VIOLÊNCIA URBANA NO BRASIL
Palestra de Alberto Bittencourt,
realizada no seminário interclubes sobre Paz,
coordenado pelo Rotary Club do Recife- Largo da Paz
em data de março de 2013.
Caro presidente Mário Antonino, do Rotary Club do Recife - Largo da Paz e demais companheiros rotarianos.
Prezados conferencistas professores Thales e Marco Aurélio, cujos alunos aqui estão presentes.
Queridos alunos de Relações Internacionais.
Espero que vocês saiam daqui um
pouco modificados em relação ao modo como entraram. A Paz é um assunto importante
inclusive é um dos objetivos, talvez o maior, do Rotary Internacional, entidade
à qual nós somos filiados, como Rotary Clubs.
O Brasil é um dos países que
apresenta um dos maiores índices de mortes violentas no mundo, causadas por
armas de fogo. Mata-se no Brasil cerca de 50 mil pessoas por ano, a maioria
jovens com idade entre 18 e 24 anos de idade. Mata-se, no Brasil, mais do que
na China que tem 1 bilhão e trezentos milhões de habitantes. Mata-se no Brasil,
mais do que na Índia, que tem 1 bilhão e duzentos milhões de habitantes.
Mata-se no Brasil mais do que nos Estados Unidos que é um país armado. Existem,
em poder da população americana duzentos milhões de armas, enquanto que, no
Brasil esse número é de vinte milhões, ou seja, 10% daquele total. Pois saibam, mata-se mais no Brasil que nos
Estados Unidos.
Em dez anos de guerra do
Vietnam, morreram 58 mil soldados americanos. Em dez anos de guerra no Iraque,
morreram 4 mil e quinhentos soldados americanos e 100 mil civis e militares
iraquianos. A cada década, no Brasil de hoje, morrem mais de 500 mil pessoas, a
maioria jovem, muito jovem.
Nos últimos 30 anos a violência
tem crescido no Brasil a uma taxa de 4,35% ao ano. Se isso significasse
desenvolvimento, nós seríamos um dos países mais desenvolvidos do globo.
Em 1980, segundo dados do Mapa da Violência 2013, coordenado pelo professor Julio Jacobo Waiselfisz, ocorreram em nosso país
13.910 mortes intencionais. Não estamos falando de mortes por acidentes, como trânsito por exemplo, mas de mortes com intenção de matar, que são os homicídios. Em 2010,
esse número aumentou para 49.932. A taxa anual de homicídios passou de 11,7 por
cem mil habitantes que já era uma taxa endêmica, para 26,7. A média nacional se
mantém nesse patamar, o que caracteriza o homicídio como epidemia. Nesses
últimos 30 anos o número total de mortes por armas de fogo no Brasil
atingiu a cifra de 1.091.125, o que equivale à explosão de uma bomba atômica sobre
o nosso país.
O Brasil que tem a sexta
economia do mundo, está entre os seis países mais violentos, junto com a
Colômbia, El Salvador, Honduras.
Somos um país sem conflitos
armados, sem guerras religiosas, sem guerrilhas, sem terrorismo. Somos um povo
alegre, amigável e hospitaleiro. Porém, mata-se mais gente aqui que nas regiões
mais conflagradas do mundo. Segundo levantamento da Convenção de Genebra, em 4
anos, de 2004 a 2008 ocorreram 64 conflitos e guerras no mundo, ocasionando
200.000 mortes. Pois nesse mesmo período, somente no Brasil, morreram 195.000
pessoas vítimas de homicídios por armas de fogo.
Uma jovem da periferia do
Recife, na flor dos seus 20 anos de idade, aliciada por uma quadrilha
internacional de traficantes de mulheres para trabalhar em clubes noturnos na
Espanha, disse, literalmente, que mesmo se sabendo explorada, prefere ficar lá,
do que viver aqui, nesse mata-mata que é o Brasil.
