ALBERTO BITTENCOURT - Palestrante, motivador, consultor, escritor, biógrafo pessoal

ALBERTO BITTENCOURT - Palestrante, motivador, consultor, escritor, biógrafo pessoal
ALBERTO BITTENCOURT - Palestrante, conferencista, motivador, consultor, escritor, biógrafo pessoal

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

A CONQUISTA DE MONTE CASTELO





A CONQUISTA DE MONTE CASTELO
Alberto Bittencourt

(Palestra realizada para oficiais e graduados 
da cadeia de comando da 7a. RM/7a DE)






Recebi o honroso convite do Exmo Sr. Gen Div Marcelo Flávio Oliveira Aguiar, comandante da 7ª. RM/7ª. DE, Região Matias de Albuquerque, para falar sobre Monte Castelo. P or feliz coincidência, estou, juntamente com o dr. Petrônio Gonçalves Muniz, presidente do Pátria, Instituto Brasileiro de Cidadania Ativa, do qual tenho a honra de ser diretor, escrevendo o livro “De Bello Annis” – Anos da Guerra – sobre a participação da FEB na Itália e sua orientação sábia e segura, me permitiu atender ao convite.
A guerra, como síntese de todas as ações humanas, é algo complexo. Não se pode falar em Monte Castelo sem se pensar na campanha que a precedeu.
Hitler, o “Fuher” alemão, desejava dominar o mundo e impor a ideologia nazista, que acreditava na supremacia da raça alemã. Em 1º. de setembro de 1939, invadiu a Polônia, dando início à II Guerra Mundial.
O Continente Americano declarou-se neutro e criou uma zona de segurança marítima continental para preservar os transportes de cabotagem entre seus países. Os alemães não concordaram com essa medida e, por isso, os Chanceleres americanos declararam, na cidade de Havana, em junho de 1940, que “todo atentado de um Estado não americano contra a integridade ou inviolabilidade do território e contra a soberania ou independência de qualquer Estado Americano será considerado como um ato de agressão contra os signatários daquela declaração”.
A conquista da França pelos nazistas consolidou seu domínio sobre a Europa e a aliança feita com os fascistas italianos, projetou seu poder sobre a África do Norte e criou condições para a invasão da América através do Saliente Nordestino Brasileiro, o que levou à sua militarização, com a instalação de diversas bases aeronavais naquela região.
O ataque japonês aos americanos em Pearl Harbour, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, e o afundamento de 31 navios de transporte brasileiros, ocasionando a perda de 971 vidas, levaram o Brasil a declarar guerra aos países do Eixo - Alemanha, Japão e Itália, em e22 de agosto de 1942.
O Brasil, na época da guerra, era um país de economia agrária, com cerca de 40 milhões de habitantes. Convocou cem mil homens para compor a Força Expedicionária Brasileira, dos quais, selecionou 25.334  homens para combaterem o inimigo no Teatro de Operações da Itália. Eles compunham a 1ª. Divisão de Infantaria Expedicionária, o contingente logístico e administrativo, incluindo aí o Depósito de Pessoal, destinado a repor as perdas em combate (mortos, feridos, doentes e aprisionados pelo inimigo).
O primeiro escalão da FEB partiu, por via marítima, do Rio de Janeiro, em 5 de julho de 1944, com 5.081homens, e desembarcou 11 dias após, em 16 de julho, no porto de  Nápoles, no sul da Itália. Três meses depois chega ao TO o restante da 1ª.Divisão de Infantaria Expedicionária, que, com seus 15 mil homens foi incorporada ao V Exército norte-americano, o qual compunha, junto ao VIII Exército Inglês a tropa aliada em combate aos nazistas na Itália. Por via aérea, antecipando-se ao transporte marítimo, chegaram ao Teatro de Operações os membros do Comando da FEB, acompanhados das nossas 64 enfermeiras, dos auditores e juízes, dos elementos do Banco do Brasil e dos correspondentes de Guerra.
O espaço de tempo de dois anos, entre a declaração de guerra em 22 de agosto de 1942  e a partida do 1º. Escalão da FEB, em 05 de julho de 1944, levou a imprensa a publicar a charge: “É mais fácil uma cobra fumar do que a FEB embarcar” que deu origem ao emblema e ao lema da FEB: “A cobra está fumando”.
Nossa Divisão Expedicionária iria combater ao lado de americanos, ingleses, indianos, franceses, poloneses, neo-zelandeses, e dos “partizans” italianos.
Pouco antes da chegada dos pracinhas brasileiros, ocorreram as maiores batalhas da Itália, na frente de Monte Casino, onde morreram 200 mil homens, entre aliados e alemães. A violência da batalha foi tão grande que o general Alexander, então Comandante Geral no TO, em correspondência para Churchill, disse que estava enfrentando os melhores soldados do mundo.
Após Monte Casino, a tropa alemã recuou e foi fixar-se nos Apeninos Italianos, onde a FEB os encontrou.
Nesse TO, o efetivo alemão era superior ao dos aliados que, por sua vez, levavam a vantagem de possuírem equipamentos superiores. O sistema alemão de defesa era um sistema montado em profundidade, com emprego de muitas metralhadoras, uma cobrindo a outra, sem deixar um ponto a descoberto. Por isso, os brasileiros sofreram os primeiros reveses em Monte Castelo.
O batismo de fogo da FEB foi na região de Camaiore, localizada na extremidade ocidental dos Apeninos, uma cadeia de montanhas muito altas, que separa a península italiana da região do Vale do Rio Pó, o grande e rico vale, ao norte da Itália, onde estavam situadas as grandes indústrias daquele país, alimentadoras do esforço de guerra nazista.
Os aliados planejaram romper a linha fortificada dos Apeninos, denominada de Linha Gótica, no início de novembro e conquistar Bolonha, no Vale do Pó, antes do inverno.
Nessa operação coube aos brasileiros a missão de conquistar a região de Monte Castelo, um morro com 977m de altitude, situado a 61,3 km sudoeste de Bolonha, de onde os alemães controlavam a rodovia nº 64, que, no Vale do Rio Reno, conduzia ao Vale do Pó e à região de Bolonha.
Durante os meses de novembro e dezembro, enfrentando a chuva, a lama, o frio e a neve, os pracinhas brasileiros atacaram por diversas vezes o infernal baluarte.
           Em novembro de 1944, o General Mascarenhas de Moraes, havia montado seu QG avançado na localidade de Porreta-Terme, cuja área era cercada por montanhas sob controle dos alemães. Esse perímetro tinha um raio aproximado de 15 quilômetros. As posições alemãs eram consideradas privilegiadas e submetiam os brasileiros a uma vigilância constante, dificultando qualquer movimentação. Estimativas davam que o inverno prometia ser rigoroso, além do frio intenso, as chuvas transformaram as estradas, já esburacas pelos bombardeiros aliados, em verdadeiros mares de lama.

