ALBERTO BITTENCOURT - Palestrante, motivador, consultor, escritor, biógrafo pessoal

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sábado, 26 de dezembro de 2020

CEIA DE NATAL SE e


CEIA DE NATAL 
Alberto Bittencourt - 23 dez 2012





Faltando apenas alguns dias para o Natal, o ônibus se deslocava lentamente por uma congestionada avenida Caxangá, direção subúrbio-cidade. O céu parecia tingido de azul turquesa, com salpicos de algodão. Uma brisa constante, vinda do mar, mantinha a temperatura amena e agradável. A esplendorosa manhã, teimando em continuar primaveril, contrastava com a atmosfera pesada e quente, dentro do veículo lotado e barulhento.
Sentada na primeira fila, uma mulher de semblante amargurado, parecia alheia ao ambiente. Clara pensava no Natal e na filha Cristina, de seis anos, que ficara em casa, aos cuidados da avó. Estava ao mesmo tempo triste e resignada, pois não tinha como atender ao pedido da menina. Ela não lhe pedira bonecas, nem brinquedos, nem roupa nova, nem sapatos. A criança perdera o encanto pelos presentes desde que soubera na escola que Papai Noel não existe. Para surpresa da mãe, o pedido de Tina se resumiu à Ceia de Natal. Dessas que já vira nas novelas. A mesa posta com toalha de motivos natalinos, ornada de flores e velas, os pratos, copos e talheres, cuidadosamente arrumados, sucos, refrigerantes variados, iguarias de dar água na boca, tudo preparado com amor, para ser partilhado numa ocasião muito especial. 
A imagem da família reunida em torno da mesa, cada um na sua melhor fatiota, se afigurava utópica para Clara, impossível sem dinheiro. Ela tentara explicar à filha o significado da reunião, a celebração do nascimento do irmão maior, Jesus Cristo. Disse, que apesar de serem apenas três pessoas na casa, avó, filha e neta, - o pai desapareceu tão logo ela se confessou grávida, - as três formavam, sim, uma família, unidas no amor e nas adversidades.
A casa pobre, espremida numa ruela de Camaragibe, tinha sala-cozinha e um só quarto, com uma cama e um estrado, onde dormiam as três. A mãe, hoje aposentada, conseguira comprá-la após uma vida inteira de trabalho como empregada doméstica. Clara, costumava arrumar serviço de cuidadora de idosos. No momento, estava desempregada e sem dinheiro. A aposentadoria da mãe mal cobria as necessidades.
No percurso do ônibus, Clara ia envolta em pensamentos negativos. Ela marcara uma entrevista de emprego e pedia a Deus que tudo desse certo. Queria atender o pedido deTina, nem que fosse para um arremedo de ceia, para rezarem e comerem qualquer coisa. Mas, como fazer, sem dinheiro?
Clara nem notou que o ônibus estava cada vez mais lotado. Os passageiros se acotovelavam no corredor entre as fileiras de poltronas.
Clara já telefonara para alguns amigos com os quais costumava de quando em vez fazer programa, em troca de pequena ajuda financeira. Nenhum deles a atendera. Ela, apesar de jovem e bonita, não tinha namorado. Altura média, corpo esguio, olhos verdes, vivos e inteligentes, cabelos longos e louros, a pele macia, de cor clara como seu nome. Em respeito à filha e à mãe, sempre ficara longe das drogas. Dizia que boyzinho não dá futuro, bastava a experiência com o pai de Tina e por isso, procurava a companhia de homens mais maduros, sem se preocupar com o estado civil. No momento, todos estavam fora, ou tinham outros compromissos. Ela não era mulher de fazer pegação nas esquinas, nem de frequentar boates e lupanares. Não se considerava prostituta, mas agora estava em dificuldades. O que fazer? Fechou os olhos. Pediu a Deus que a ajudasse. Não queria deixar passar em branco o pedido da filha, da Ceia de Natal, mesmo que na tosca mesa de sua casinha.
Num instante Clara sentiu um toque no ombro esquerdo. Alguém, do banco de trás a cutucou. Virou e deparou-se com um homem bem vestido, cabelos negros, compridos, arrumados em rabo de cavalo, brincos nas orelhas. Clara adivinhou logo as preferências sexuais do estranho, ele não poderia estar, portanto, interessado na sua pessoa.
Sem nada dizer, o homem passou-lhe um cartão. Estava escrito coiffeur. Clara não sabia o que era. Subitamente ele começou a falar: Que cabelos lindos, bem se vê que nunca foram tingidos. Que tonalidade, que maciez, que desenvoltura, sem nós, ou fios quebradiços, a cor clara, natural, perfeita.
Lisos e dourados, os cabelos eram a alegria de Clara, a sua maior esperança. Ela os cultivava como a um tesouro há 15 anos. Quando podia, comprava shampoos de marca, para tê-los sempre soltos, leves e brilhantes. Com eles, tivera momentos felizes, alegres, que fazem parte de sua história e de suas lembranças. Os cabelos eram a razão de ser de seus sonhos. Imaginava-se modelo fotográfico, capa de revista, a aparecer na TV, linda, entre anúncios de produtos miraculosos.
Clara desconversou e voltou aos seus pensamentos de amargura.
O homem insistiu. Tome o meu cartão, sou cabeleireiro, o salão fica no Shopping. Quer vender o seu cabelo? Eu pago R$ 500,00. Clara levou um susto, quase caiu do banco. De verdade? Sim, procure-me amanhã às 15 horas nesse local. Clara não pensou duas vezes, aceitou sem regatear.
No dia seguinte, à hora aprazada, lá estava ela, no salão. Esquecera todos os planos de modelo fotográfico, só pensava na filha e na Ceia de Natal. O coiffeur aplicou-lhe o tratamento adequado. Clara sentia-se a tal no ambiente sofisticado, ao lado das grã-finas. Primeiro, um banho com água morna, shampoo e massagem. A seguir, mãos hábeis e experimentadas, fizeram uma trança, que foi cortada e acondicionada cuidadosamente dentro de um saco plástico.
Clara recebeu o pagamento combinado e saiu feliz. O milagre acontecera. A filha ia ter a Ceia de Natal e ainda dava para comprar uns presentinhos. Pensou, num impulso: Ano que vem vou vender os cabelos da Tina... Mas logo sentiu o chamamento para a tarefa mais importante: agradecer a Deus pela graça recebida.