A partir de 2000 o Mapa da
Violência sofreu uma mudança radical. Os investimentos em segurança pública e
privada cresceram nas grandes áreas metropolitanas, como Rio e São Paulo, onde
a violência era maior. Em decorrência do Plano Nacional de Segurança Pública,
datado de 1999, as taxas nessas capitais caíram para a metade nos anos
seguintes. Porém, em contrapartida, mais do que dobraram no interior e em
estados que tinham taxas menos elevadas. O que correu foi a disseminação ou
interiorização da violência. O estado de Alagoas que em 1990 ocupava a 11a
posição em índices de violência , hoje é o número 1, o estado mais violento do
Brasil, com uma taxa anual de 55,3. Em Maceió a taxa de homicídios é de 94,5 mortes por cem mil habitantes,
uma verdadeira calamidade. O estado de SP era o 4º lugar lugar do Brasil em
números de homicídios, com taxa de 42,2, no ano 2000. Em 2010 essa taxa caiu para 9,3. Hoje a violência voltou a subir em SP, mas ainda é o 25º lugar, com
taxa de 13,8. Mas, por outro lado, o estado do Pará que era o 21º, hoje ocupa
3º lugar. Nesses dez últimos anos, a violência caiu 44,7 para 22,1 em média,
nos estados de PE, RS, ES, RO, DF, SP, RJ. Porém, em outros 17 estados que
tinham as menores taxas, os índices de assassinatos cresceram, passando de 11,7
para 28,4 por cem mil habitantes. no mesmo período. O que houve foi a
disseminação da violência por todos os estados do Brasil.
O estado que tem menor índice de
violência hoje é Santa Catarina, com 12,5.
Outro dado recente é que 50% dos
homicídios no Brasil são praticados por pessoas que não tinham antecedentes
criminais, nem intenção de matar. Mataram porque perderam a cabeça em
determinado momento. São os chamados crimes de proximidade, que assombraram
as autoridades e motivaram a recente campanha midiática do Governo Federal.
Medidas paliativas como a
campanha do desarmamento de 2004, podem até ter melhorado pontualmente a
situação, mas só por um pequeno período. Quem mata, não é a arma, é o homem.
A violência está na cabeça das pessoas e é lá que temos que atuar, através da
educação.
Nunca a humanidade teve tantos
meios de comunicação à disposição do cotidiano das pessoas. Assistimos hoje,
eventos mundiais ao vivo, no mesmo instante em que estão acontecendo, podemos
ficar imediatamente informados de qualquer coisa, em qualquer lugar do mundo, a
internet nos dá uma comunicação instantânea, por baixíssimo custo, maravilhosa.
Nunca a humanidade esteve tão conectada, mas também nunca foram registrados
tantos conflitos étnicos, religiosos, de nacionalidade, de classes sociais,
lutas intestinas, por diversos fatores, sempre marcados por interesses de
preservação de poderes.
Os crimes violentos,
latrocínios, assaltos, sequestros, são filmados por câmaras espalhadas pelas
cidades. As imagens vão ao ar no mesmo dia, identificando os criminosos. Porém
tal não parece inibi-los nem um pouco, tão grande é a certeza de impunidade.
Eles parecem nem ter medo da polícia. Atiram para matar ao menor gesto, às vezes
nem isso. Nesses casos, aparece sempre um "dimenor" para assumir a
responsabilidade. E a polícia parece se contentar com a solução rápida e
fácil que se lhes oferece. Esses jovens certamente vão engrossar mais tarde as
fileiras desse exército de criminosos que assola o país.
Dos presídios de segurança
máxima, os chefes da bandidagem comandam seus asseclas do lado de fora.
Promovem ataques a delegacias, atentados contra ônibus, desafiam
autoridades, fazem circular dinheiro, mantêm rede de informantes e de
comunicação, desenvolvem planos estratégicos, enquanto os setores de segurança
e de inteligência policial parecem atônitos, sem saber o que fazer. Ficam a
apresentar desculpas e discutir se aceitam ou não a ajuda da Força Nacional de
Segurança.
Os homens do mal são práticos,
eficientes, trocam dois olhares e formam uma quadrilha, para assaltar, matar,
enquanto os homens do bem permanecem em reuniões, conferências, discutindo
teorias fora da realidade.