A Operação

          A Tomada de Monte Castelo marcou a presença da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no conflito. A batalha arrastou-se por três meses, de 24 de novembro de 1944 a 21 de fevereiro de 1945, durante os quais se efetuaram cinco ataques, com grande número de baixas devido a vários fatores, entre os quais as temperaturas extremamente baixas. Quatro dos ataques não tiveram êxito, por falhas e estratégia.
          O General Mark Clark, comandante das Forças Aliadas na Itália, pretendia direcionar sua marcha com o 4º Corpo de Exército rumo a Bolonha, antes que as primeiras nevascas de 1944 começassem a cair. Entretanto, a posição de Monte Castelo se mostrava extremamente importante do ponto de vista estratégico, além de dominado pelos alemães dava pleno controle sobre a região.
         Caberia, então, aos brasileiros a responsabilidade de conquistar o setor mais combativo de toda a frente Apenina. Porém havia um problema: a 1ª DIE era uma tropa ainda sem experiência suficiente para encarar um combate daquela magnitude. Mas como o objetivo de Clark era conquistar Bolonha antes do Natal, o jeito seria o de aprender na prática, ou seja, em combate.
       No segundo dia de ataques tudo indicava que a operação seria exitosa: soldados americanos chegaram até a alcançar o cume de Monte Castelo, depois de conquistarem o vizinho Monte Belvedere.
Entretanto, em uma contra-ofensiva poderosa, os homens da 232ª Divisão de Infantaria germânica, responsável pela defesa de Castelo e do Monte Della Torracia, recuperaram as posições perdidas, obrigando os soldados brasileiros e americanos a abandonar as posições já conquistadas - com exceção do Monte Belvedere.
        Em 29 de novembro, planejou-se o 2º ataque ao monte. Nesta contra-ofensiva a formação de ataque seria quase em sua totalidade obra da 1ª DIE - com três batalhões - contando apenas com o suporte de três pelotões de tanques americanos. Todavia, um fato imprevisto ocorrido na véspera da investida comprometeria os planos: na noite do dia 28, os alemães haviam efetuado em contra-ataque contra o Monte Belvedere, tomando a posição dos americanos e deixando descoberto o flanco esquerdo do aliados.
          Inicialmente a DIE pensou em adiar o ataque, porém as tropas já haviam ocupado suas posições e deste modo a estratégia foi mantida. Às 7 horas uma nova tentativa foi efetuada.
As condições do tempo mostravam-se extremamente severas: chuva e céu encoberto impediam o apoio da força aérea e a lama praticamente inviabilizava a participação de tanques. O grupamento do General Zenóbio da Costa no início conseguiu um bom avanço, mas o contra-ataque alemão foi violento. Os soldados alemães barraram os avanços dos soldados. No fim da tarde, os dois batalhões brasileiros voltaram à estaca zero.
        Em 5 de dezembro, o general Mascarenhas recebe uma ordem do 4º Corpo: "Caberia à DIE capturar e manter o cume do Monte Della Torracia - Monte Belvedere." Ou seja, depois de duas tentativas frustradas, Monte Castelo ainda era o objetivo principal da próxima ofensiva brasileira, a qual havia sido adiada por uma semana.
         Mas em 12 de dezembro de 1944, a operação foi efetivada, data que seria lembrada pela FEB como uma das mais violentas enfrentadas pela tropas brasileiras no Teatro de Operações na Itália.
Com as mesmas condições meteorológicas da investida anterior, o 2º e o 3º batalhões do 1º Regimento de Infantaria fizeram, inicialmente, milagres. Houve inicialmente algumas posições conquistadas, mas o pesado fogo da artilharia alemã fazia suas baixas. Mais uma vez a tentativa de conquista se mostrou infrutífera e, o pior, causando 150 baixas, sendo que 20 soldados brasileiros haviam sido mortos. A lição serviu para reforçar a convicção de Mascarenhas de que Monte Castelo só seria tomada dos alemães se toda a divisão fosse empregada no ataque - e não apenas alguns batalhões, como vinha ordenando o 5º Exército.
Com o agravamento do inverno no final de 1944, o gen. Mark Clark que ascendera ao comando do XV Grupamento do Exército, em substituição ao gen. Alexander, determinou à tropa brasileira a suspensão da ofensiva. Na plenitude do inverno, as temperaturas chegavam a cair até a 20 graus negativos. O terreno, normalmente verde em outras épocas do ano, apresentava-se completamente branco, em função das precipitações de neve.
O soldado brasileiro, oriundo das terras quentes e amenas, foi se adaptando ao clima e ao terreno e aprendeu a conviver com a adversidade do frio intenso e da neve. Um dos aspectos a ressaltar nessa fase defensiva, foi o intenso emprego de patrulhas. Estas podiam ser de reconhecimento, (valor GC ou Pel) ou de combate, (valor Pel). Estas ações de pequenos efetivos tiveram um papel preponderante na segurança do dispositivo defensivo que dependia fundamentalmente do cumprimento das missões por natureza, perigosas e difíceis, exigindo dos combatentes, qualidades acentuadas de inteligência, coragem, astúcia e sangue frio. Embora com pequenos efetivos, essas patrulhas estavam sempre muito bem armadas, com fuzis, fuzis-metralhadoras, metralhadoras de mão, granadas e rádios portáteis, para ligação com a retaguarda. Do tenente ao mais moderno dos soldados, o nosso combatente encontrou nessa atividade uma maneira positiva de reabilitar o seu ânimo, bastante desgastado face aos reveses sofridos em Monte Castelo.
Infiltrando-se na retaguarda do inimigo, em audaciosas ações de surpresa, reconhecendo, executando emboscadas e golpes de mão com rara eficácia, o nosso combatente foi incrementando de modo intensivo o seu preparo técnico profissional.
Quando em fevereiro, a Divisão reiniciou as operações ofensivas, o nosso homem já não era mais aquele soldado tímido, vacilante e inexperiente das primeiras jornadas, mas sim, um verdadeiro combatente de escol, confiante na sua capacitação, prudente e experiente, capaz de sobrepujar conscientemente as mais complexas e perigosas situações que se lhes apresentassem no decurso do combate. 
Somente em 19 de Fevereiro de 1945, após a melhora do inverno o comando do 5º Exército determinou o início de uma nova afensiva para a conquista do monte. Tal ofensiva utilizaria as tropas aliadas, incluindo a 1ª DIE, ofensiva que levaria as tropas para o Vale do Pó, até a fronteira com a França.

O Ataque Final

         Novamente a ofensiva batizada de Encore, ou Bis, utilizaria a formação brasileira para a conquista do Monte e a consequente expulsão dos alemães. Desta vez a tática utilizada, seria a mesma idealizada por Mascarenha de Moraes em 19 de Novembro. Assim, em 20 de Fevereiro as tropas da Força Expedicionária Brasileira apresentaram-se em posição de combate, com seus três regimentos prontos para partir rumo a Castelo. À esquerda do grupamento verde-amarelo, avançaria a 10ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos, tropa de elite, que tinha como responsabilidade tomar o Monte della Torracia e garantir, dessa forma, a proteção do flanco mais vulnerável do setor.
       O ataque começou às 6 horas da manhã, o Batalhão Uzeda seguiu pela direita, o Batalhão Franklin na direção frontal ao Monte e o Batalhão Sizeno Sarmento aguardava, nas posições privilegiadas que alcançara durante a noite, o momento de juntar-se aos outros dois batalhões. Conforme descrito no plano Encore, os brasileiros deveriam chegar ao topo do Monte Castelo às 18 horas, no máximo - uma hora depois do Monte della Torracia ser conquistado pela 10ª Divisão de Montanha, evento programado para as 17 horas. O 4º Corpo estava certo de que o Castelo não seria tomado antes que Della Torracia também o fosse.
        Entretanto, às 17h30, do dia 21 de fevereiro de 1945, quando os primeiros soldados do Batalhão Franklin do 1º Regimento conquistaram o cume do Monte Castelo, os americanos ainda não haviam vencido a resistência alemã. Só o fariam noite adentro, quando os pracinhas há muito já haviam completado sua missão, e começavam a tomar posição nas trincheiras e casamatas recém-conquistadas. Grande parte do sucesso da ofensiva foi creditada à Artilharia Divisionária, comandada pelo General Cordeiro de Farias, que efetuou um fogo de barragem perfeito contra o cume do Monte Castelo, permitindo a movimentação
         A tomada do Monte Castelo, foi a mais significativa vitória da FEB, demonstrando o valor do soldado brasileiro, sua versatilidade, sua persistência, seu estoicismo e sua coragem. Foi a vitória da superação e da raça.
A campanha prosseguiu. A conquista do baluarte de Castelnuovo, em 5 de março, consolidou a posse do Vale do Rio Reno e garantiu o livre trânsito na Rodovia nº 64.
No mês de abril, os aliados atacaram em toda a frente dos Apeninos, para chegarem ao Vale do Rio Pó. Foi a Ofensiva da Primavera. Aos brasileiros coube conquistar a região de Montese, objetivo situado na porção da frente de combate mais à esquerda de todo o dispositivo aliado. Foi a nossa vitória mais sangrenta, efetivada em 14 de abril.
O acesso à Planície do Pó permitiu que o êxito da Linha Gótica fosse aproveitado, levando à perseguição, à captura e à total desorganização do dispositivo alemão na Itália.
A FEB participou dessa operação e, em 28 de abri, capturou a 148ª Divisão de Infantaria alemã, tropas blindadas de uma Divisão Panzer e remanescentes fascistas da Divisa Bersagliere. Foram aprisionados 14.779 homens e vultoso material de guerra.
No dia 1º de maio, os brasileiros ocuparam a cidade de Turim e, no dia seguinte, 2 de maio, a guerra terminou na Itália.
O tributo de sangue brasileiro em combate contabilizou 443 mortos e 1.577 feridos. Foi o preço da luta pela liberdade e pela democracia, no mundo e no Brasil. A guerra deixou 60 milhões de mortos. Foi criada a Organização das Nações Unidas, (ONU), na esperança de se viver num mundo melhor.