segunda-feira, 7 de setembro de 2020

DELINQUÊNCIA JUVENIL



DELINQUÊNCIA JUVENIL
Alberto Bittencourt - maio, 2014



Everton tem seis anos. Desde que veio ao mundo, habituou-se a ficar pelas ruas. Antes, nos braços de sua mãe. Depois, por ele mesmo, a esmolar. Finge tomar conta dos carros para receber uma moedinha qualquer que, no fim do dia, leva para ajudar a matar a fome da mãe e dos irmãos, pois a sua, por hora, está controlada, graças à caridade de muitas almas passantes.

Embora tenha sido matriculado na escola, lá só compareceu no primeiro dia.

Mora na favela de Santo Amaro, num barraco insalubre, mal cheiroso, quente no verão e frio no inverno ou à noite. A mãe, quando não está bêbada pela cachaça que ingere todos os dias, está cheia de crack. Nos momentos de lucidez, também ela vai para as ruas pedir esmolas para comprar mais droga.

Everton olha para as pessoas, as que vêm de carro para estacionar e lhe dão uma moeda, como se fossem seres do outro mundo – para ele, elas pertencem realmente a um outro mundo, lá bem distante, o Mundo dos Ricos. Ao cometer pequenos furtos, aproveitando quase sempre desleixos e descuidos próprios de quem tudo tem, de quem pouco valoriza seus objetos por excesso de possuídos, em sua concepção, o garoto acha que está apenas indo buscar o que lhe é devido.

Everton não tem nenhum amor no coração. Palavras como amor ao próximo, valor humano, bondade, respeito, educação, civilidade, são palavras nunca sentidas. Até hoje só conheceu o medo, medo de apanhar da mãe, medo dos espancamentos constantes, sem pretextos. O que preenche seu espírito é o ódio. O ódio por todos, mas principalmente pelas mulheres, como a mãe que o espanca. Ele tem lá dentro um oco enorme que precisa ser preenchido, precisa ser completado. É um oco do tamanho das suas entranhas, da sua fome, da sua falta de amor. Ele tem uma idéia fixa, recuperar tudo que a vida lhe deve, por tanto ter doado aos ricos.

Everton nunca recebeu nenhuma assistência desses órgãos do governo que existem para ajudá-lo, encarregados que são de garantir o bem estar da sociedade.

Everton é quase um bicho, vive por instinto e assim, vai sobrevivendo, a duras penas, na selva de pedra e asfalto, nas calçadas e ruas, de onde olha para muros e guaritas, tais como fortalezas proibidas. 

Aos quinze anos descobriu o uso da força e da violência para roubar. Aprendeu que os ricos não reagem, não resistem, vão logo entregando tudo o que têm. Everton se sente poderoso. O cidadão, sua vítima em potencial, fisica e moralmente desarmado, assustado, é um prato cheio para as mais desmedidas ambições. A omissão dasautoridades, a inércia, corrobora para respaldar esse sentimento de revolta no espírito de adolescentes como Everton e, nessa lógica, as vítimas que resistem devem ser punidas. Ele já puxou três vezes o gatilho, a arma apontada para o miserável que deu a partida no carro. Não quis ouvi-lo, então, merece morrer!

Everton é um pária, não está nas prioridades nem da Polícia, nem da Justiça.

Ele, nas ruas, sente-se rei.

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sexta-feira, 31 de julho de 2020

DESENVOLVER O HÁBITO DE CONTAR ESTÓRIAS 




Tirei de meu diário o texto a seguir, escrito em 2014. Coloco como sugestão às escolas e professores nos dias de hoje. Nas escolas bilíngues, o que menos importa são as legendas em inglês, posto que a partir das gravuras é que os pais devem inventar as estórias e contar para os filhos que as reproduzirão nas salas de aulas. Fica a sugestão. Vamos adotar essa prática para ver o resultado?

DESENVOLVER O HÁBITO DE CONTAR ESTÓRIAS. 
Alberto Bittencourt - março de 2014

 Toda criança pequena gosta de ouvir estórias.  Entretanto, o antigo hábito da mamãe contar uma estória para o filho na hora de dormir, parece-me, está desaparecendo do quotidiano das famílias.  Nos tempos atuais, o fato da esposa ter que trabalhar para ajudar no sustento da casa, faz com que ela chegue cansada e estressada ao fim do dia. E aí não sobra tempo, nem energia, nem ao menos um pouco de paciência, para sentar ao lado das crianças, dar asas à imaginação inventar um personagem, criar um enredo, tecer uma trama, por mais simples que seja para, com voz suave e doce, na penumbra do quarto, fazer o sono chegar e a criança adormecer.  Infelizmente tal hábito está praticamente abolido nas relações familiares, o que é uma pena. Deveria ser cultivado e incentivado por país, mestres e educadores, nas escolas do ensino fundamental.