Porém, o que nos faz desenvolver
uma profunda reflexão é que, apesar de
tantos movimentos contra a violência, esse quadro desumano permanece, mesmo a
ONU tendo feito inúmeros programas em favor da Paz, ao longo de todos esses
anos. Ela declarou o ano de 2.000, como ano Internacional da Cultura da Paz e
com ele, iniciou a década da Paz, de 2000 a 2010. Promulgou o dia 21 de
setembro como o Dia Internacional da Paz.
A ONU continua insistindo que a
Paz é responsabilidade do Estado, porém a paz não se declara por decretos. Discursos
não são suficientes para se criar a paz. Sabemos que a paz se constrói na
vida cotidiana, no dia a dia, nas relações entre os homens, a paz tem que ser
acionada na cabeça dos homens e nas relações entre as pessoas e entre as
nações.
A violência de hoje difere da
violência de 50 anos atrás, quando tinha nome e sobrenome. Sabíamos quem era o
bandido, os agressores. Agora, a violência é difusa, não podemos imaginar de
onde virá, quem a fará. Um ato de violência pode eclodir aonde menos se espera.
Damos celulares, para os nossos filhos pois ficamos intranquilos, precisamos
saber onde eles se encontram, se está tudo bem, se não há nenhum
problema.
O tema da violência no Brasil
vem sendo pesquisado com muita assiduidade por organismos internacionais como a
UNESCO, a UNICEF. Tratados sobre a violência são publicados e feitos estudos de
âmbito nacional, como o problema das drogas na porta das escolas. A
vulnerabilidade da juventude tem preocupado sobremaneira as autoridades
governamentais, mestres, pais e responsáveis.
Temos que avançar na construção
de uma cultura da Paz. Educar pela paz, educação nas escolas, educar nos
valores humanos e na busca da paz.
Num estudo sobre suicídios,
assassinatos, sobre todos os atos de morte violenta no Brasil, foram observados
fenômenos marcaram muito essa atuação. Primeiro, há que diferenciar entre os
homicídios por armas de fogo, que chegam a 50 mil por ano, cujas maiores
vítimas são os jovens, e aquelas mortes por acidentes de trânsito, que no ano
passado atingiu o número absurdo de 46 mil mortes. Além de ceifar vidas, deixam
um sem número de pessoas mutiladas ou até incapacitadas para o trabalho e
dependentes para a vida, tendo como principal responsável os acidentes de
moto, que chegam a mais de 40% deste total. Esses índices chegaram a tal ponto que
desequilibraram as estatísticas demográficas brasileiras. Nós hoje, vocês
sabem, somos um país que tem 52% de sua população do sexo feminino e 48%
de homens. Não é só provocado pela diferença da natalidade, mas também pelas
mortes prematuras de brasileiros homens.
A visibilidade cotidiana, no
Brasil, avançou a passos largos a partir da década de oitenta, e com isto
podemos afirmar que a violência aumentou, atingindo uma proporção de
crescimento pavorosa em nosso país. A cada 13 minutos um assassinato é
cometido. Esse avanço se deu principalmente nessa faixa jovem que
praticamente triplicou. E, nos fins de semana, há um aumento de 30% no número
de mortes, consequência de um maior consumo de bebidas alcoólicas e do uso
excessivo de drogas, tendo chegado, no Grande Recife, a ocorrer 40 homicídios
por final de semana. Ocorrem quando os jovens ficam ociosos e os órgãos
governamentais pertinentes estão em regime de plantão, com atendimento restrito
a casos muito sérios. Por isto, a Unicef criou a Escola Aberta, quando os jovens recebem nas
escolas públicas, fora dos dias letivos, nos finais de semana, pais, professors
e voluntaries, com o intuito de promover jogos, brincadeiras, aulas de
capoeira, teatro, música, dança, visando diminuir a mortalidade violenta em
comunidades periféricas. Esse programa, espalhou-se por vários países, e hoje é
administrado pelas secretarias municipais.