O legado da FEB

O nosso esforço de guerra permitiu que o Brasil começasse sua industrialização. A instalação e a operação de bases militares no Nordeste nos permitiu receber uma usina siderúrgica, que foi instalada em Volta Redonda.
A industrialização estimulou a urbanização, possibilitou a emergência da economia do petróleo, induziu a interiorização da nossa capital, com a criação de Brasília, o que estimulou, nas décadas seguinte, a marcha para o oeste.
O Exército brasileiro mostrou aos americanos, o quão danosa era a prática da segregação racial, com batalhões constituídos somente de elementos da raça negra. A mistura, a integração de todas as raças dentro das unidades brasileiras provou ser mais eficiente e eficaz pois mantinha elevado o moral da tropa e conseguia os melhores resultados no campo de batalha.
O soldado brasileiro, admirado e respeitado pela sua coragem e pela sua cordialidade, ganhou notoriedade e passou a ser requisitado para compor as Forças de Paz da ONU e OEA. Suez, São Domingos, Timor Leste, Haiti, com a Minustah, são exemplos da atuação do soldado brasileiro em defesa da paz. 

BIBLIOGRAFIA:

1. DE BELLO ANNIS - Petrônio Muniz e Alberto Bittencourt, ainda não editado.
2.  O NORDESTE NA II GUERRA MUNDIAL; Gen Ex R1, Paulo de Queiroz  Duarte. Ed. Record, 1971.
3.  O BRASIL E MONTE CASTELO – Fundação Armando Alvares Penteado.
4.  TRINTA ANOS DEPOIS DA VOLTA – Octavio Costa
5.  O Exército na História do Brasil (vol. III, República).  Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora,
6.  Marechal Mascarenhas de Morais, Memórias (Volume 1)- Bibliex, 1984
7.  Joel Silveira, O Inverno na Guerra - Objetiva,2005








CINQUENTA ANOS DE FORMATURA

CINQUENTA ANOS DE FORMATURA 
Alberto Bittencourt - dez 2013 



Tenho muito orgulho desta foto, tirada a 20 dezembro de 1963, por ocasião de minha formatura como Aspirante a Oficial da Arma de Engenharia, AMAN - Academia Militar das Agulhas Negras. Nela recebo um prêmio das mãos do então comandante, Gen. Bda. Emílio Garrastazu Médici. 

Agradeço  ao Gen Cupertino, colega de turma, a lembrança das palavras do Chefe Militar à "Turma Sesquicentenário da Academia Militar":

 "Árdua é a missão constitucional do Exército. A pesada responsabilidade inerente ás suas finalidades, confere-lhe relevante papel no complexo mecanismo da vida da Nação e dele exige, como tem ocorrido desde os primórdios de nossa formação histórica, que se mantenha íntegro e alerta, para impor o respeito á lei, á ordem e ás instituições, e para defender, intransigentemente, os postulados básicos de nossa soberania"  

(Trecho do discurso do Gen Bda Emilio Garrastazu Médici- Comandante da AMAN, em 20 dez 1963, quando da Declaração de Aspirantes da Turma Sesquicentenário da Academia Militar).

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

DISCIPLINA


DISCIPLINA


Alberto Bittencourt - junho de 2018
                     

         
                            


A disciplina militar prestante,
Não se aprende, senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando

                                                                      Camões                                      


Os versos de Camões, apostos na pérgola sul do Conjunto Principal 1 da   AMAN – Academia Militar das Agulhas Negras, são um chamamento e um lembrete do sagrado princípio da disciplina militar. Cunhada na Casa da Moeda, a placa de bronze foi inaugurada por ocasião da transferência da Escola Militar do Realengo para Resende, RJ. São as quatro últimas estrofes do Canto X dos Lusíadas, cujo teor original é o seguinte:


            De Phermião, philosopho elegante, 
            Vereis como Annibal escarnecia, 
             Quando das artes bellicas diante
             D’elle com larga voz tratava e lia. 
             A disciplina militar prestante
             Não se aprende senhor, na phantasia, 
             Sonhando, imaginando ou estudando;
             Senão vendo, tratando e pelejando.

               Luiz Vaz de Camões
               (Canto X, estrofe CLIII - Lusíadas)

A disciplina é base de toda organização militar. Compreende a disciplina externa e a disciplina interna. A primeira, significa o respeito aos superiores hierárquicos, obediência às leis, normas e regulamentos. A segunda, também chamada de auto disciplina, é a convicção de agir da forma correta. É o amor à Pátria, ao Exército, à Família.

Assim como a liderança, a disciplina só se aprende praticando.
Desde cedo, aprendi a dar valor aos conceitos de disciplina. Filho de família de militares, eu cursava a primeira série ginasial do CMRJ quando um ataque  do coração tirou a vida de meu pai. Tornei-me então aluno da categoria gratuito órfão. 

Costumo dizer que tudo o que sou devo ao Exército. Do Colégio Militar, fui para a AMAN, onde me formei em 1963, oficial da Arma de Engenharia, e depois cursei o IME – Instituto Militar de Engenharia, graduando-me em 1971, engenheiro militar, de Construções e Fortificações.

O PÁTIO TENENTE MOURA - PTM






O pátio de formaturas do Conjunto Principal da AMAN tinha o nome de Pátio Tenente Moura, comumente chamado pelos cadetes de PTM. Sendo quase desconhecido o Tenente Moura, resolveram mudar o nome do Pátio para Pátio Marechal Mascarenhas de Morais. A cadetada imediatamente o batizou como P3M, por analogia com PTM e sonoridade parecida. Posteriormente, o antigo nome foi restabelecido.  Nesse pátio, o PTM, diariamente o corpo de cadetes realiza sua formatura matinal, nas frias manhãs da  cidade de Resende.
Ao som da banda militar, os desfiles se realizam sob a frase, afixada no alto do Pavilhão Principal, de forma a ser bem visível pela tropa em marcha:

Cadetes, ides comandar, aprendei a obedecer.