Lembro de ter lido em algum lugar onde havia uma escola que incentivava tal prática.  A professora entregava a um aluno escolhido um livro. Era um livro simples, com fotos e gravuras e poucas legendas, apenas o essencial. O aluno levava o livro para casa.  A tarefa era pedir à mamãe para contar a estória do livro. Como a maioria dos pais nessas escolas públicas e do interior eram analfabetos, ele deveria inventar a narrativa,  a partir das  gravuras do livro. Assim se estimulava a imaginação do pai ou da mãe e o contato, a aproximação a criação de um canal de comunicação entre pai, ou mãe e filho. 

Estabelecia-se então um elo que jamais seria quebrado, um elo de amor, de aceitação de um e do outro, certamente um elo transformador que teria enorme influência na formação da personalidade e no caráter daquela criança.  Seu futuro estaria sendo moldado  no contato, na comunicação, na solidariedade e no amor. A criança jamais esqueceria desses momentos, uma imagem que guardaria para o resto de sua vida.  Aí está um papel da maior importância desempenhado por uma pequena escola do interior.  As crianças ficavam loucas para levarem os livros para casa. 

No dia seguinte, caberia à criança contar para a classe a estória que ouvira de sua mãe.  Um estímulo para o cérebro, para a mente, para a imaginação criativa da mãe e do filho.   Eis uma prática que todas as escolas deveriam adotar. Haveria menos violência no mundo, não tenho a menor dúvida, se a prática fosse disseminada. Os adultos seriam mais humanos, mais amorosos, menos frios, e mais calorosos, mais amigos e mais solidários, porque a semente do amor fora plantada no coração das crianças na sua infância.

Nos dias atuais é mais fácil entregar um celular a cada filho. Eles se isolam num mundo virtual e deixa-se de cultivar o hábito da leitura crítica e da escrita criativa.


CONTANDO ESTÓRIAS PARA DORMIR

Mais, mais, conta outra, mais uma, exige a criança, apoiada no travesseiro, as mãos espalmadas  sobre a cama.  A mãe tem que rapidamente inventar uma outra estória improvisada que faça sua filha dormir.  Ela mistura os personagens dos irmãos Grimm, com outros inspirados nos desenhos animados, formando uma fábula simpática, com um ensinamento moral no fim.  A mamadeira cai para um lado, os pés se aquietam, os olhos começam a fechar. A criança enfim dorme. Vitória da mãe.
Fora do quarto a esperam muitas horas de trabalho doméstico.  Lavar a louça, colocar o feijão de molho. Pelo menos a criança dormiu.

Malgrado a pressão da vida moderna e os problemas de moradia, muitos pais antigamente contavam estórias aos seus filhos na hora de dormir. Alguns liam contos, enquanto outros os inventavam, ou evocavam os que escutaram em suas infâncias.  Os filmes de vídeo e os filmes de Disney trouxeram novas situações e novas personagens para contar.  Não é de se estranhar que Tom e Jerry tenham se tornado amigos nessas estórias, ou que Harry Potter seja vítima de uma maçã envenenada.
O esperado é que as pálpebras fiquem mais pesadas e o sono chegue o mais rápido possível.

 Há alguns dias, um amigo me contou que a filha lhe pedira para contar uma nova estória.
Uma estória, papai, que não está nos livros.
O pai, fatigado de uma jornada de trabalho, incapaz de inventar uma nova ficção, decidiu contar sua própria rotina. Começou assim:
Era uma vez um homem que levantava todos os dias às seis horas da manhã.
Enquanto ia falando, os olhos de sua filhinha revelavam expectativa.
Ele ia comprar o pão para o café e, em seguida, partia para o trabalho.  O ônibus às vezes passava dentro do horário, às vezes atrasava.
 Um pequeno sinal de impaciência começava a se esboçar na fisionomia da pequena. Mas ele continuava:
No fim do mês ele recebia um salário que dava apenas para pagar a conta de eletricidade, comprar um pouco de alimento, para garantir a sobrevivência.
Um muxoxo de frustração interrompeu a monótona narrativa.
Papai, eu quero uma estória onde são os bons que ganham.

Outro amigo contou-me que a filha de cinco anos lhe pediu para contar uma historia de princesas.
Ele perguntou:
De quais princesas você gosta mais?
A menina respondeu:
Eu gosto das que desmaiam...


sábado, 18 de julho de 2020

EVINHA

EVINHA 
Alberto Bittencourt - Ficção - Março de  2016. 





Evinha - que múltiplos segredos se escondem por trás desse rostinho infantil, desse olhar perdido no tempo, dessa alma brejeira, criança e mulher ao mesmo tempo? Tão jovem nos seus 25 anos, tão madura no comportamento? tem um filho de quatro anos. É paulista, veio para o Recife onde tem outros parentes. Por que? Que mistério cercam sua vida? Casou com pernambucano. 

Na internet revelou-se uma mulher independente, marota, maliciosa. Soube manipular a imagem, atirou a isca, atraiu milhares de seguidores. Deixou mais de mil pedidos de amizades pendentes. Repeliu assédios. Afastou conquistadores afoitos. Após ter exposto três fotos ousadas e algumas piadas avançadas, invenção de sua própria cabeça, retraiu-se. Desapareceu do mapa. 

 A princípio enviei um pedido de amizade, acompanhado de um texto. Será que me aceitaria em seu rol de incontáveis amigos e pretendentes?

Estou louco para te ver, meu anjo, ansioso por te conhecer. Ir até aonde ninguém ousou, mergulhar nas profundezas do sonho, aspirar o inebriante perfume, sentir a suave carícia, ouvir a doce música, sugar a pérola oculta, navegar na mais pura emoção.