Mas, quais são os jovens que são
vítimas de violência? De quem estamos falando?
De qualquer um. Sem distinção de
classes sociais. Eles, muitas vezes morrem até sem motivo, vítimas de
crueldade, num assalto, com balas perdidas, e por pessoas que se escondem atrás
de uma arma, usando-a como escudo para sua coragem e a pretexto de uma falsa
segurança. Nessas ocorrências, são atingidos principalmente o jovem negro e sem
recursos, morador das periferias, em comunidades carentes. Aquele jovem sem
educação, sem cultura, sem oportunidades, sem alternativa. Quando perguntado a
esse jovem o que eles faziam, sempre diziam a mesma coisa _ estava na rua,
desempregado, com álcool, drogas e más companhias, à toa, sem nenhuma ocupação
útil.
Como o Rotary se insere nesse
contexto, no intuito de minimizar este quadro assustador?
O Rotary tem programas como os
Centros Rotary de Estudos Internacionais para a Paz e Resolução de Conflitos,
em sete Universidades espalhadas por todo o mundo, que já formaram 600
militantes da paz. São multiplicadores de trabalhos efetivos
na busca da paz e mediação de conflitos. São cursos de Pós–graduação com dois
anos de duração. O Rotary abre inscrições anualmente para pessoas que tenham
experiência em serviços comunitários ou organizações não governamentais,
possuidoras de 3º grau completo e desejam trabalhar em instituições como
Médicos sem Fronteira, Cruz Vermelha Internacional, OMS, OEA, ONU, UNESCO,
UNICEF, em órgãos dos governos e muitas outras entidades que desenvolvem
trabalhos em áreas de conflito e que visam diminuir esses índices de
violência e guerra.
Existem
3 tipos de paz:
1. A paz ambiental, que é a preservação do meio-ambiente,
o cuidado com o aquecimento global, com a poluição, lixo, falta de saneamento.
O Rotary, tem inúmeros programas de proteção ao meio ambiente, como o Preserve
o Planeta Terra, instituído por Paulo Viriato Correia da Costa, quando
presidente do RI.
2. A paz social que é a paz nas relações entre
amigos, colegas de trabalho, vizinhos, companheiros das nossas comunidades, ou
simplesmente pessoas que passam por nós, frequentam as mesmas comunidades.
Rotarianos trabalham pela paz social através dos inúmeros programas
humanitários e comunitários dos clubes.
3. A paz interior que é a paz pessoal, a paz conosco
mesmo, no sentido de estarmos tranquilos por termos feito o nosso papel,
cumprido com nosso dever. O Rotary trabalha pela paz interior através de seus
programas educacionais e em favor das Novas Gerações.
Shalom, em hebraico, não é
somente Paz, mas a vida como ela deve ser, sem ódio, sem violência. O contrário
de Paz não é guerra, mas sim Omissão.
O símbolo da paz, a pomba branca
que carrega no bico um ramo de oliveira, é o símbolo do bem estar, de saúde, de
segurança, de relações sociais equilibradas, de harmonia consigo mesmo e com o
próximo, com o meio ambiente e com Deus.
A paz não chega pela mentira,
pela guerra, pela imposição da vontade do mais forte. A paz não chega pela
miséria, pela fome, pelo desemprego ou pela exclusão social. Os caminhos para a
paz foram ensinados por Jesus com a prática do amor incondicional, pela
fraternidade, da solidariedade, do perdão. A paz é a ausência dos excluídos,
das desigualdades, das injustiças sociais e das concentrações de renda.
Felizes são os que promovem a
paz, felizes são os heróis pacifistas, exemplo de dedicação à Paz, com suas
próprias vidas colocadas em prol da construção da Paz, como Paul Harris,
Gandhi, Madre Tereza de Calcutá, irmã Dulce, Martim Luther King, Viviane Senna,
Zilda Arns, Dom Helder Câmara. Felizes somos todos nós, rotarianos e amigos,
que temos a oportunidade de promover a Paz.
Obrigado a
todos.