A frase sintetiza todo uma filosofia de ensino e aprendizagem. Associa-se à outra frase, que está sempre aposta nas reuniões de Treinamento de Governadores eleitos do Rotary.

Entre para aprender, saia para servir.

Assim como obedecer está para comandar,
aprender está para servir.
quem obedece, está servindo;
quem serve está aprendendo.
Tudo implica em disciplina.

COLÉGIOS MILITARES

Quando eu era menino, as mães de meus colegas de rua, olhavam-me naquele incômodo uniforme de brim caqui e vermelho, túnica abotoada até o pescoço e quepe, com uma ponta de inveja. Elas diziam que estudar no Colégio Militar era um raro privilégio pelas seguintes razões:

  • qualidade de ensino
  • prestação de serviço militar – reservista de 2ª categoria
  • disciplina
Sendo que esta última era, sem dúvida, a mais importante.

A disciplina do corpo docente sempre foi uma característica dos Colégios Militares.
Mais tarde verificou-se o valor da disciplina, pelos resultados das provas do ENEM em que os Colégios Militares do Brasil figuram sempre nos primeiros lugares, de Norte a Sul. 

Se hoje eu posso dizer que sei escrever graças ao que aprendi no Colégio Militar do Rio de Janeiro.
Desde a quinta série do curso ginasial, até a terceira série científica, hoje Ensino 
Fundamental 2 e Ensino Médio, havia a tarefa semanal de fazer uma redação. Nas aulas, nas provas de português, em casa. Todas as redações eram corrigidas em detalhe por professores bem motivados, que assinalavam erros, gramaticais, ortográficos, de concordância e outros. No final davam o grau, variando de zero a dez.

Como não aprender a escrever? Quando vejo hoje faculdades de direito ou de jornalismo em que os alunos nunca ou raramente escrevem, e dali saem semi-analfabetos, ou quase analfabetos funcionais em termos de linguagem, dou valor ao ensino que recebi do Exercito por professores militares da melhor competência.

Mas não foi apenas em português – Nas ciências exatas também o ensino era levado muito a sério. Ciências Naturais, Física, Química, Matemática, Descritiva, era preciso realmente estudar, praticar, fazer exercícios e tarefas. Que diferença para o que se vê hoje em dia, principalmente no ensino público, em que professores inescrupulosos entram em greve, por dois ou três meses, insuflados por sindicalistas interesseiros, na busca de novas conquistas trabalhistas ou melhores salários.

Por isso, a minha geração os militares tanto prezam a disciplina.


AMAN - ACADEMIA MILITAR DAS AGULHAS NEGRAS

Ao chegar à AMAN, os novos cadetes, vindos de todos os recantos do Brasil, de origens bem diversas, posto que alguns vieram dos diversos Colégios Militares, outros das Escolas Preparatórias e havia ainda os oriundos do meio civil, dos vários estados do Brasil.  Para homogeneizar o grupo, a primeira semana era dedicada à ordem unida. Seis horas por dia, sendo as duas outras reservadas para educação física. O efetivo, em torno de 300 ou mais alunos por turma, era dividido em pelotões, cada um sob o comando de um tenente. Assim ficávamos horas e horas marchando no pátio de cimento, sob um sol às vezes escaldante, no início sem banda, a tropa evoluindo ao comando da voz do tenente. 

Naquele momento, as individualidades eram sufocadas pelo coletivo. Quarenta jovens perfeitamente sincronizados, em que o movimento de cada um era o movimento do todo, em que cada aluno deixava de ser um e passava a ser uno. E cada um queria que o seu pelotão fosse o melhor. Ninguém podia errar, para não comprometer o conjunto. E a tropa evoluía quase que sozinha, reagindo aos comandos da voz com precisão e automatismo.

Assim, quando o todo passa a vigorar sobre a individualidade, quando o conjunto, o coletivo passa a ser mais importante que a unidade, o objetivo é alcançado. Mesmo sincronizados os movimentos ao final de horas e horas de treinamento intenso, não se podia relaxar. Havia que se manter a sinergia. 

Atingindo o que se chama, na tropa de Espírito de Corpo, não se podia, em momento algum esmorecer, pois o Espírito de Corpo, assim como a disciplina militar prestante têm que ser praticadas diariamente, em todos os instantes, a todo momento, sob pena de se diluir no tempo e no espaço. 

Pode parecer difícil, para quem de fora observa, mas para o soldado ou o cadete, que vivencia, que está dentro do contexto, torna-se fácil. Ele se adapta perfeitamente à esse novo modo de vida e passa a se alimentar dele e a alimentá-lo, para ter sucesso e viver.

O Espírito de Corpo no Exército, tem que ser levado até as últimas  conseqüências. Ninguém pode titubear ou ser fraco ante o inimigo, no inferno da guerra. Se o treinamento tiver sido falho, se o Espírito de Corpo não prevalecer, o foco pode ser desviado para outros objetivos, por outros agentes, para causas não tão nobres.

Para tanto, há que se treinar, preparar, ensinar, aprender. Um jovem de 20 e poucos anos, colocado com poder na mão, em território hostil, se não estiver muito bem preparado, pode perder o foco dos objetivos mais nobres da missão que recebeu e se deixar levar pelas paixões que se entrelaçam.

Para preservar a autoridade do uniforme que veste, da missão que recebeu ele não pode perder de vista os objetivos maiores do serviço que presta.
Isso explica os excessos e desvios que por vezes são praticados por militares durante as guerras. Eles deixaram de se considerar unos com o todo, com o coletivo e foram aliciados pelas paixões exacerbadas.

O que fazer? Todo excesso deve ser punido exemplarmente . Não  pode comprometer o sucesso da missão, mas deve evitar que fatos indesejados aconteçam. Deve-se inclusive verificar se os mesmos foram devidamente instruídos a respeito da nobreza da missão que lhes cabe desempenhar. Qual o papel de cada um, qual a razão da tarefa a se desincumbir, os tipos de procedimentos em cada caso, as consequências passíveis de ocorrerem. 

O que fazer em casos de desarticulação, individual ou coletiva? O emprego das armas deve ser muito bem estudado, porque, em se tratando de vidas humanas, nenhuma missão é menor ou secundária.  Quando o meio em que se vai atuar é diferente do meio em que se está habituado, há que se manter a qualquer custo a ordem, disciplina, o respeito à autoridade. 

Quando as pessoas se consideram vítimas do estado, algoses da sociedade, submissas ao poder paralelo dos traficantes, ante a omissão e o descaso dos poderes constituídos, tudo pode acontecer.




CASTRO ALVES.


"Não cora o livro de ombrear co'o sabre

E nem cora o sabre de chamá-lo irmão."

Castro Alves

 

Esta frase, está escrita na pérgola da AMAN- Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, Estado do Rio.

Nela, Castro Alves reporta-se à compatibilidade entre as ações militares / esportivas e as intelectuais.

Comprovei a veracidade de tal assertiva durante o meu curso de formação de Oficial do Exército.

Na AMAN os mais brilhantes alunos na parte intelectual são também os mais destacados atletas na parte esportiva.

Uma comprovação da máxima aposta no muro do campo de futebol do CMRJ – Colégio Militar do Rio de Janeiro:

MENS SANA IN CORPORE SANO




quinta-feira, 13 de agosto de 2020

COLÓQUIOS DE ANÔNIMA INTIMIDADE

COLÓQUIOS DE ANÔNIMA INTIMIDADE. 