Deu o sinal verde ao responder com apenas uma palavra:

Fofo.

Depois deu o bote. Disse que precisava de apoio financeiro. Quanto? Barganhei, ofereci a metade e ela topou. Marcamos o encontro no estacionamento do shopping. Chegaria com um vestido verde estampado , uma saia rodada. Para facilitar as coisas, imaginei. Cheguei no horário. Ela apareceu em seguida. Cabelo solto, brejeira, faceira, alta, esguia nos seus 1m75. Sandálias rasas, pernas bem torneadas, roliças, expostas até um palmo acima dos joelhos. Esplendorosa, parecia uma estrela de cinema, uma diva iluminada, inalcançável para a maioria dos cristãos. 

Revelou-se tímida em nosso primeiro encontro. Meiga. Explode ante o fogo dos hormônios aos primeiros contatos. Sente a volúpia arrebatadora do prazer até então adormecido. Com rapidez alcança o clímax. Explode em mil contorções, vira e revira os olhos, o coração dispara, a respiração torna-se curta e rápida. Depois tudo se acalma.

Pronto, o fogo apagou, segundo suas próprias palavras. Disse ficar sensível nas partes íntimas, sentir aflição ao menor toque. Em seguida, Evinha se desdobra para proporcionar ao parceiro o melhor dos prazeres. Desde que reste quieto, estático, é só deixar a cargo dela. Com movimentos vigorosos manipula o corpo do parceiro até que atinja au grand complet,  o Final Feliz. 

Assim é Evinha, mulherão com cara de menina. Doce no jeito de ser, voz delicada, vigorosa nas atitudes de quem sabe o que quer. Atenciosa e educada, sabe conversar. Trabalhadora, tem emprego fixo, concilia as atividades com as de mãe, dona de casa e esposa. De seu perfil no Facebook consta: em um relacionamento complicado. De seus olhos percebo um lampejo de tristeza. Não sei se as saídas são por necessidade financeira ou por conta do relacionamento complicado. Não sei. 

Hoje foi nosso segundo encontro. Como antes, o fogo intenso, de uma fogueira crepitosa. Devoradora, avassaladora, demolidora. Como antes, durou o espaço de minutos. Arrefeceu ante o gozo extremo. Aí ficou novamente sensível ao menor toque. Aquele mulherão, de extrema feminilidade, de extrema meiguice, de total doação, se queda em silêncio, olhar perdido no espaço. Que se passa em sua cabecinha de criança? Imóvel, rejeitava o menor toque de carinho. A devoradora de homens de momentos antes, evaporara. A fêmea sedenta, agressiva, voluptuosa, desarmada e entregue, a musa da internet, cuja malícia atrai milhares de seguidores incondicionais, escafedera-se de novo.

Oi Eva. Obrigado pela tarde maravilhosa que passamos.
Você é uma pessoa especial.  Sensível, romântica, carinhosa.  E ainda por cima, muito linda.  Carinha alegre de menina adolescente, com um pouco de malícia no olhar fagueiro, gestos e postura de estrela, sem ser posuda. Em certos momentos fica caladinha, o olhar perdido no ontem, certamente a rememorar ou simplesmente a relaxar.

Adorei te conhecer.  Espero que nosso encontro se repita muitas vezes, cada vez mais prazeroso.
Faço votos de que vc realize todos os seus sonhos, desde adolescente, até os da mulher adulta, madura, experiente, que busca novos caminhos.
Que você seja feliz, junto com seu filho, com as bênçãos de Deus.

Some não.
Foram as últimas palavras que ouvi de seus lábios. Foi-se embora sem se despedir. Sumiu. Talvez tenha voltado para a cidade de origem. 
Em meu coração ficou a marca de uma saudade que virou lembrança.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

ETICA E VOLUNTARIADO


ÉTICA E VOLUNTARIADO
Alberto  Bittencourt





Meu amigo Sergio integra uma dessas associações humanitárias que, todas as noites, distribui uma tigela de sopa quente e nutritiva a moradores de rua. Concentra suas atividades na rua do Imperador, uma artéria de grande movimento no centro do Recife, bem perto da majestosa e imperial sede do Tribunal de Justiça de Pernambuco. Ali, cerca de 40 pessoas, entre idosos e crianças, há décadas vive nas calçadas. Moram debaixo das marquises, dormem na frieza do cimento forrado com um pedaços de papelão. Tiram o sustento como flanelinhas, convivem com a sujeira, com a falta de higiene, ficam ao relento, sem a menor proteção. Mas não querem sair dessa situação. 

Há alguns anos, a ABCC- Associação Beneficente Criança Cidadã, fundada pelo desembargador Nildo Nery dos Santos no início do ano 2000, numa iniciativa louvável, conseguiu removê-los. Numa área cedida pela prefeitura, fez construir cerca de 20 casas que foram doadas para aquelas famílias, na esperança de lhes dar condições dignas de existência. Junto com as casas, as famílias receberam material de higiene, alimentação, instrução, cuidados médicos e tiveram os filhos matriculados na escola. A Orquestra Criança Cidadã dos Meninos do Coque, que encanta o mundo, é cria da ABCC.

O sonho de ver a rua do Imperador sem miséria, contudo, durou pouco. Novas famílias logo se instalaram nas mesmas calçadas.

Dia desses, encontrei com Sergio. Como sempre, ele apregoou os benefícios do que considera ser sua missão de alimentar os pobres. 

_ Você não faz ideia de como nos faz verdadeiramente bem, trabalhar desinteressadamente em favor dos mais necessitados. Doar uma parcela de nosso tempo, dinheiro e energia para aquelas pessoas, remoça, dá mais disposição, mais alegria na vida. 

