Mas logo sentiu o chamamento para a tarefa mais importante: agradecer a
Deus pela graça recebida.