Alberto Bittencourt - 14 ago 2020


Desculpe-me discordar, querida. Os petistas sofreram lavagem cerebral. Não enxergam nem as mais claras e elementares evidências. Lula é um desclassificado, um bandido que deveria estar preso, que responde a mais sete inquéritos, tendo sido condenado em três. Ele causou tremendos males ao país. Foi pior que muitos ataques terroristas. 

Foram treze anos de desgovernos do PT, Treze anos de  atraso, de vergonha, de dinheiro guardado em apartamentos, carregado em malas. Dinheiro desviado da saúde, do saneamento, da segurança, da Petrobrás, da Eletrobrás, do BNDES, dos fundos de pensão, uma verdadeira farra. 

Cerca de um trilhão de reais foram desviados dos cofres públicos. Parece que todo mundo já esqueceu. Quase acabaram com o Brasil. Ninguém mais fala nada? Querem que volte a roubalheira? Esqueceram dos roubos milionários da Assembleia Legislativa do Rio e concentram as baterias no Flávio Bolsonaro. Esqueceram as falcatruas da mulher do Sérgio Cabral e outras.  

A questão é que a imprensa só fala no Queirós. E os outros mais de vinte deputados estaduais do RJ que praticaram rachadinhas de valores muito superiores na mesma época, sendo o presidente da ALERJ o campeão de todos? Ninguém fala neles. O único investigado e preso é o Queiroz. Justiça e política podre a nossa. 

Na educação então foi um caos. Quiseram implantar a tal da ideologia de gênero, a iniciação sexual precoce, a doutrinação política, a rebeldia contra pais e mestres, a destruição do código moral das famílias, tudo segundo a doutrina de Antonio Gramsci. O tal do método Paulo Freire - A Pedagogia do Oprimido -  mostrou-se um engodo. A escola pública, na maior parte, formou analfabetos funcionais. Resultado: a juventude pobre está aí, sem trabalho, sem oportunidades. Até hoje a máquina governamental, as secretarias de educação e universidades federais estão impregnadas dessa ideologia marxista cultural..

Felizmente o povo escolheu Bolsonaro, pela via democrática e incontestável do voto. Bolsonaro deu um basta em tudo isso.  Sinto muito, querida, mas um dia você vai enxergar a realidade do que fizeram de mal neste país. Paulo Francis, Nelson Mota, os fundadores do tabloide O Pasquim, foram morar nos Estados Unidos e entenderam que o socialismo é uma grande ilusão. Você já morou na Austrália. Conheceu uma nova realidade, do que é a verdadeira democracia, em um país do primeiro mundo. Um dia o Brasil vai chegar lá. 

 O passado já passou. Agora o que importa é desconstruir presidente Jair Bolsonaro, que procura acertar, que barrou a corrupção, que governa para o bem do povo, que inaugura obras, que executa uma política externa pragmática, que pretende desburocratizar, diminuir o tamanho do estado. Querem continuar transferindo rios de dinheiro para ditaduras insignificantes, só porque são socialistas? O que eu exalto não são as pessoas, são os valores e princípios defendidos pelo atual governo. A imprensa e os esquerdistas estão desesperados e ficam inventando factoides. 

 Se Michele Bolsonaro errou, ela vai responder por isso. Mas, se tal fato realmente ocorreu, foi numa época em que os políticos transformavam habitualmente verbas públicas em privadas sem a menor cerimônia. Bolsonaro foi um dos poucos que passaram incólumes. Aqui em Pernambuco temos exemplos de políticos respeitáveis, como Marco Antônio Maciel, Roberto Magalhães e outros que nunca se locupletaram do dinheiro público. Enquanto os políticos transformaram dinheiro público em privado, nós, militares e rotarianos, por formação e por fé, transformamos dinheiro privado em público.

Sabe a origem da palavra "candidato"? Pois é, vem de "cândido". Na Grécia antiga, todos os que postulavam e ocupavam cargos públicos tinham que usar uma capa branca, pura, imaculada, em sinal de honestidade no trato da coisa pública. Essa capa branca, imaculada, era chamada de cândida, que, na época significava pureza. Daí surgiu o nome candidato para quem a usava. Com o passar do tempo, essa capa, cândida, foi se toldando de impurezas e chegou a ficar preta de tão maculada. Aí mudaram o nome para "toga", hoje usada nos tribunais. É tão cheia de máculas que, só mesmo sendo preta para não mostrar as improbidades que vão n’alma dos que lhe fazem uso.

sábado, 8 de agosto de 2020

NOSSA CRIANÇA INTERIOR

NOSSA CRIANÇA INTERIOR 
Alberto Bittencourt - abril 2014. Fl 31v/14 








Thich Nhat Hanh, venerável mestre budista, de nacionalidade vietnamita, mentor espiritual de uma comunidade nos arredores de Paris, num local chamado Plum Village, nos exorta a cuidar de nossa criança interior no livro "Prendre soin de son enfant interieur" -Ed. Belfort. 

Ele parte do princípio de que nós carregamos condicionamentos, lembranças, ferimentos, de nossa infância e que estes nos acompanham em nossa vida adulta. Ele nos convida, primeiro a tomar consciência, e depois a empregar técnicas psicossomáticas para curar os efeitos perversos dessa herança. 

O primeiro estágio é mais simples. Basta um pouco de introspecção. Citou um exemplo: 
Um senhor contou-me recentemente que teve problemas com meninos mais velhos quando tinha a idade de nove anos. Ele possuía um pai dominador que o espancava por qualquer motivo, não conversava, não demonstrava afeto e uma mãe submissa e passiva, cuja autoridade exercia contando as peripécias dos filhos ao marido, quando este chegava do trabalho. A pessoa carregava um complexo de inferioridade, de culpa, um sentimento de erro, do qual jamais falou com alguém. O complexo o seguiu durante toda a sua vida, como uma sombra.

Felizmente existem exemplos mais agradáveis. Procurando em seu interior, cada um pode encontrar essa criança que teve que lutar para encontrar seu lugar na vida, descobrir suas verdades pessoais, superar as restrições da educação e do meio, as alegrias e ofensas da vida familiar e escolar. Com certeza nós encerramos muitas personagens: a criança atirada ou isolada, a tímida ou batalhadora, a introvertida ou extrovertida, a racional ou a sonhadora, sem esquecer a presença do pai, da mãe e dos irmãos. Todos se superpõem para tecer o tecido do qual somos feitos. 

Num segundo estágio, Thich Nhat Hanh insiste na possível cura da criança sofredora que vive em nós e que nos causa desconforto, medos, traumatismos que jamais foram curados. 

Essa nossa criança interior pede por vezes por nossa ajuda, mas nós não a escutamos o bastante, diz o mestre vietnamita. 

Ele continua: 
Desde o momento em que tomamos consciência desta criança ferida, é importante que paremos de ignora-la. Daí em diante, nossa compaixão por ela pode crescer e é então, quando nós começamos a gerar a energia da consciência pura. 

Para gerar essa energia temos as práticas de meditação andando ou sentado, e a da respiração plenamente consciente. Estas são fundamentais. Graças a elas, nós chegamos à sabedoria consciente, presente em cada célula do nosso corpo. Essa energia vai nos acolher e nos curar e, assim fazendo, vamos curar nossa criança interior ferida. Está é seguramente uma boa maneira de nos liberar e de fazer crescer o nosso Ser interior, a verdadeira essência da vida.






quinta-feira, 6 de agosto de 2020

PROJETO DE MICROCRÉDITO DO ROTARY

PROJETO DE MICROCRÉDITO DO ROTARY. 
 Alberto Bittencourt - Fl 55v/20 

 REUNIÃO NA CEAPE-PE 

 Às 15h30 do dia de hoje, 21 de agosto de 2014, na sede da CEAPE-PE - Centro de Apoio ao Pequeno Empresário de Pernambuco, situada à rua Visconde de Suassuna, reunimo-nos Rotarianos dirigentes do Rotary E-Club D. 4500, com os diretores da empresa de micro crédito, que é uma OSCIP - Organização da Sociedade Civil de Interesse Público.