Sergio é adepto de filosofias orientais. Ele acredita que os atos de caridade geram créditos que um dia nos libertarão da roda de nascimentos e mortes, quando então teremos alcançado o plano espiritual mais elevado. 

_ Mas é claro, meu amigo, respondi ao Sergio. É impossível doar sem receber algo em troca, mesmo quando se trata dos pobres. Afinal, não está na Oração de São Francisco que é dando que se recebe? 

A frase causou impacto em Sergio. 

_ Você está enganado, disse ele. Meu objetivo é aliviar o sofrimento dessas pessoas. A caridade é um fim em si. A recompensa, nesta ou em outra vida, é consequência. 

_ Pois vou lhe mostrar que não é possível dar sem receber nada em troca, disse eu. Costumo doar roupas velhas, objetos usados que não me servem mais, para o bazar da irmã Anatília. Ela dirige uma instituição denominada CRVV- Centro de Revitalização e Valorização da Vida, no bairro do Pina, que cuida de 150 crianças, em horário complementar ao da escola. O bazar revende de tudo, a um preço quase simbólico. Cada cabide de roupa, por exemplo, custa R$ 3,00 em média. O dinheiro apurado paga a funcionária encarregada e ainda ajuda no custeio da instituição. 

_ Em casa, vez por outra, eu e Helena fazemos uma limpeza em nossos armários, em benefício do CRVV. Nenhuma daquelas crianças sabe que somos nós os benfeitores. Nada recebemos em troca das doações.

Sergio retrucou:

_ Bem, qualquer ação tem que ser totalmente anônima, para não correr o risco de gerar agradecimentos, de se tornar um favor. Ao me contar isso, você se tornou credor de minha admiração. Receba os meus parabéns e minhas congratulações, em troca de sua doação desinteressada. 

A pequena história mostra como são tênues os limites éticos do voluntariado.

Eu e Helena integramos o Rotary International, a maior rede de voluntários do mundo. Pertencemos ao Rotary Club do Recife-Boa Viagem. Tivemos oportunidade de conhecer o IAVE – International Association for Volunteer Effort ao participarmos como convidados de uma conferência mundial realizada no ano de 1998 na cidade de Edmonton, Canada, a convite do Rotary Club de Edmonton, parceiro internacional do nosso clube em diversos projetos humanitários. 

O IAVE foi fundado no ano de 1970, por um grupo de idealistas que encontrou no serviço voluntário um meio de conectar nações e culturas. A organização cresceu e hoje possui representações em mais de 70 países, a maior parte em desenvolvimento. O objetivo único do IAVE é promover, fortalecer e celebrar o crescimento do voluntariado no mundo inteiro. As conferências mundiais ocorrem de dois em dois anos.

A partir daí, eu e Helena temos acompanhado diversos movimentos internacionais de voluntários que congregam pessoas interessadas nos trabalhos comunitários. 

O Canadá é seguramente o país mais desenvolvido no mundo nesse campo. Lá, 80% de sua população desempenha algum tipo de trabalho voluntário. 

Outro exemplo são os Departamentos de Bombeiros americanos. Há cidades dos Estados Unidos em que 100% do efetivo é voluntário, outras, em que 100% é profissional e há as que adotam um sistema misto.

Os firefighters voluntários nada recebem de remuneração. Têm alto senso de responsabilidade, encaram o trabalho com a mesma dedicação dos servidores profissionais. Desempenham sua missão com o maior afinco, tanto no que diz respeito ao cumprimento do horário, quanto no zelo pelos materiais, pois operam sofisticadas e complexas viaturas e equipamentos com a maior seriedade.

Em todos os museus e centros históricos americanos que visitamos, havia sempre a presença marcante de voluntários, geralmente pessoas idosas, aposentadas, que trabalhavam como guias ou na administração.

Aprendemos que a palavra voluntário tem uma conotação, um peso, uma responsabilidade enorme.

Aprendemos que a oportunidade de se dizer não, é apenas quando se é convidado. Uma vez aceito o convite para qualquer missão, para qualquer função, para membro de qualquer organização, então tudo passa a ser obrigação. A partir desse momento, o encargo, a missão, o trabalho deixa de ser voluntário e passa a ser um compromisso assumido. O voluntário cumpre horários com seriedade, como qualquer funcionário que tenha de bater o ponto. 

No Brasil, a cultura do voluntariado ainda é incipiente. Muitas vezes o voluntário brasileiro dá a impressão de estar prestando um favor. Não quer ter obrigação de horário, compromisso de tempo, acha que pode trabalhar quando quiser e bem entender. É comum a figura do voluntário que entope a função. Sabem o que é na linguagem popular, entupir uma função? Pois o entupidor de função é a pessoa que aceita a missão, aceita o encargo, porém a partir daí não faz mais nada. Não faz e nem deixa fazer. Tampouco se pode recorrer a outra pessoa para ajudar, pois ele está lá entupindo a função, com os braços cruzados, fazendo resistência passiva, sem cumprir sua obrigação de voluntário. O que ele almeja é o reconhecimento, o status, os elogios e as homenagens. Para ele, o egocentrismo e a vaidade estão acima de tudo. 

A ONU decretou o ano de 2001 como o Ano Internacional do Voluntário e adotou a Declaração Universal do Voluntariado, uma espécie de Código de Ética que estabelece uma série de deveres e de procedimentos do voluntário para com: a sociedade, o meio ambiente, o público alvo, os outros voluntários, a própria entidade e em catástrofes naturais. 