 Fomos recebidos com toda a atenção e fidalguia, pelo presidente José Ventura e demais diretores. Ventura, que foi gerente do Banco do. Brasil, falou que a CEAPE tem um capital de 9 milhões de reais, emprestados a pequenos comerciantes,  ambulantes, micro empreendedores individuais, todos pessoas físicas, Cobra uma taxa de juros mensais de 2 a 3% ao mês, isento de outras tarifas. Como o CEAPE não é banco, depende de um agente financeiro para gerir o capital, emprestar e cobrar . Possui um complexo centro de informática, com servidores potentes, um nobreak que mais parece um armário, de tão grande que é. 

 O CEAPE possui um quadro de 22 funcionários , espalhados em centros por todo o estado de Pernambuco. O presidente de CEAPE-PE é o Sr. Josias Albuquerque, que é também presidente da FECOMERCIO. Tomaram parte na reunião, além do Sr. José Ventura, vice presidente, o representante da Fecomercio, em substituição ao Sr. Josias Albuquerque, impedido de comparecer, por se encontrar no Rio; a Sra. Vânia, diretora financeira, o diretor de Informática, alem de outro diretor. Inicialmente o Sr. José Ventura fez uma apresentação em filme e um Power Point sobre a empresa, que ocupa uma bela casa na rua Visconde de Suassuna, sede própria. 

 A seguir, passamos a discutir o projeto de microcrédito do Rotary, com a presença do jovem bolsista da Fundação Rotária, Gabriel Gardiner, de nacionalidade americana, que trouxe o projeto para o Brasil, sem que precisássemos aportar um centavo. Voltaremos a abordar esse assunto.

ESTIGMA DE ESTIMAÇÃO

ESTIGMA DE ESTIMAÇÃO 

Alberto Bittencour 21 ago 2014 - fl 55/20 

 O tempo vai passando muito rápido, cada vez mais rápido e a vida continua numa boa. Nem tudo são flores, entretanto. Seria ótimo se a vida continuasse Sempre numa boa, mas a gente tem que se virar. 

 Eu tenho um estigma em minha vida. É o meu conceito do final de curso da AMAN - Academia Militar das Agulhas Negras - . Aparentemente trouxe uma incoerência. O conceito geral EXCEPCIONAL, com uma restrição escrita em vermelho:

 ” A sua capacidade de organizar, planejar, é pequena”. 

 Não me aborreci com essa restrição, por reconhecer que realmente possuo essa deficiência. Nunca uma avaliação a meu respeito foi tão precisa e correta. Tenho dificuldades para planejar e organizar ações. Avaliado aos 21 anos de idade, hoje, aos 71, cinquenta anos depois, sinto que ainda patino na mesma dificuldade. Aos 71 anos, não consigo planejar nem organizar a minha própria vida. Aposentado, sem obrigatoriedade de horário, dono de meu próprio tempo, não consigo administra-lo. Isso de dizerem que aposentado tem tem tempo de sobra, para mim não funciona. Eu, aposentado, não tenho tempo para nada. Ando sempre a reboque, puxado ou empurrado pelos fatos, acontecimentos, pessoas. Não consigo tomar iniciativas.

 O tempo passa, a vida passa, e tudo continua numa boa. Entrei no Rotary em 1987. Há 27 anos, portanto. Galguei altos postos, funções de responsabilidade. Tenho providências urgentes a tomar, preparar eventos que não podem esperar. Mas o tempo passa e cadê as providências? Há muito o que fazer, mas reuniões e mais reuniões às quais não posso deixar de comparecer, muito me atrapalham. Somente no dia de hoje, foram em número de três. Terá sido um dia perdido, ou um dia ganho? Não sei responder. 


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O TEMPO VAI PASSANDO

O TEMPO VAI PASSANDO. - 

Alberto Bittencourt. - 31 de Março de 2014  fl 26/14


Incrível como o tempo vai passando sem que a gente se dê conta. Amanhã já é dia 1° de abril de 2014. Cinquenta anos são passados daqueles dias intensos em que vivi a Revolução de 31 de março de 1964.

Aos vinte e um anos de idade, completados em novembro, recém formado Aspirante a Oficial do Exército, eu me apresentara em fevereiro  no BESE - Batalhão Escola de Engenharia - unidade modelo, integrante do GUEs - Grupamento de Unidades Escolas. Tratava-se o G UES, de um conjunto de tropas, cuja finalidade era dar apoio aos capitães alunos da EsAO - Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. Essas unidades escola realizavam demonstrações práticas no terreno, como complemento às aulas teóricas nos bancos escolares.

Os alunos do Curso de Engenharia da EsAO recebiam instrução teórica, nos bancos escolares, sobre as diversas matérias. Por exemplo, a construção de pontes de equipagem. Aprendiam a calcular o material, a dimensionar o número de caminhões de transporte, as equipes para as manobras de montagem e, em seguida, iam assistir na prática a teoria que haviam estudado. Essas manobras eram um eterno sacrifício para nós, soldados de engenharia - os pontoneiros. 

O trabalho era árduo e demandava tempo. Com quinze dias de antecedência já começávamos a carregar as viaturas com a ponte B4A1. E que viaturas! Eram caminhões Dodge, antigos, sem direção hidráulica, sem ar condicionado, sem sincronização nas marchas, o que exigia do motorista, dupla debreagem. Os motores quase estrebuchavam na subida da serra das Araras, a 10 km/h, na via Dutra, rodovia Rio-São Paulo. Na cabine, o calor era insuportável. Devia chegar a 60° C. Enquanto os caminhões se arrastavam, o barulho que saia do motor, para quem sentava na boleia, era ensurdecedor, chegava às raias do infernal. Coisa para macho, mesmo. 

Cada viatura transportava um pontão B4A1, com remos e material salva-vidas. 

Viajávamos em comboio, a uma velocidade máxima de 45 km/h. Chegados ao local do lançamento da ponte, às margens do rio Guandu, desce todo o material, para organizar o canteiro de trabalho. Tudo era muito bem planejado. O material ficava arrumado, disposto de modo estratégico para a montagem da ponte. Primeiro os pontões de ferro eram lançados manualmente na água, sob a voz de comando dos chefes das equipes de seis pontoneiros cada: 

AO BRAÇO...FIRME!

Depois entravam as turmas das vigotas, das talas de junção, dos parafusos.  

Enquanto isso a turma das amarras ficava à margem, enrolando e desenrolando amarras e era alvo de gozação pelos demais. Até o sol raiar. 

sábado, 1 de agosto de 2020

NOVENTA ANOS DE IRACEMA SEIGNEUR LEZAN


NOVENTA ANOS DE IRACEMA SEIGNEUR LEZAN
 Alberto Bittencourt - abril de 2002.


IRACEMA, aos 92 anos, em Teresópolis



21 de abril de 2002, sexta-feira da Paixão, Teresópolis. A família reunida para comemorar os noventa anos de minha querida sogrinha, mãe da Helena, IRACEMA SEIGNEUR LEZAN.