A Declaração Universal do Voluntariado visa estabelecer uma cultura do voluntariado, baseada na formação técnica indispensável e, principalmente, na ética, para dar continuidade e sustentabilidade às ações voluntárias. 

O voluntariado preenche a lacuna deixada pelo Estado nas questões sociais. Integra as chamadas organizações do terceiro setor. 

Podemos dizer que, se não fossem os voluntários, o mundo seria um verdadeiro caos.


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domingo, 12 de agosto de 2018

COLO PATERNO











COLO PATERNO

Alberto Bittencourt
(baseado em fato real)





Todos os dias Patrícia chega em casa ao cair da noite. Larga a bolsa num canto, chuta os sapatos, deixa o casaco de lado e, apressada, vai direto para o quarto da filha. Evita fazer ruído para não acordá-la. 


Na casinha do Ibura, bairro popular do Recife, moram avó, filha e neta. O espaço, embora pequeno, é limpo e higiênico. Tem dois quartos, banheiro sem porta, isolado por cortina. A sala serve também de cozinha. O piso é de cimento desgastado, no teto se vê a telha vã e nas paredes o tijolo nu. 

Patrícia trabalha o dia inteiro como guardete numa estação do metrô. Consciente de suas responsabilidades, nunca afrouxa a vigilância. Ajuda, orienta, intervém quando há conflito, procura manter a ordem, com energia se faz respeitar. Depois, pena duas horas de ônibus até chegar em casa.

Nesta semana de agosto, a proximidade do dia dos pais lhe traz certa amargura, como um aperto no peito. A menina Sarinha, de sete anos, não sabe o que é ter pai. Nunca teve, nem mesmo chegou a conhecer o que lhe deu a vida. 

Patrícia não consegue controlar as lágrimas, chora sempre ao se lembrar daquele domingo, quando Sarinha, então com apenas dois anos, veio correndo em sua direção, a chamá-la ansiosa: 

Mamãe! Mamãe! 
O bracinho estendido trazia na mão uma nota amarfanhada de dois reais.
Toma, mamãe. Compra um pai pra mim.

O olhar suplicante refletia aflição de algo muito desejado. A princípio, Patrícia, cansada do dia estafante, não percebeu. 
O que é isso minha filha, já devia estar dormindo. 
Em seguida, ao se dar conta, abraçou a filha aos prantos. Pensou:
Como pode ter tanta sensibilidade? 

Aquele pingo de gente, os cabelos pretos e lisos, a tez de uma alvura imaculada, as feições delicadas e meigas, resistia ao sono, à espera da mãe. 

Não queria roupas, nem bonecas, nem brinquedos de qualquer espécie. Queria o bem mais precioso, de que, na tenra idade, já sentia imensa falta. Alguém que ela pudesse tocar, beijar, entregar-se, ser levantada e aparada. Queria sentir-se segura no aconchego do colo paterno. O dinheiro, encontrado num canto qualquer, era uma esperança. 

Toma, mamãe. Compra um pai pra mim!

Na inocência de seus dois aninhos, Sarinha talvez não compreendesse o real significado de ter pai. Muito mais do que a simples presença física masculina, o que ela queria era um colo para deitar a cabeça e dormir, uma mão para segurar e passear, um porto seguro para recolher seu pranto, um Céu verdadeiro onde pudesse receber carinho, afago. 

Hoje, Sarinha, aos sete anos pergunta pelo pai que nunca teve. 
Ele foi embora, filhinha. 
Ele não gosta da gente?
Gosta sim, mas ele mora muito longe. Não dá para nos visitar.
Escreve pra ele, mamãe. Telefona.

Sarinha é fruto do primeiro relacionamento de Patrícia, ainda adolescente. Muito jovem, imatura, a gravidez chegou precoce, inesperada. Caiu como uma bomba. Foi criada pela avó. 

Desde então, Patrícia só teve relacionamentos fugazes, amores fugidios. No momento, está namorando o supervisor da empresa em que trabalha. Ele é jovem, educado, solteiro. Parece sincero ao declarar seu amor pelas duas, mãe e filha. 


Patrícia ora a Deus:

Perdão, Senhor! Que posso eu pedir?
Lança suas bênçãos misericordiosas sobre nós.
Que minha filha não seja órfã de pai vivo,
Dai-lhe o verdadeiro Céu do Teu carinho
Que fulge entre os lábios de quem canta:
Filhinha dorme, dorme filhinha!








segunda-feira, 7 de maio de 2018

TE VEJO ─ ESTOU AQUI



SAWA BONA - SIKHONA
TE VEJO - ESTOU AQUI
Alberto Bittencourt
(março de 2010)



Lagoa do Araçá, bairro da Imbiribeira, Recife, PE




Certa manhã de sábado, estava eu às margens da Lagoa do Araçá, aprazível recanto recifense, situado no bairro da Imbiribeira, a meio caminho da zona sulPraticava o cooper matinal na pista de 1,5 km de extensão, circundando o espelho d’água.
A presença de alguns pescadores fazia supô-la livre de poluição. A pequena quantidade de automóveis também garantia a qualidade do ar. Enfim, o lugar, calmo e tranquilo, é um presente para as crianças, uma alegria para os moradores do bairro.
Até quando? o pensamento negativo me inquietou. Espigões já começam a despontar no entorno. A propaganda oferece os privilégios da vista para a lagoa.                    

Numa das voltas notei a pobre senhora, de olhar perdido no espaço. Estava sentada num banco de concreto. Segurava com cuidado um pequeno volume que adivinhei ser algum tipo de presente.
Roupas surradas, cabelos grisalhos em desalinho, trazia o semblante fatigado, envelhecido, como tantas pessoas castigadas pela vida.
De repente, levantou-se, num salto.
Na calçada, do outro lado da rua, um vulto em trapos caminhava lentamente, arrastando os pés. Cabelo e barba desgrenhados,  emaranhados, compunham o aspecto doentio dos mendigos mais desamparados.
A mulher restou imóvel por alguns segundos, junto ao meio fio. A seguir, estendendo o pequeno embrulho, gritou:
Feliz aniversário, meu filho!

Sem esboçar qualquer gesto, homem continuou a andar.  Lentamente seguiu seu caminho, sem olhar, sem ouvir, sem sentir, até desaparecer na esquina.
A mulher sentou-se encolhida e começou a chorar.
   
Ele é seu filho? perguntei.
Sim, disse, entre soluços. 
Prosseguiu: 
É um menino, não passa de um adolescente. Juntou-se às más companhias, envolveu-se com drogas, deixou de estudar, começou a roubar. Primeiro foram os objetos de casa, depois as pessoas nas ruas. Tornou-se agressivo, gritava, me batia quando eu ameaçava chamar a polícia. Passava dias trancado no quarto. Quando pedi ajuda para interná-lo numa clínica, ele fugiu. 
Continuou:
Passaram-se meses, quase um ano, sem que eu tivesse qualquer notícia. Procurei loucamente. Há pouco, soube por antigos colegas, que ele vivia por aqui.
Mandei um recado, dizendo que no dia de hoje estaria à sua espera, sentada neste banco, à beira da lagoa de Araçá. Hoje é o dia do aniversário dele, sabe? Completa 18 anos. 
Estou esperando há mais de duas horas. Você viu? Ele passou, não me falou, nem me olhou, não fez um gesto, nenhum aceno... Está tão magro, sujo, coitado, deve estar doente. Ele precisa de ajuda. Não sei o que fazer. 
A mulher começou a chorar. De repente seu rosto se  anuviou. Chegou a esboçar um leve sorriso. 

Mas ele veio, ele me viu, ele sabe que estou aqui.
Tais palavras lhe deram uma nova força, um novo ânimo.
Agora ele sabe que pode contar comigo. Agora ele sabe que eu estou sempre pronta a recebê-lo, a ajudá-lo, do jeito que ele estiver, onde quer que ele esteja.

Pensei: 
Como poderia eu ajudar a essa pobre mulher? Em seu amor de mãe, ela jamais perdera a esperança
Balbuciei:   
Conheço uma comunidade terapêutica. Fica num sítio em Igarassu. Chama-se "Cristo Liberta". Algum dia, talvez...  
Deixei meu cartão e continuei a caminhada.
Nunca mais ouvi falar dela, mas o acontecido transformou minha vida. 

A expressão: ele me viu, ele sabe que estou aqui, vinda do mais profundo âmago daquele ser em prantos, tinha a força da própria vida, a certeza do futuro, a fé na volta do filho desviado. 
-Ele me viu, ele sabe que estou aqui-, significa como é importante para aquela mãe estar lá, simplesmente, na eterna esperança, sem cenas, sem dramas, a dor recolhida ao coração.

Esta é uma história verdadeira. Como tantas outras,  expressa a solidariedade, o amor, a compreensão.
Faz-me lembrar a sabedoria das tribos zulus, da África do Sul. Eles se saúdam de um modo peculiar, nos encontros e nas despedidas, como quem diz olá, ou até logo.
À saudação -sawa bona, que, literalmente quer dizer -te vejo, corresponde uma resposta, -sikhona, que, também literalmente, significa -estou aqui.
Para os zulus, -te vejo, significa:
-eu respeito você, eu valorizo você, você é importante para mim.
E a resposta -estou aqui significa: 
-eu existo para você, pode contar comigo, eu estou disponível para servi-lo.
Portanto, -eu vejo vocês. Nós vemos vocês. Estamos contentes por vocês estarem aqui.

Sawa bona  -  Sikhona.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

MEUS PRIMEIROS JOELHOS


MEUS PRIMEIROS JOELHOS

Na primeira fase de minha adolescência fui seduzido por um par de joelhos. Eu ficava sentado e os joelhos ali, bem na minha frente, apontados para minha libido. Alternando movimentos suaves, ora se aproximavam, ora se afastavam, aguçando-me a curiosidade pelos desvãos secretos, levemente oferecidos, desconhecidos. Na minha inocência não adivinhava intenções ocultas. Mas aqueles joelhos me perturbavam a ponto de só conseguir dormir depois da satisfação solitária. 
Nunca mais esqueci. 
Ainda hoje, vejo-os na bruma esmaecida da memória. Redondos,  lisinhos, fofinhos, apetitosos. 
Deles, guardei apenas o vão apelo: vem, fica comigo esta noite. 

Os olhos de um verde selvagem. Os cabelos negros de índia, revoltos como juba. A sedutora pinta,  lábios bem carnudos. 
O olhar descuidado, meio que encoberto por uma névoa irritante, como o flog londrino.
No decote ousado, o ninho do amor. 
Em primeiro plano, imponente, arrogante, gozador:   _ O joelho da minha vida.

Você esbanja charme e elegância. Seu rosto é de uma beleza natural, sem artifícios. Seus olhos encerram a doçura selvagem das antigas guerreiras amazonas, vigorosos, decididos. Os cabelos revoltos adornam a expressão da força, da mulher que nada teme. 
A sensualidade de seus lábios é um convite permanente, um eterno chamamento. 
Lábios carnosos, cremosos, apetitosos, na consistência e na beleza. Nem precisam falar. Como as flores, simplesmente exalam o aroma do amor, para o beijo transcendente. 
Paixões que se sublimam ante o desejo incontido. 
Abracar esse joelho lindo, oh, como seria bom. Mas é apenas um sonho. Não pode ser real.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

AS APARÊNCIAS ENGANAM - Ficção.