Eu e Helena, Bruno e Millena viemos do Recife. Cris e João Victor de Salvador. Amanhã, sábado, haverá uma festa no sítio, hoje, pertencente à Eliane e Anníbal, que adquiririam a parte dos irmãos na herança. Todos os parentes, sobrinhos, primos, estarão presentes. Será um momento de reminiscências, tempo de homenagear, de agradecer à Deus por ter-nos dado a dádiva de usufruir de sua presença, de termos sua energia, de tê-la aqui conosco, alegre e saudável, a transmitir amor e felicidade. Noventa anos, uma longa estrada foi percorrida, uma estrada pavimentada de amor.
           
Tudo começou aqui mesmo em Teresópolis, anos quarenta. A família Seigneur costumava passar temporadas no Hotel Malibu. Num domingo a jovem professorinha passeava de bicicleta pela praça, quando aconteceu uma queda, não estou bem certo. O jovem engenheiro, chegado da França veio em socorro. Foi o destino que se cumpriu. A união das duas almas gêmeas que se encontraram. O futuro de alegrias e felicidades estava traçado. Vieram os filhos. As tarefas da mãe e da professora se conciliaram, se complementaram. Com energia, sem perder a ternura e o carinho, Iracema, como ninguém sabia conduzir a classe e a família. "Basta arregalar bem os olhos que os alunos ficam quietos", dizia às filhas professorandas. E assim foi.                                                             
Nos anos sessenta nós, agregados, chegamos. Eu e o Nilson. Anos Dourados. Os rapazes no Colégio Militar, as moças no Instituto de Educação. Antônio Cláudio no Colégio Militar já dava um bocado de alteração. Antônio, sob o regime militar é o mesmo que querer domesticar um lobo selvagem. Não dá, é simplesmente impossível. Terminou, como não poderia deixar de ser,  expulso a bem da disciplina, depois de mandar o General Comandante. praquele lugar.   Jean e Iracema procuravam levar tudo sempre na base do diálogo, do convencimento, da razão.

No terraço da casa da Marechal nós namoramos. Eu, Helena, Nilson e Denise. Às dez horas começavam a fechar as janelas, a luz piscava. Claro, não podia namorar no escuro, nem depois das dez.

Os almoços dos domingos eram memoráveis. Inesquecíveis os quitutes da Adélia. Discussões acaloradas, temas geralmente políticos. O pivô das polêmicas era sempre a Eliane. Temperamento contestador, já despontava nela o espírito de liderança. Participava ativamente dos movimentos reivindicatórios de sua classe das professoras. "Contra o salário de fome", dizia um de seus manifestos. Sabiamente, o dr. Lezan ponderava que uma classe numerosa como a dos professores jamais teria um bom salário. Eliane incorporou o ensinamento e se tornou universitária.

Naquele tempo a família costumava passar as férias no saco de São Francisco. Lembro-me bem. Uma kombi recém-lançada substituíra o velho Ford dos anos quarenta. A partida para São Francisco era uma verdadeira epopéia. A Kombi entupida até o teto de gêneros, objetos, roupas, utensílios, só sobrava o lugar do motorista. A família ia na barca da Cantareira, enquanto ou Jean ou Iracema conduziam o veículo na barcaça de automóveis. Três horas na fila era o mínimo que esperavam para conseguir atravessar a baía de Guanabara. Bons tempos aqueles dos verões no saco de São Francisco. A bossa-nova despontava. A turma se reunia em torno de um violão, ao luar, a entoar as canções de sucesso internacional: "Desafinado", "A Barca", "Vento"... Em casa, a família se deslumbrava em torno de um Jean Lezan narrador de histórias do Velho Testamento. Incrível como ele conhecia em profundidade os assuntos da Bíblia. Iracema, profundamente religiosa se maravilhava, sentia um amor ainda maior, se é que isso fosse possível. Foi lá no saco que surgiram os grandes romances. Nilson/Denise, Paulinho/Maira. Ali consolidou-se o meu amor por Helena. Antonio Cláudio saiu incólume para sorte de Cristina, apesar do assédio constante, explícito, das menininhas da região. Todas queriam namora-lo, com incentivo das respectivas mães. Acho que Antonio Cláudio soube tirar bom proveito.
Vieram os casamentos, os netos. São Francisco ficou para trás. Foi substituído pelo sítio de Teresópolis.

Nesses tempos do Movimento Estudantil, do AI-5, a Universitária Eliane tornou-se a representante na família da esquerda revolucionária armada, cujo mentor era um certo frei, colega de classe, irmão jesuíta, chamado Tony. Uma vez, eu, tenente do Exército Brasileiro, fui trancado pela Eliane no banheiro da Marechal, e ela só abriu depois que eu gritei três vezes: "ABAIXO A DITADURA!"  E vizinho morava um capitão da linha dura, que ela queria que me ouvisse gritar.

Eliane carregava no fusquinha da família, panfletos subversivos correndo um sério risco. O dr. Lezan chamou para uma conversa:
 "Minha filha, eu sou estrangeiro, o carro está em meu nome, se a pegam com esses panfletos, além de você ser presa, eu posso ser deportado do Brasil".
Parece que prevaleceu a razão.

Eu fui morar em Resende e Nilson em Petrópolis. Depois fomos para o Recife, em janeiro de 1972. Orgulho-me de dizer, que, graças a Deus, nesses 31 anos de Nordeste nunca deixamos de vir ao Rio, pelo menos duas vezes por ano. Vieram os netos, os bisnetos. Todos impregnados desse amor transbordante, irradiante que emana do coração de Iracema. Todos levamos a sua marca, a marca da solidariedade, do amor ao próximo, da profunda devoção e amor a Deus, do trabalho na igreja, em prol dos menos favorecidos. Todos recebemos a força da sua fé, da sua religiosidade. Creio que aí está o segredo da sua juventude. É o trabalho voluntário, a prestação de serviço, a mão estendida, sempre disposta a ajudar, a amparar, não importa a quem. É a solidariedade, a compaixão, a amizade, a devoção à Deus, à igreja, a família. Está provado cientificamente, isso rejuvenesce. Aí está o segredo de sua juventude aos 90 anos, com a energia e o vigor de uma fortaleza, a lucidez de um sábio conselheiro, o raciocínio claro, límpido, a memória intacta.

Descobri o segredo da felicidade olhando para Iracema, observando suas atitudes, seu estado perene de alegria. Lembro-me da história, que li num livro sobre a felicidade, intitulado: "Le Bonheur, Désespérément" de André Conte Sponville.
Dizia ele que um discípulo perguntou a Buda:
"Mestre, como é possível que esses milhares de fiéis, que nada possuem a não ser a roupa do corpo que mais parecem trapos, que mendigam o dia inteiro por um grão de arroz, como é possível que essas pessoas sejam felizes?
E Buda respondeu:
"Essas pessoas, que nada possuem a não ser restos de roupas, que mendigam o dia todo por um grão de arroz, essas pessoas não têm nenhuma esperança quanto ao futuro, tampouco vivem das reminiscências do passado, e por isso elas são felizes".
É o exemplo de vida, a lição que recebemos de você, Iracema. Você não se atém às lembranças idas e vividas, não vive presa às recordações felizes, não tem erros do passado para ficar se lamentando. Para você os erros do passado, se é que os houve, são oportunidades de aprendizado. Tampouco você vive de expectativas do futuro. Você vive para o momento presente, para o aqui e agora. Você desfruta de cada segundo da vida, com plenitude, com intensidade. Esse é o segredo da sua felicidade, é a lição de vida que você nos dá.

Reverenciamos neste momento a memória de todos os entes queridos que passaram por nossas vidas, deixaram tantas saudades e que certamente, também estarão aqui, unidos num só pensamento de saudação e agradecimento.