NEUROSE - Ficção

Alberto Bittencourt


Perto dos meus vinte anos, visitei, junto com dois amigos, o que naquele tempo chamavam de "Casa de Tolerância" e hoje chamam de "puteiro" mesmo. 
Era no fim de um dia sem nome. 

De início, homens e mulheres ficavam na sala conversando, brincando ou dançando. As meninas eram gentis e delicadas. 
As escolhas se faziam de modo natural, cada um atraído pelo tipo de mulher que mais o apetecia e vice-versa. 
Fiquei com uma morena, mignon, tês clara, branquinha, cabelos negros, compridos e lisos. 

Logo estávamos afins e a fim um do outro a dançar agarradinhos, trocando juras de amor eterno. 


Então, uma das garotas aproximou-se de mim e disse, batendo de leve com a mão espalmada no meu rosto: 
"Faz assim no rostinho dela que ela goza rapidinho, rapidinho e muitas vezes". 

Do salão, cada par subiu para a suíte particular da escolhida. Cada menina tinha uma, decorada às próprias expensas e à sua maneira. Basicamente dispunham de cama de casal, colchão, guarda roupa, cômoda, espelho além de um pequeno sofá e lavabo. 

Começamos a nos preparar para os jogos do amor. Embora entendesse o recado da amiga, não tive coragem de tomar iniciativa. 

Não me recordo do nome, apenas do apelido, "Cu de Sapo" dado pelas colegas. 


Eis que, de repente, colocando seu rosto bem juntinho ao meu, ela sussurra

"Cadê o homem que disse que ia me bater?" 

Recado dado, recado entendido. Passei a mão espalmada carinhosamente no rostinho delicado da Cu de Sapo e soltei uma tímida palmada na face. 

A princípio ela abaixou a cabeça e escondeu o rosto com as mãos. Depois levantou os olhos desafiadores e repetiu: 
"Cadê o homem que disse que ia me bater?" 

Fiquei sem graça. Então, acariciei o rostinho fino, levemente avermelhado e soltei a bofetada. Estalada. Ela ficou com as marcas de meus dedos na bochecha. Cu de Sapo começou a chorar. Eu também. Dentro em pouco, recomposta, ela espalma a delicada mãozinha em minha face, começa a alizar e pergunta: 

"Quem é homem pra bater em mulher, também é homem pra apanhar de mulher. Posso?" 

Mal acenei com a cabeça, ela soltou uma tremenda bofetada. O estalo se ouviu lá no salão. Ao impacto, minha visão ficou coberta de estrelas brilhantes, e eu passei a ouvir trinados de passarinhos, literalmente. 

Ela não esperou que eu me recuperasse. Soltou a outra mão num impacto ainda mais forte contra a outra face. Fiquei tonto. Vi mais estrelas brilhantes e ouvi mais passarinhos cantantes. 


A voz da Cu de Sapo soou distante: 

"Tá vendo como é que eu quero, meu amor. Cadê o homem que disse que ia bater em mim?" 

Ainda sob efeito da bofetada anterior, as duas faces ardendo, vermelhas, soltei com vontade uma tremenda mãozada naquele rostinho de anjo, delicado e bochechudo. A garota caiu de lado, revirou os olhos , começou a tremer, chorar, gemer, alto. Entrou em convulsão, como se estivesse nos estertores da morte. Fiquei apavorado. Ela se contorcia, revirava os olhos em sucessivos e prolongados espasmos, um seguido de outro. Logo percebi que eram ondas de orgasmos, voluptuosos, como vagas de um mar revolto. 

Nos abraçamos. A essa altura eu também chorava copiosamente. Misturamos nossa lágrimas, nossos suores, nossos cuspes. Nossas bocas e línguas se interpenetraram, mutuamente. Ela arreganhou a vagina e eu a penetrei, profunda, completa e demoradamente. Gozamos juntos, fundidos e fudidos, um no outro, totalmente integrados. 
E, milagre! Chegamos aos céus. Ao verdadeiro paraíso terrestre, mistura de dor e prazer sem limites. 
Ao término, Cu de Sapo relaxou e dormiu. 

Eu não.

Minha mente em ebulição transportou-me para o passado. Entrei num estado de regressão mental e psicológica. Vi-me criança, aos oito anos de idade.

"Não, pai, não. Não, pai..."
A bofetada estalou no meu rosto atingindo o canto do olho e eu rolei pelo chão. Fiquei sem forças, fraco. Cuspi sangue. Custei a me levantar até ouvir as palavras ríspidas:
"Vá buscar o chicote para apanhar mais." 
Sai em prantos, trocando os passos, peguei o instrumento pendurado atrás da porta. Voltei chorando, trôpego até a presença de meu pai. Fiquei em pé na frente dele, o olho esquerdo já inchado e fechado. Estendi-lhe o chicote. E chorava, chorava entre soluços e suspiros. As lágrimas corriam, ensopavam a camisa. 
Finalmente meu pai se apiedou e mandou guardar o chicote. 

Quando tornei da viagem, naquele momento, eu chorava, chorava, tremia o corpo inteiro, não conseguia parar. 
Cu de Sapo se aninhou comigo, me acariciou: 

"Relaxa meu amor, relaxa". 

E dormimos profundamente até o dia amanhecer.

No outro dia fui embora e nunca mais tive notícias da Cu de Sapo.