 

 

                               




ELYETTE, MINHA MÃE

ELYETTE, MINHA MÃE. 
 Alberto Bittencourt, abril de 2014 


Minha mãe, em outubro de 1991


HOJE, dia 31 de março de 2014, seria dia do aniversário de minha mãe, Elyette de Freitas Brandão BIttencourt . Nascida no ano de 1920, estaria completando 94 anos de Idade. 

Minha mãe parecia uma pessoa frágil, física e psicologicamente. No entanto, possuía uma fortaleza interior impressionante, e sempre conseguia o que queria. Utilizava com maestria as ferramentas de que dispunha: a aparente fragilidade e uma certa dose de chantagem afetiva. Nenhum filho a contrariava. Todos a amavam intensamente. Tínhamos extremos cuidados com ela. Éramos felizes. 

O que minha mãe mais procurava preservar era a união da família que ela sempre defendeu e pregou. Com o passar dos anos, depois que os filhos cresceram e casaram, ela ficou morando sozinha. Vendeu dois apartamentos e comprou outro, em Ipanema. 

Em 1998, aos 78 anos, sofreu uma queda na rua e fraturou a bacia. Ela já estava bem fragilizada. Um medicamento anti-inflamatório causou-lhe perfuração do estômago, acarretando uma infecção generalizada. Após passar 30 dias na UTI, em coma induzida, tomando antibióticos de última geração, ela, afinal, teve alta, mas nunca mais voltou a ser a mesma. No ano 2000, realizou o grande sonho: comemorar os oitenta anos com uma festa, reunindo toda a família. Foi na sede do Clube Militar da Lagoa. Depois foi ficando cada dia mais frágil. Ainda comemorou os noventa anos com outra festa, mas já não era a mesma. 

O Mal de Alzheimer, incipiente, começava a mostrar seus efeitos. Passou a morar com a Elaine e o Sérgio, onde sempre recebeu todo o conforto, carinho e amor da família. 

 Apesar da viuvez precoce, aos 34 anos de idade, pois meu pai Kelvin morrera em 1954, aos 41 anos, ela foi feliz. Conseguiu realizar todos os seus sonhos, formar e casar os filhos: Elaine como professora do Instituto de Educação, e eu e o Claudio como Oficiais do Exército. Na visão dela, estavam todos garantidos para o futuro. Tinha a mais plena razão. 

Saímos de casa cedo, para cursar a AMAN - Academia Militar das Agulhas Negras . Depois de formado, eu ainda morei em casa, na rua Clóvis Bevilaqua, por um ano e meio, antes de casar com a Helena. O apartamento 202 do edifício Querência, de quadro pavimentos, sobre pilotis, tinha um elevador e dois apartamentos por andar. Olívia, nossa colaboradora doméstica, ainda viva, morou todos esses anos conosco. Ela limpava a casa, fazia a comida, lavava e passava os uniformes pesados de brim caqui do CMRJ, Colegio Militar do Rio de Janeiro, e deixava o uniforme de normalista da Elaine um brinco, com as saias de azul marinho plissadas e as camisas brancas de mangas compridas impecáveis. 

Nunca vi minha mãe brigar com ninguém. Era sempre aquele jeitinho manso, delicado. Usava dessa habilidade, para conseguir as coisas. O dinheiro, embora contado, nunca chegou a constituir problema. Ela recebia a pensão de viúva de Général de Brigada de meu pai, à qual depois foi acrescida de um terço da pensão de meu avô Brandão, também General de Brigada. Graças ao Exército, ela pode nos dar uma vida digna e equilibrada até o fim. 

 Agradecemos a Deus ter permitido à Elaine e ao Sérgio cuidarem dela. Dado o carinho e o conforto que ela merecia. De alma pura e sem maldade, Elyette nunca foi enganada nem maltratada. Dedicou-se integralmente aos filhos e nunca cogitou de novo relacionamento. Ainda teve oportunidade de fazer algumas excursões turísticas pelo mundo. Conheceu a China, a Rússia nos tempos da guerra fria, foi à Disneyworld, sempre em grupos de excursão organizados por sua amiga Terezinha, agente de viagens. . 

Em 1973, aos cinquenta e três anos, fez uma cirurgia plástica que lhe mudou um pouco o formato do rosto, mas a rejuvenesceu, o quê a fazia feliz. Rejuvenesceu também, depois, quando precisou extrair todos os dentes. Estavam com abcessos nas raizes. Ela ficou outra pessoa. Muito melhor. O resto de sua vida era preenchido com rotina, à qual se adaptou perfeitamente.


REPRESENTANTE DO PRESIDENTE DO RI

Em 2012, recebi uma importante missão do Rotary International: a de representar o presidente mundial numa Conferência Distrital. Uma honraria muito desejada e esperada por todos os Rotarianos que um dia foram governadores de distrito. 

Infelizmente tive que declinar da missão. Minha mãe, que já vinha doente, faleceu na véspera do evento, no Rio de Janeiro. Segue abaixo a carta que enviei ao governador e companheiros do distrito onde iria representar o presidente. 

 CARTA AO GOVENADOR DO DISTRITO 4710

De: Alberto Bittencourt 

Quarta-feira, 25 de Abril de 2012 

Assunto: Representante do Presidente do RI.

 QUERIDOS AMIGOS

Estamos, Helena e eu, absolutamente constrangidos em informar que, infelizmente não poderemos exercer a honrosa missão de representar o presidente de RI, Kalyan Banerjee e esposa Binota na Conferência do Distrito 4710, dias 27 a 29 de abril de 2012, na cidade de Arapongas, PR. 

Minha mãe, Elyette, 92, encontra-se em estado terminal numa UTI hospitalar no Rio de Janeiro. O estado de saúde dela agravou-se após a internação há uma semana, motivada por infecção urinária e desidratação. O que parecia ser coisa simples, complicou-se. Após uma parada cardíaca, os rins e outros órgãos entraram em falência, os membros gangrenaram, sem que se pudesse tomar mais nenhuma medida. O desenlace é inevitável. 

Embora habitemos no Recife há 40 anos, as origens minha e da Helena estão no Rio de Janeiro, onde nos encontramos neste momento. Aqui, no Rio, residem nossas mães, irmãos e cunhados, além de uma filha e dois netinhos. Em 1954, com a morte de meu pai, aos 41 anos de idade, minha mãe ficou viúva com apenas 34 anos, e 3 filhos pequenos, dos quais eu era o mais velho, com 12 anos recém completados. Durante toda a vida ela dedicou-se à nossa criação e educação. Superou inúmeras dificuldades, inclusive financeiras. 

Minha mãe jamais pensou em casar-se novamente. Toda a sua vida se resumia nos três filhos. Sua história e seu exemplo sempre foram o nosso guia. Por sermos uma família incompleta, ela nos ensinou que o nosso maior patrimônio residia justamente na união da família. Ela nos deu a base moral e espiritual que balizou nosso comportamento desde a infância, passando pela adolescência, até hoje. Com sua bênção crescemos, casamos, lhe demos netos e bisnetos e podemos dizer que, com ela, desfrutamos de muito amor e felicidade. 

Sabemos, Helena e eu, da responsabilidade de bem corresponder à confiança que nos foi depositada pelo presidente Banerjee e Binota. Tendo sido governador do Distrito 4500 no ano do Centenário do Rotary, 2004-05, há muito esperava por este momento, para a qual me preparei com afinco e antecedência. Lamentamos muitíssimo o que aconteceu e pedimos a compreensão de todos os nossos amigos e companheiros. Resta-nos, apenas, rogar a Deus por minha mãe ELYETTE. 

Obrigado. 

 Alberto Bittencourt